\n'; document.write(barra); } } changePage();
SUSSURROS
ODE A UMA ESQUINA
Sempre é madrugada
& chove lama
quando eu chego à seus ratos &
prostitutas.
JAZZ URBANO
Vento poeirento sem rumo
__conexão com o caos __
vibração atonal nos ouvidos da
metrópole.
Ela ergue-se ao céu noturno
como uma lânguida serpente poluída
& derrotada
(fúteis ansiedades no ar)
vê?
Músicos fantasmas choram
lamentos eternos
(translúcidos na chuva)
__ lúcidos __
o cosmos vibra em êxtase.
FRIBURGO
ela permanece dormindo
em sua lenta hibernação
(lesma em torpor)
esperando pelo próximo suspiro
na próxima estação.
GRITOS DO FUNDO
Maré de concreto deslizando pela
longa estrada no meio da estrada.
__ transeuntes nadando __
Invadindo os bairros das senhoras
com sua espuma de fuligem
& falsas pedras preciosas.
(GRITOS HABITAM EM SUAS PROFUNDEZAS)
__ cegos. Peixes sem olhos. Conformidade na escuridão __
Luz artificial povoa suas correntezas
como garotas manhosas.
HAIL ED WOOD
Hail aos céus dos holofotes!
Apontados para algum falso chão
com carpetes de purpurina
& câmeras
observando os olhares de desdém
no interior de janelas urbanas!
Hail à imaginação barata dos anos 50!
Discos voadores sobrevoando lanchonetes
ao sol do meio-dia
(impossível de se ver)
Hail, Hail, Hail!
Celebração vespertina
Benzedrina
endorfina
Cartolina!
Hail ao falso Welles
& todo o seu talento escasso!
__ escassez em abundância __
jorrando por poros siliconados
Hail aos clones!
Hail, Hail, Hail!
CANÇÃO PAGÃ
Espetáculo.
Tendas circenses
místicas.
cavalos selvagens voando em fogo
bandidos entoando cânticos proibidos
__ alegria ocasional do verão __
__ o ocaso do artista __
é como eles chamam.
corpos celestes surrupiados
( incoerência &
suave decadência )
Circos místicos
círculos de povos
bárbaros
envolvendo a frágil mente da menina.
Fios dourados dançando
Amor Florestal!
Pilares de deuses
destruídos &
espectros libertos
nas palmas escorregadias
da Fatalidade.
Cartas de baralho
__ blefadoras __
sob nossas especiarias.
Estamos indo à Casimira
vento colorido & delírios
ao léu
em todo o caminho.
Dados arranhados
orégano
orações
Oriente.
Cores sensuais
beijando a face da
consciência perdida
em um ingênuo labirinto.
__ Gentil corrupção __
eles chamam.
Mais um passo e chegaremos lá
tocando a carne de cinzentos mantras.
Irracional.
A glória animalesca do poder primal
(um grito)
celebração.
além do bem & do mal.
__ Espetáculo matinal
de calor __
Rituais & frutas cítricas
em cabelos emaranhados.
__ Frágeis mentes adornadas __
HAMLETIANO
Ilusão
crueldade ao despedaça-la
por um espelho tirano (a possui)
Brancor flutuante na tempestade de areia
torna-se pó em movimento
que adormece os olhos pesados de nossas realidades
& risadas femininas não ouvidas.
Desdêmona. não.
Hamlet
com a face rocha por detrás de
um caixote de Pandora.
Pantera.
(ele perdeu a Dinamarca
& sua voz é oprimida)
(apenas fantasma infanticida)
O sono do dragão
em vão,
como a virgindade perdida
de lençóis ensangüentados.
Ele olha amaciado para a marcha
funerária
__ gargalhadas, caixão __
( será? correntes nos buracos dos vermes?)
que atravessa prepotente a cidade
fora do alcance.
Sacrifício usurpante.
Inferno de Dante.
Tudo se mostra claro aos olhos do príncipe
lhe tornando cego com o
sangue do anfíbio
(sepultado em ouro)
As cores se engendram nas raízes da terra
espreitando séculos.
Fênix renascida.
DOMINGOS & PLAYMATES
Playmates corredias
__ numa folha amarelada de mulher nua ao vento
(baba de cachorro presa nas bordas)
__ ondulante mar espanhol __
monstros & gáleas.
O dia perigoso baixa a guilhotina
em pescoços esparsos.
Bosta! Eu me tornei a bosta quente dos ânus urbanos!
domingo abostalhado
__ abestalhados dominicais __
short xadrez ornamentando as pernas pálidas de meia-idade
flâmulas brancas sobre esquálidos peitoris
de papais dormentes.
cabelos lavados em miséria.
O leito de Pilatos.
Carruagem torta
playmates mortas
& sêmen juvenil petrificado nos bancos da tarde
(morte nos bancos da tarde)
múmias nos bancos da tarde
merda nos bancos da tarde.
Tudo é muito tarde.
Um artista estranho contempla os fios refinados de seu bigode. (mentindo para si mesmo dentro de um reflexo embaçado)
pés chafurdados em alcatrão. Perfuram a distância.
