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querido diário:
as cinzas das vaidades

O salão de festas se contorce e espreme os anseios de antigas sombras com as suas luzes e globos de cristal. Sombras maquiadas como clowns tomados pela doença do riso. Taças de champanhe estalando nos dedos de doces senhoras prestes a morrer de uma overdose de amor, inalada pelas narinas sangrentas de vidas afogadas em cocaína e perfumes fora da validade. As vidas e as artes estão fora da validade, consumidas por gargantas ávidas pelo vício, ansiando pela salvação, ou destruição, de toda a fé. A multidão está feliz e os assassinatos se aglomeram em segredo. Disputas são travadas nas bordas do salão. Uma banda old fashion transita dentre sucessos do passado em cornetas e saxofones e tenores. Todos são artistas. Todos, uma platéia ébria. Elogios ébrios que escondem as mentiras do universo e das galáxias, que como a nossa, foram consumidas pela própria desgraça.
O senhor de bigodes prateados aplaude freneticamente os poemas declamados detrás do pedestal de um microfone por um reluzente poeta underground. Os cabelos do artista são feitos da lua e as cores do seu terno maculam a inocência do fracasso e do anonimato. Ele é a vitória e ele está morrendo de overdose. Podemos ver nos seus olhos, por detrás da maquiagem, profundos como um abismo. Folheia as páginas pálidas do seu caderno de rascunhos enquanto as luzes diminuem: garotas, prêmios, retratos, oceanos, estrelas, corredores, tapetes, lugares ermos, luzes, mortes, sexo, dinheiro, nomes, deus. Ele pensa que é a sensação underground, ele pensa que é o criador da revolução, mas ele morre de overdose dentro da vaidade, decadente como antigos monarcas franceses. Seus pensamentos explodem num brilhante gêiser prateado de estrofes. O grupo teatral se prepara para encenar o poema mais notório, com atores notórios, que dão as costas para Hollywood e se dizem itinerantes. Mas o beco está infecto pelos olhares mortos e sorrisos gosmentos de todos os salões que permeiam a cafonice de um sucesso vazio. O sucesso é o coma. Não. O fracasso e o glamour são o coma do artista. Pois não existem artistas. Todos somos um só, ardendo no fundo desta fogueira de vaidades. A pira acendida por Tom Wolfe. Copulando nossos egos e éguas insanas.
As vaidades ardem dentro de uma fogueira escura. E nos restam as cinzas, brilhantes, espalhadas pelas mãos. As cinzas de nossos egos incinerados.
Então Underground.
Então Hollywood.
Então Pretty Faces.
Então Pretty Minds.
você é a grande sensação do momento,
espalhe as frustrações pela inocência
e erga a imortalidade podre que almeja
num único e redondo NÃO.
Faça de si mesmo um cálice de veneno.
A carnificina
atinge o ápice, espalhando poses sensuais e poses de rebeldia. A vaidade transborda
numa horrível nuvem líquida de penumbra que escorre pelos cabelos das maiores
mentes e sorrisos da nossa época. Eu posso nos ver em meio a festa.
Sorrindo e espalhando idéias patéticas, repletas de eufemismos, metafísicas,
egos, ids. Idiotas pelo saguão. Nós pensamos que pensamos. Pensamos
que o mundo gira em nossas mãos, como uma bola de gude azulada.

