Nova página 0

 

Vozes

 

 

 

 

    As vozes são um sopro que passeia pelos anseios como uma fumaça branca que dança furtiva. Adentram os meus ouvidos sem que eu me dê conta, me transformando em algo além do que me fora traçado. Então, meu amigo, sempre que tiver uma oportunidade, ouça as vozes e a melodia frágil que adormece dentro de você, como um casulo repleto de ovas de esperanças. Ouça-as. Ouça as vozes que sussurram nos seus ouvidos como fumaça branca. Escute as vozes e escute o seu significado. Escute todas elas, não só a minha ou a sua. Existem vozes infinitas bailando por aí a lhe dizer alguma coisa. Todas elas destroem um mundo e dão à luz a um universo. Esse é o poder das vozes: destruir um mundo e parir um universo. Até mesmo os parágrafos que você está lendo, são ao menos uma fatia da minha voz. Escute o que eles lhe dizem, e o que eles lhe dizem é: deixe que as vozes entrem pelos seus ouvidos e beijem os seus sonhos. O que eles lhe dizem é:
ESCUTE AS VOZES

A voz do dia de hoje é clara

como uma risada de criança,

branca,

portando ventos que anunciam o verão.

A voz da noite que passou

é misteriosa.

Uma voz insana.

Uma espiral

respirando

nas entranhas da insônia.

A voz do amor

me é desconhecida,

pois o seu significado

é proibido a todos os homens

que caminham vivos sobre a terra.

A voz do tempo

é a voz de Deus

e a voz de todos os homens

que caminham vivos

e mortos

sobre a terra.

A voz da rua que me espera lá fora

é dura,

apressada,

sem muito o que pensar,

apenas mundos a dizer.

A voz dos meus amigos

dizem uma só palavra:

oi.

A voz da literatura

tem o aroma

da beleza,

a textura da perfeição,

o sabor da ilusão,

e o som do desafio.

A voz dos meus textos

tem a tonalidade do medo

e do desconhecido.

(Não que algum dia eu tenha procurado por isso)

(Não que eu possa escolher)

A voz das vozes é sempre aberta e infinita.

Ínfima.

Diz tudo o que não queremos escutar.

 

Vozes que abrem caminhos no silêncio. Que abrem mundos no final das estações. Descarregam o seu caule nos portos que esquecemos dentre os recantos escuros de nós mesmos. Enquanto olho novamente por essa janela, contemplando o vácuo áspero do início da tarde, um céu vagaroso se acumula no horizonte. Ele fala com a voz da chuva (vai chover essa tarde). Vai chover tardes sobre a galáxia, afugentando naves espaciais com o som do desespero. É final de século, amigos. Não importa que um novo milênio infle como um bebê afogado no fel, é final de século, mesmo no ano de 2203.

Cante os tempos que não retornam.

Cante o final do século.

Cante as paixões do circo.

Cante as cercas que nos envolvem.

Cante as lágrimas que você nunca chorou.

Cante as risadas que despejou por aí.

Cante a morte.

Cante os atalhos do norte.

Cante os buracos formados no solo sagrado.

Cante a timidez.

Cante para a surdez.

Cante a insensatez.

Cante sobre as suas próprias decisões.

Cante sobre os mistérios da música.

Cante sobre você

e todo o resto.

Escute.

Escute as vozes.

Elas anunciam aos sentidos

os sentidos da vida.

Meu amigo,

VOCÊ É O SENTIDO DA VIDA.

O sentido da vida

é o que tencionam

as vozes.