__ Uma mina diamantina guardando vidraças. __
playmates aterrisam nas caras límpidas
dos babacas de domingo.
Finalmente!
(o fim está próximo!)
A Igreja destruída nas cartas do tarô.
O dia da exceção.
Todos os dias são exceções do impensável.
__ eu sou o improvável __
única palavra:
improvável.
OH, POEIRENTA MANHÃ DE PÁSCOA!
Oh, poeirenta manhã de páscoa
com seus rastros
de fachos
de sol
dando risadinhas de crianças perdidas
em alguma conspiração imberbe!
Não há nenhum catolicismo em suas afirmações
somente silfos pagãos. __ a dança da manhã __
& um ônibus inebriado entre
preguiças e olás
dizendo EU TE AMO.
ESTE É O GRANDIOSO ÔNIBUS DO OCIDENTE!
QUE PAIRA NA BRUMA DA POLUIÇÃO
ATÉ A PRÓXIMA ESTAÇÃO!
__ todos os bairros estão mergulhados nos bocejos otimistas
de uma visão de pássaros oceânicos
& entonações montanhesas
& padarias azuladas
que fazem a Ceia de Jesus,
nas pradarias maculadas
de donas-de-casa. Aposentados. Jogadores de video-games.
__ Hippies em comunidades de "não, obrigado. até mais".__
__ cachoeiras ignorando a escassez __
Em algum ponto disso tudo
uma garota escolar
chora por amores & amadurecimentos conquistados
ela tem a eternidade encaralocada por seus
cachos caracóis de início vespertino.
& o cansaço nas mãos manufaturadas.
Oh manhã! Há cinzas nos seus minutos vindos.
mas eles não têm voz
na concepção da inocência.
Nós somos a afirmação do céu.
& tudo é belamente
transparente
aos olhos do poeta.
(eu gostaria de ser um deles agora
ao invés de um homem e seu choro.)
O dedilhar nas tonalidades do real.
O despertar de chalés dormentes
cachorros carentes
cercas vívidas
carros em garagens
quintais.
Desfilam pelo tapete vermelho dos feriados.
__ a saliva da Páscoa ruma ao Leste
encontrar os seus amantes.
Daqui até depois
(uma pérola na ostra.
o depois vem depois.)
11:00hs.
tudo é um só.
& tudo está.
MELODIA DE AMOR FORA DO TOM
Ela chora com os olhos erguidos
e apáticas retinas num filete de bijuterias.
(dedos esqueléticos perdidos em alianças
rejeitadas)
Coroada nos ungüentos de sal
__ sílabas cravejadas __ & cantadas baratas
nos cabelos.
Olhos piscam
púrpura
noturnos
luminosos
sibilos
símios arcados.
A Rainha da Arcádia
reinando em arcades
eletro-sinfônicos
(ásperos adolescentes)
Quem duvidará dos rios lascivos que mentem
para andarilhos & palácios?
Quem tocará o júbilo urbano vestido em condicionadores capilares?
Ela os acaricia
como cachorros em transe.
__ tapete de lua __
palavra crua.
O banquete. A gazeta.
Nem mesmo todos os game overs
\n';
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sua saliva refletindo cores televisivas
submersa em infância.
Aqui estamos, no limite
nas bordas da sua aridez
nos ermos dos seus ronronados-fêmea
imaginando nãos
corroendo os assoalhos
querendo beijos e moedas
__ as 10 horas entre dentes aparelhados __
rasgando serpentinas
dum festim esquecido.
Uma alma loira
tocando lira
& amassando lírios
de onde nasce o céu ruivo. (num Éden digital)
Letreiros quebrados. Como fantasmas de argamassa.
debaixo do escárnio urbano.
__ Lápides lapidadas __
num diário
de uma década.
No final do som
há apenas sussurros.
SESSÃO NÚMERO 2
Templários em urros
fazem o silêncio
em cenas descascadas
de dentro do cinema.
O calor dos vaga-lumes
oprime seus peitos. Mata seus tickets.
ADÁGIO CANINO
Este é o último dia do meu cachorro.
o disco arranhado canta cabelos embaraçados
numa faixa eterna
de tons e túmulos
cheios de jazz.
Seu focinho pede por mais uma vez
enquanto seus olhos dizem
talvez...
As florestas chuvosas cheiram à lama dentro de seus pêlos
escurecidos por orvalhos canalhas,
pisoteados por pés de soldados do tempo
_ enquanto o homem do tempo exibe seus
cânticos de temperatura estável na tv.
c/ sorrisos escovados
sorrindo em marketing.
O último dia do meu cachorro foi amaldiçoado pela tarde.
(ela não se importa com nada
que fale ou
ladre)
Ladrões de amanhecer.
A injeção de morte
dança com o meu cachorro
ausente de voz
vermelha
ruborizando suas patas adormecidas.
e a ração que o espera na cozinha
& o jazz que toca quebrado
& a coleira banhada de tétano
& os vizinhos com seus laranjais.
Chat Baker não sabe tocar adágios
_ o meu cachorro é um adágio _
& ele tem grinaldas de au-au
seu rosto é uma coroa.