As pinups enviam beijos ao vento, e eles tombam na lapela do poeta. Ele assinou um grande contrato. Com uma pequena editora. Underground. Porque não quer se render aos holofotes. Pobre garoto ingênuo e mimado, a prole falida da Pop Generation. O underground é o holofote supremo pelos caminhos obscuros que ele percorre. No final tudo se resume ao afago hostil da ilusão nos cachos dos cabelos, e palavras bonitas devorando-se a si mesmas dentro de um estúpido salão esfumaçado. A fome reluz nos olhos dos que ousam se apaixonar por si mesmos. Pobres artistas e pobres mentes, doentes, todos perdidos dentro de um labirinto dourado chamado Versalhes. Morrendo de overdose antes das cortinas fecharem.
A paixão caminha lenta e melódica
sobre os pavimentos do medo
e pisca os olhos para o vazio
ignorando os pobres tolos
que a acompanham com o olhar.
Sem dizer uma palavra
sem bailar
apenas ali
como o supremo fracasso.
E ela bate na porta de um velho conhecido
e beija os becos
com sua língua áspera
de um sexo solitário.
A porta está aberta
e ela entra sem
pedir licença,
o acorda as sete e meia da manhã
e lhe diz bom dia
como vai.
Afasta-lhe os cabelos
dos olhos
e lhe beija a testa,
estende um espelho
que escurece a manhã.
Após vender os
direitos dos seus versículos vazios para a MGM, ele percorre a escuridão dos
sonhos perdidos pelas esquinas que conhece tão bem. Todos aqueles restaurantes.
Todos aqueles anfiteatros, todas aquelas danças, aqueles beijos, aqueles
cinemas, aquelas lanchonetes, tudo o que ele conhece tão bem, agora tomado de
tipos como ele. Os grandes heróis do nosso tempo, engolindo uns aos outros com
poemas, canções, gestos, danças, fortunas, desistências e revoluções, que os
fazem sentir-se como anjos antes de sucumbir ao paraíso. O grande poeta se sente
ameaçado com tanta genialidade transbordando de cada esquina. Agora tudo o que
não é fashion possui a moda e a moda se curva diante do junk,
como uma escrava lasciva, e as luzes dos holofotes alcançam até mesmo o fracasso
e a podridão. Aquilo lhe dá vontade de vomitar. Ele é velho demais, grande
demais, bonito demais, genial demais para mergulhar nas batalhas que tomam conta
das esquinas. Mas agora é tarde, pois ele faz parte da bile que envolve o
mundo. Todos nós fazemos. Todos nós somos maquetes únicas, o que nos faz iguais
a todo mundo. Todo mundo é único. Não há nada de original nisso.

& morremos únicos,
sufocando gemidos,
e perdendo alvoradas
enquanto nossas costelas se misturam em gavetas funerárias
e laudos hospitalares.
Em nossas mentes
a lembrança de um fim de festa
ruindo
como a vida
ruindo.
Únicos.
Únicos.
Únicos.
Únicos.
É o poema que a grande promessa do underground declama
em seu paraíso tóxico
debaixo de aplausos & drinks
& contratos
& duelos.
Ele pensou, um dia, que o underground
pudesse ter a inocência
da infância
e dos amores breves.
Grande ilusão.
Grande embuste.
A merda borroca os seus cabelos, e é só isso.
Não são as cenas, mas sim as pessoas sob as cenas que fazem a criação desabar em grandes farelos de arte moderna sobre uma cidade incinerada pela vaidade.
Somos tão bonitos e as palavras que dizemos dançam num círculo perfeito que faz o salão curvar-se aos nossos pés.
O grande poeta toma mais um drink do seu pequeno pecado on the rocks e passa para o próximo poema. Ele não olha para frente. Não olha para as palavras. As palavras sempre foram uma grande merda afinal. Ele sempre esteve enterrado até o pescoço num profundo charco de fezes onde todos estendem os braços para cima e tentam respirar, antes das narinas serem tomadas pelo excremento. HUMANIDADE.
BEAUTIFUL MINDS
DYING IN BLUE SKYS
& BLUE DREAMS
INSIDE.
LIKE SOFT PEARLS IN PARADISE. LOST. FROST.
Qual dentre nós irá matar o rei e roubar o cetro de brilhantes arraigado nos seus dedos? Retirar os cabelos loiros de sua cabeça e gritar palavras adornadas em diamantes rubros para uma multidão de assassinos? Pegue a revolução em suas mãos e espalhe pelo rosto como rosas esmagadas. Passe pelos cabelos. Faça os espelhos gritarem. POIS TODAS AS CIVILIZAÇÕES SÃO ESPELHOS
PARTIDOS.

O grande poeta já está morto.
Mas não importa,
foi o que ele sempre quis
DIZER ALGUMA COISA.
Não.
QUE DISSESSEM ALGUMA COISA.
SOBRE ELE.
PARA ELE.
agora ele lê cartinhas
toma drinks
e se esconde
de palavras esquivas.
& quem disse que a Salvação
não poderia ser
uma escura pira
crematória?
O grande poeta
nunca foi nada
além
de uma imagem
refletida no espelho.