Ele me espera da rua
me dizendo o último latido
imerso em falsetes sem timbres.
suas litanias
marcadas nas páginas amassadas
__ camas __
As aspirações envelhecidas garimpam
caminhos
pelas respirações ofegantes
de um amigo canino.
O último dia do meu cachorro
não foi o último afinal.
CAVALOS VAZIOS
Cavalos vazios
ruminando súplicas
narinas
__ vazias cavernas __ em chamas.
Eu os vejo cavalgar
pisoteando perfumes esparramados
em destinos erguidos por sobre os paralelepípedos
(caminhos paralelos).
Relincham em sangue.
Crinas
feitas de neve
& de medo.
Elevam suas faces de prata
até onde as terras
se perdem
&
perdem
sua árida ressonância.
Cavalgam pelos ínfimos corredores
dos transportes
públicos.
(transportando o desconcerto)
Eu os toco
& eles se afogam no próprio suor
& olhos chorosos do animal
orbitando vazios
__ tempestade em fúria __
Soando gritos suados
nos tímpanos surdos
dos ferimentos.
surto.
Eu vejo agora,
cavalos vazios
ariscos
__ arredios __
saídos de cavernas vazias
por onde caminham as frases.
__ relinchando palavras vazias __
COMPANHIA ESTRANHA
à espreita
olhos na janela
testemunhas
garras na ferida
vozes distantes
nos ouvidos
ela não sabe o que há ao redor
ciumenta
& obsessão
algo seco
certeza indócil
promessas
a noite é sempre nervosa
e não tem nenhuma paciência comigo.
UM REFRÃO BATIDO
& quando o amor se espalhou pelo asfalto
ele pregou uma nota na geladeira
avisando que
ficaria até mais tarde.
& enfrentou o sol
& lembrou soldados
& prestou tributos.
quando o amor
arrastou
cansado
ao chão
ele olhou para os lados &
coçou o queixo.
Indeciso.
BEAT! B! BLEARG!
BEAT! BEAT! BEAT!
A BEAST IN THE CAVE! A FEAST IN THE GRAVE!
AND ALL THE GRACE! BEAT! HEAT! FEALING WEAK!
BEAT! BEAT! BUUMM! BEAT!
BEATNIKS! KILLING SPUTNIKS! WITH LAUGHS!! & FREAKS!!
BEAT! I'M BEAT! I'M DOWN! I'M BEAT! I'M CLOWN!
BEAT! BUUMM! BOOMERS! THE WORD! THE SWORD! I'M HERE TOO! BEAT! WORLD WAR II !
BEAT! THE BLOW! THE BEAT! ALL!! BEATEN DOWN!! SINGING SONGS! CLAPING HANDS! SAYING "OOHHS"! AND EVERYTHING!
EVERYTHING IS BEAT! EVERYTHING CAN BEAT!
RED MARKS IN THE FACE OF GOD! THAT'S BEAT! THAT'S BLEARG! THAT'S NOW! THAT'S YOURS!
BEAT! BOOMM! BLOOM! BOMB! BEAT! SONG! BABY BOOMERS! BABY IMPECHEMENTS! BABIES BORNING!
EVERYTHING HERE IS BEAT.
IS BEAUTIFUL.
BE IT.
CADA GOTA DE ORVALHO
cada gota de orvalho
que cai de uma noite morta
na ponta do meu nariz
canta as galhofas
do zumbido
do mosquito
que me diz
em voz
morta
de palavras tortas:
"você não é
e.e. cummings."
A MORTE LÂNGUIDA O ENCONTRA NA ESTRADA
Chuva sonora,
ardente.
Fogo do espaço na lama envelhecida
e no rosto batido
pelas patas de cavalos ariscos.
O mato entra pelas narinas
tocando-o
com orvalhos
e últimas palavras.
Últimas palavras.
Nenhuma palavra.
Nenhuma palavra.
Contas a pagar.
Últimas palavras.
Amores abandonados
Últimas palavras.
no portão de sua casa
Últimas palavras.
agonizando sob um sol laranja.
Últimas palavras.
Um casal de filhos.
Últimas palavras.
Um cachorro velho.
Últimas palavras.
E o solo deserto
esqueletos
moinhos de vento
cobertos pela areia de vidro
que cobre o seu rosto.
Últimas palavras.
Onde está o Deus
que molha a sua Bíblia amarelada
com lágrimas de Amor
e Perdão?
Últimas palavras.
Ele olha para o céu,
uma memória vazia e negra
desaguando nas roupas
e no seu corpo curtido.
Pobre, pobre, José
velho, velho, José
morrendo
e esquecendo
aos pés de um calvário de barro.
Tentando achar palavras para as suas
últimas palavras.
Últimas palavras.
O dia não tem pressa de acabar.
A vida está aqui
mais uma vez.
Magra
e corroída
como os caminhos
de pântanos
e charcos,
mucosos
putrefando as suas pegadas
até a sua casa.
Ele é um jarro de água
e um maço de flores.
Um pranto consangüíneo
no inverno.
& todas as famílias honram os seus mortos
lhes tirando do caminho.
Últimas palavras.
Faça a minha vida numa canção.
Últimas palavras.
Os minutos de religião coagulam
tristezas,
flutuando
no fundo de
suas vistas afogadas.
E a alvorada
a alvorada
a alvorada
colorindo o fim do caminho.
Últimas palavras.
Tão sozinho.
Últimas palavras.
Último moinho.
& o fantasma de Walt Whitman
fala sobre pés calejados
que esmagam terra batida
dia após dia
do outro lado da ponte.
A ponte,
meu amigo,
a ponte quebradiça
que transporta pobres
almas pobres
como você.
Embarcações de desabrigados,
como você.
Diz Walt
ferindo as alvoradas
vermelhas.
Últimas palavras.
Walt Whitman.
Últimas palavras.
O amor é mudo
e desavisado.
A despedida
longínqua
se aproxima
com os ventos
de poeira.
Mudo.
E desavisado.
Ele busca pelas palavras
mas é mudo
e desavisado.
Últimas palavras.<
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Suas
Últimas palavras
me perdoe
por não tocar você
senão em
últimas palavras.
FRAGMENTO DE REALIDADE
Eu procuro respostas nestas formas
todas mortas
e abertas.
Jim Morrison
morto aos 27
poetas perdidos em rios
de ouro
vozes retidas
em espectros armados
com eras e sangue.
& me esqueço
de que nenhum deles
é mais do que uma dúvida.
As vezes
se está tão desesperado
que se procura respostas
até em si mesmo.
ANTES DO MEIO-DIA
Sentado na cadeira em frente à janela.
Coberto pela manhã das onze horas
de um mundo, que é um grito aberto,
uma boca aberta de sóis
e céu azul,
a música dos Mistérios.
Eu vejo as montanhas
e o despertar das verdades.
Novos dias chovem sobre a minha cabeça.
Talvez os cachorros estejam dormindo e
os uivos tenham sido abandonados para o Passado
(eu não escuto os uivos do medo).
Minha cadeira fica de frente ao brilho amarelado
do princípio da vida.
E eu espero
pelo sorriso da manhã
que deve chegar hoje
ou amanhã.
SÓ UM BEIJO SÓ
O caminho partido
levando ao acaso.
O beijo vermelho
da Musa
ou da
Morte.
Aqui estou eu
num caminho de terra batida
pisando
nas glórias
e segredos
escusos
no escuro
no escuro
no escuro.
Um segredo escuro
que percorre atalhos
e jornadas
como a manada de viajantes
eles pulam no abismo.
& ninguém escuta suas poesias
que agarram os gritos.
O céu embrulha a si mesmo
neste emaranhado de prantos e
emoções
abre suas asas
para todos os que testemunham a
alvorada.
Suaves mentiras aladas
cantando na madrugada
e eu aqui
conto os dias para o destino.
Canto os dias para o destino.
Como se eu acreditasse no destino.
Não acredite no destino
ele mente
quando você vira as costas.
TURNO NOTURNO
hoje à noite eu tenho faculdade
um mundo antigo e petrificado
entre cadeiras e quadros negros
filetes de gente
fantoches ossudos
o quadro
de uma aquarela negra
que espelha as vidas revoando ao vento
eles me ensinam
a ser um bom menino
e a matar a tragédia
com quartos alugados no início da minha jornada
e carros importados no fim
de uma manhã
nublada
janelas fechadas
olhos fechados e vazios
um punhado de amores escassos
boiando
em fino córrego
indo em direção
ao final feliz
macabro
como todos os finais felizes
sempre são
e a faculdade me espera hoje à noite
paciente
lânguida
felina
uma fêmea de concreto
mordendo esperanças fugidias
para me dizer
tudo de novo
e de novo
e
de novo
uma boca desdentada
exalando o enxofre fumegante
do futuro
que engole o breu
e eu
e eu
e eu
e eu.
MADONA MUNDANA
Esse dia
de dia
disinteria
eu pasmei quanto vi teus olhos
ruiva incandescente
cercada de gente
pairando nas esquinas
parando as oficinas
musa do folhetim
aromas de jasmim
garota da capa
do calendário
passou por mim
com suas mechas vermelhas
rasgando o vento
e a poeira
e a sujeira
se curvava aos seus pés
como eunucos submissos
você passou por mim
sem me olhar
sem saber me amar
e nossa história teria sido bonita
se nesse dia
eu não tivesse soltado
o maior barro da minha vida.
A MAIOR ESTRELA DO MUNDO
a maior estrela do mundo
brilhou
numa noite sem brilho.
e todo mundo disse
BUUUUU!
PEQUENA RESPOSTA
Um dia
eles me disseram:
"Ed Wood não é cinema."
Me disseram isso
debaixo das estrelas sufocadas
pela estática
das parabólicas.
Fitando a cegueira das luzes
num corredor de doenças hospitalares
e esperas
no final de uma fila
ao longo das esquinas.
E eu disse:
"E daí?
Isso não é vida."
UMA CRIATURA EM SUA TRÁGICA CONTEMPLAÇÃO
Amanhã é meu aniversário,
25 anos.
A parte engraçada dessa
trágica contemplação.
Aqui estou eu,
um garoto,
o mesmo dos dez anos atrás,
que me parecem dias
secos.
Sentado na cadeira,
recém-saído do ninho
do sono.
Os sabiás balançam o fio telefônico
e encaram a noite no
fundo dos olhos.
E estou fazendo aniversário
à meia-noite.
Nada mudou,
continuo o mesmo,
o tempo não existe,
& mesmo assim
faço aniversário.
25 anos,
mesmo assim.
Dois anos a menos
que Jim Morrison.
Um ano a mais
que James Dean.
COMERCIAIS
& o medo,
a saliva quente
borbulhando no céu da boca,
a televisão ligada
frenética
estética
estática
a luz piscando
como segundos esquecidos
que antecedem
o fim.
Sirenes vermelhas,
gritam
e observam o contorno do desespero.
O jornal diz que estamos desesperados.
Cegos.
& o medo
jazendo no suor
como gotas
de um amor empalhado
pairando
sobre a estante.
Fotografias emolduradas
poltronas forradas
papeladas do divórcio
diploma amarelo
beijos manchados na pele
trocados no bolso
noites de inverno
repletas de calor
coagulado
no cotidiano.
& o medo
mostra a sua face
quando acaba o noticiário
e começa os comerciais.
CABELO
Meu cabelo está crescendo como um emaranhado de
serpentes.
Um vulcão extinto
de mexas negras
e estática
escura
vazia
só.
DEPOIS DE CHEGAR EM CASA
Me encosto na cadeira
após o almoço.
Os olhos ardendo
pelo sol vermelho que pulsa
como uma espinha
de pus
explodindo no céu,
os cabelos molhados de suor
e shampoo
e as unhas crescendo roxas
nos meus dedos.
Olho para as palavras
inférteis,
com seus corpos de fetos mortos
boiando na placenta,
e não enxergo nada.
Os minutos não passam,
zombam de mim
com a placidez da tarde
e as frases morrem antes de brotar nos lábios.
Acho que isso deve se chamar de
um dia daqueles.
ENQUANTO LEIO
Enquanto leio um poema de
Bukowski
penso na menina que nunca tive,
no dia de ontem
que já passou,
e no de amanhã
que não existe.
Atiro os versos pela janela,
se é que posso chamar de versos,
vejo a chuva
consumir a agonia,
vejo os pingos de água
caírem ácidos
sobre a minha sombra.
Adágios
sob as brumas
escuras
das calçadas.
Adágios que penetram na música
dos homens
e das coisas.
Talvez eu deva fechar a janela
e acender a luz,
mas isso só irá me trazer
mais sorrisos,
mais nada a se fazer.
Mas nada a se fazer.
PRESIDENT'S WISH
a horda de insetos
cruza o céu escarlate
batendo por uma última vez as suas
asas em chamas.
olhos
afogados.
as criaturas da noite.
enquanto Nixon balança o balanço da morte
sob os olhos atentos de Watergate
e a penumbra árabe
abre os braços
num abraço de metal
relembrando o passado
uma casca vazia.
DAY BY DAY
Escavando o seu quarto
em busca de velhos tesouros.
Estrelas de ouro
e lua
molhada
dentre
suas almas
suas almas.
Nada mais é como costumava ser.
Nada mais lhe diz
nada
de mais.
Tudo é um solo de vidro
abaixo dos seus pés.
Apenas estátuas de gesso
de antigos deuses,
agora enterrados
nos escombros
dos estilhaços.
Os sonhos estão arranhados
como os discos que mofam
na prateleira
e na poeira.
Abre a cortina,
só pra arejar.
Seus vizinhos
planejam assassinatos.
O seu amor se mudou.
Hoje foi um dia longo.
DEZ E QUARENTA E CINCO
Ela apalpa as maçãs e
as bananas
às dez horas da manhã,
quando o mundo
ainda não abriu o seu horrendo sorriso desdentado
repleto de poros e línguas,
e desgraças.
Não.
Não há montanhas, nem esperanças, nem amores,
nos raios
de um sol epilético.
Somos todos epiléticos
balbuciando pelas esquinas.
Todos gritam feito maníacos
e ela atira frutas e legumes na sacola
enquanto os marmanjos assobiam para as minas
mais novas
que desfilam com as suas mochilas
e olhares vazios.
Um marido doente e bêbado dorme nos restos de uma
noite inflada,
às dez horas da manhã,
sonhando com garotas de oficina, rodas cromadas, finais de
campeonato, assassinatos, gols e sangue e dinheiro e luas em fúria,
enquanto ela caminha pela feira
envolta de mar e ondas
por toda a parte.
Ela É O MAR
Ela É OS FRUTOS CAÍDOS,
APALPADOS ÀS DEZ HORAS DA MANHÃ,
Ela É O ABANDONO ADMIRADO POR TODOS.
O ar exala odores longínquos
e clamores de folhetim
para um ouvido surdo.
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exatamente as dez e quarenta e cinco,
quando o seu marido acorda
e as crianças correm,
sorrindo e chorando,
como todas as manhãs.
GARCIA LORCA
Garcia Lorca distribui
feridas vermelhas
que nadam na magia.
Mas eu não leio espanhol
bem o bastante
pra escutar a sua canção
e tocar os cabelos enrolados
dos anjos e dos anos
escondidos dentre os versos.
Baudelaire
dança por todo o sempre
em terrenos incinerados
de negrume.
Seus olhos são prata
e seus dedos são morte.
Mas eu não entendo o seu francês
que roga pragas para a sorte.
Rimbaud
beija a boca do inferno
como uma alma feminina.
Ele beija a sua boca.
Uma verdade ferina.
Mas eu sou apenas um
andarilho latino-americano
defronte ao Mc Donald's.
Ginsberg
Oh, Allen Ginsberg!
sempre sempre sempre
entoa o labirinto
para além da vida
e o mundo escurece com o seu
silêncio.
O seu silêncio
escurece o mundo
para os olhos fechados da nação.
Mas eu
eu não sei uivar
numa noite sem lua.
Mario de Andrade
pinta aquarelas
amarelas
e sussurros nauseabundos
por onde caminha Macunaíma.
Por onde dormem
almas vazias
e meias mornas.
Mario de Andrade declama
suaves tragédias
- ou trágicos nascimentos -
encostado nos postes paulistanos
meia-hora antes de começar o espetáculo.
Mas eu nasci tarde demais
e as cortinas se fecharam
meia-hora depois de acabar o espetáculo.
Charles Bukowski
fenece,
um duende ébrio de olhos vermelhos,
condenado a narizes e aparelhos
que pesam sobre suas costas.
A última palavra:
não tente.
E eu sou estúpido
e corajoso
demais
para ouvir a morte.
Dorothy Parker
mata o marido
e com as cenouras manchadas de sangue
olha para os filhos
estendidos na porta da cozinha,
como estátuas de pedra-sabão,
e faz a História,
a velha puta flácida,
meio insana,
chamada História,
curvar sobre os seus pés.
Os chinelos escorregam
pelos dedos amarelos.
Mas eu não voltei para o almoço.
Eu trouxe porcos
e bacon
para o almoço.
Miguel Piñero
dorme sobre o gueto
enquanto os sonhos brotam dos pesadelos
e fazem nuyorican poets, hip hop masters,
guerras, guerrilhas, gorilas, prostituição, olhos afiados,
bandidos correndo sob o encalço febril de sirenes rubras,
Jesus
doente
sonegado,
céus mortificados
apedrejados por
soldados chicanos
que só querem um pouco de paz e soledad
na cidade de deus,
miséria e
fome e
doença
e fetos nas lixeiras,
todos,
todos,
chorarem.
E das lágrimas
brotam luas
sobre o gueto.
& eu não estou lá.
Eu simplesmente não estou lá.
Eu não estou lá.
Nem aqui.
Ao menos estou melhor do que eles,
que não estão nem aí.
Velho poeta porto riquenho
ecoa no disparo do suicida
e nas maldições de Eminem.
Contribuintes passivos
trancam as portas dos seus túmulos
do interior de uma fortaleza tecnológica,
repleta de câmeras e alarmes e vigias e
assovios e piscinas e vizinhos,
enquanto apresentadores de programas policiais
balançam traseiros flácidos ao gritarem em uníssono
"É um absurdo! É um absurdo!"
Miguel Piñero,
um pinheiro sozinho,
indomado,
coberto pela escuridão da neve
e névoa do inverno,
movimenta os galhos secos
em meio à infinidade de pinheiros de natal
dormindo sobre o gueto.
E eu não estou lá.
Eu vejo as festas de fim de ano
marcharem
num desfile de veteranos saídos de guerras e eleições,
ásperos,
como as despedidas.
Ana Cristina
escreve um livro no escuro
_um lampião murchando lentamente,
enquanto a chaleira assobia e
do lado de fora a relva é banhada pelo orvalho.
Um filho no escuro,
dentro de uma chácara de portões enferrujados
nos fundos de uma cidade rasa,
de onde urram as corujas,
alguns sapos e rãs,
e nenhuma canção escolar
pode ser ouvida.
Nenhum beijo estalado,
nenhuma canção de ninar
pode ser ouvida.
Nenhuma criança querendo brincar
pode ser ouvida.
Nenhuma lamúria entoada
para a luz do luar
pode ser ouvida.
Ana Cristina mancha com a bico de pena
um ponto final
no escuro
e nenhuma canção de ninar
pode ser ouvida
no último dia
da sua vida.
Mas eu não sei qual,
dentre tantos portões,
guarda para mim
um ponto final.
Maiakovski
anuncia a chegada da trupe,
disparando flechas;
as portas estão abertas
e as feras
soltas.
Tigres dentes-de-sabre
travam guerras com mamotes
e o sangue é cuspido do solo.
Levantemos nossas taças.
Ele acaricia as muralhas de vidro
enxergando mundos do outro lado.
Mundos profundos
guardados
pelo lago.
Ele vê árvores por todos os bosques,
lindas mulheres repletas de pernas;
transpassa os reflexos com suas garras de
louco
e se dá como presente
ao nada absoluto.
Eu sou muito mais do que o nada.
Torquato
é despedaçado nas esquinas
por caras brutamontes
vestindo camisetas pólo,
vermelhas,
que ridículo,
e pequenos óculos escuros estendidos em cabeças
desmilinguidas.
Ele tenta falar,
o pobre Torquato,
mas a cidade o cerca como
uma cerca de arame farpado que envolve montanhas
imortais,
e corta o seu cabelo,
expondo a sua cabeça para o dia claro
e pros caras no final do corredor,
que irão carimbar o seu histórico
e lhe dar alta
quando os seus fios de cabelo
estiverem fracos demais,
sobrepujados demais,
para crescer novamente.
E Torquato continua tentando falar,
tentando enfeitiçar a toda a gente,
com o cabelo tosado,
coberto por camisas-de-força,
adoradores dos anos sessenta,
canções de amor tropicalistas
e caras vestindo camisetas pólo de um vermelho berrante,
ele continua tentando falar.
Tentando enfeitiçar a toda a gente.
Sorrindo às bordas do Estíge.
E eu continuo tentando,
tentando dizer pra vocês
o que tudo isso significa pra mim.
Mas todas as tentativas
são apenas tentativas.
Como tudo o mais.
MEUS SORRISOS
I
e então, ontem,
acordado de um sonho dentre os sonhos,
escutei o rufar dos tambores nas promessas
de vozes conhecidas.
e então, ontem,
quando os pássaros buscavam abrigos na escuridão
da chuva que transpassava
as curvas
e poças
turvas,
dei de ombros ao
zunir das motocicletas,
que lembravam lanchas
ou sorrisos sem
dentes.
e então, ontem,
eu anunciem o meu silêncio
assim que atravessei os arcos do portão.
atrasado,
como sempre.
calado,
como sempre.
como sempre,
tocado
por sorrisos
trancados.
como sempre.
II
jaulas esparsas de fumaça
rastejando pela laje,
relva molhada,
negra,
quando entrei e estendi a mão,
saudando o mundo e os amigos.
"ei! como vai! bom te ver!"
fitei
os seus olhos entre a bruma.
uma panela enferrujada na única boca do fogão,
abandonada, naturalmente,
enquanto a música não encontrava saídas por onde fugir.
então, ontem,
tudo parecia tão inerte.
um grito preso.
a sala escura, as garotas dançam, a vitrola
para ninguém.
a arte definhava dentro de mim.
os meus dedos cansaram de latejar sobre as pétalas
das rosas secas
que se tornam seda.
caem nos meus pés.
não mais rosas,
brancas,
como a fumaça dos cigarros nas mãos de
pessoas que nunca vi na vida.
todo o lugar cheira a sexo
e desesperança,
e música.
o cheiro da música
passa por mim,
mas estou impregnado de silêncio.
todo o lugar é um antro luminoso e solitário
em que estamos perdidos.
se encostar os seus ouvidos nas paredes
poderá ouvir os gemidos
por detrás das promessas,
escondidos,
enterrados num dia
desperdiçado.
iremos para o inferno, todos nós,
por cada dia que nasce
da masturbação de existir.
e cada ano
nos estende 365,
sem contar os bissextos.
365 dias e noites
que traçam caminhos em círculos,
rumo ao inferno.
e então, ontem,
se já sabia disso tudo,
por que me condenei aos aplausos
e tapinhas nas costas
durante um milhão de passadas com meus sapatos
marrons?
cada sibilo das estrelas traz cem anos
no limbo.
cada despedida momentânea
traz esquifes de ouro para o limo.
então, ontem,
por que, então,
me dei ao trabalho de contar trocados para o ônibus?
conversando sem saber o que falo,
fazendo perguntas ininterruptas
pra qualquer um
que encoste sobre a cerca de madeira,
como se tivesse dúvidas me açoitando?
por que?
então, ontem,
foi tempo perdido.
mas não existe tempo que não seja perdido,
caso contrário,
não seria tempo,
seria morte.
ALAÔ
depois do fim do ano
as guirlandas de natal
são postas ao longo do meio-fio,
iluminadas pelo sol
pisoteadas
pelos apressados
que retornam ao lar
e ao trabalho pesado.
agora todo o lugar
cheira a carnaval.
drogas ilícitas
arrastadas pelas pernas
de palhaços que choram.
uns poucos
surgindo nas ruas
carnaval
carnaval
diante das lojas de atacado
num dia como outro qualquer.
logo será carnaval
e uns caras saem às ruas
vestindo suas melhores roupas
para lamentar algumas antigas mágoas
que anunciam a folia.
COMENTÁRIOS
Você faz alguma coisa.
Alguma coisa legal,
que muito te interessa
e muito interessa a quem não interessa
a ninguém
além de você,
e todo mundo comenta.
Na janela.
No escuro.
Nas esquinas.
Nas varandas.
Nos cercados.
Nas conversas.
Todo mundo comenta.
Como se você fosse alguma coisa,
\n';
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o cara mais importante a caminhar sobre a terra.
Como se você fosse Jesus Cristo
percorrendo oceanos com pés descalços
e braços abertos,
iluminando os pecados,
perdoando a luz.
Como se você fosse Jesus Cristo
ou Deus,
ou o único Deus que jamais existiu,
ou sei lá.
E
é claro
que você fica sabendo,
porque todo mundo comenta,
em um
ou dois
ou três
dias.
Como se você fosse Jesus Cristo,
Deus,
rasgando o céu em dois,
e tudo o que você quer
é que todo mundo
vá cagar no mato.
O MODO COMO AS ASAS BATEM
Belo
belo anjo.
Eu penso em você
quando atravesso as calçadas
ao meio-dia,
cego pelo sol.
Olho para as sombras das pessoas
rastejando pelo chão,
pelas pedras-sabão,
encaro os hidrantes,
horizontes,
os cartazes rasgados,
colados nos postes,
os olhares sugados,
e vejo o eco das tuas asas
onde o tédio existe
e nada mais existe.
Penso em você,
anjo,
quando o dia é tão longo
e o tempo é prisioneiro
da tarde
que pulsa lenta
nos ponteiros.
Miro o céu,
mas ele não está lá.
Lá está o meio-dia
com as suas crianças
entrando e saindo dos ônibus,
em fileiras,
e os prédios refletem luzes
nas vidraças longínquas.
Vejo os traços
das tuas asas
anunciando
o dia que não acaba.
Anjo,
você é a única coisa passageira
dentro dessa imutabilidade.
NINGUÉM
talvez você pise na rua
num dia de chuva
e não veja ninguém.
ninguém importante.
nenhuma palavra importante.
nenhuma beleza importante.
nenhuma esquina importante.
nenhuma mentira importante.
você pise na rua
num dia de chuva
debaixo da chuva
e o telefone toque
quando não haja ninguém em casa.
ninguém importante.
nada importante.
e volte pra casa
num dia de chuva.
não se importando.
hoje é feriado.
HOMENS E CORAÇÕES
o coração do homem,
repleto de apatia.
afogado
boiando numa poça de piche
de cuspe
bate e bombeia o sangue
para as paixões
& desilusões
que consomem o homem
alimentam a alma.
o coração do homem
está saturado
& respira
nas grutas
escuras
úmidas
dos seus dias
de ócio.
vive no frio
na agonia de existir
e zomba do Romantismo, da Poesia, da Métrica e
da Perda de Tempo daqueles
que chamam a si mesmos de homens
de palavras.
o coração do homem não vê as palavras
porque elas são tão vazias
quanto o sangue que impregna as veias
o sangue que impregna os amores
o sangue que impregna o que eles tanto gostam
de declamar.
o coração do homem
não vê cara
nem coração,
apenas pulsa
alimenta a morte
enquanto o homem senta
no frio
no meio-fio
na chuva
fazendo papel de idiota.
ISSO NÃO É UM POEMA
minha gengiva está inflamada.
todo o meu rosto está inchado.
eu olho para a frente,
vendo a noite à minha frente,
e sinto a minha gengiva viva
por detrás do meu sorriso.
O POETA MORTO
O poeta-mor está morto
na sua cama,
debaixo dos seus lençóis.
Não sente frio,
se cobre de medo,
sente sede
e sente a barba crescendo
por sobre as rugas.
Não escreve há seis meses.
Não escreve alguma coisa que preste
há seis anos.
E daí?
Quem se importa?
Ele não se importa.
Já passa do meio-dia,
mas não há nada a se fazer.
Olhar o teto é uma boa pedida.
Ele está acabado,
como o mundo
que cobre o seu apartamento,
um véu cinzento,
lhe trazendo
páginas
e páginas
vazias.
E é sobre isso
que ele deve escrever,
fazer poemas.
E agora
ele é o próprio poema.
É sobre isso que ele escreve.
Não com tinta,
papel
e lápis,
mas com a cama
e o teto úmido
e o cimento caindo aos pedaços
e a janela fechada
e os raios vermelhos do sol
queimando a sua testa
e a porta trancada
e o corpo apodrecendo
debaixo dos lençóis
e nenhuma alegria
e nenhuma tristeza
e nenhum remorso.
REVOLTA
A revolta
viva
e gotejante
é a paixão chorada
pelo destino cru
dos bêbados
que percorrem corredores
e ruínas
de castelos
há muito destruídos.
A revolta.
A revolta.
Viva e gotejante.
Amanhece
como os gritos e sorrisos.
Ela peca por existir
somente aos olhos do pecador.
A revolta é o amor.
O amor pelo incerto
e pelo que é belo.
O belo destronado.
O Deus que não tem voz.
OS DIAS QUANDO CALADOS
eu GOSTARIA de tê-la visto ali
mas eles bombardearam o show
e eu não pude ir.
encontrei um dedo
decepado
às duas
e meia da manhã
e não enxerguei formigas
no asfalto.
isso
foi antes
um dia
antes
e eu gostaria DE TÊ-LA
visto ali
MAS NÃO
me restava tempo
nem dinheiro
e não vi.
não vi o seu corpo
os seus olhos
O SEU RETRATO
ou os seus passos,
porque eles bombardearam o show,
CONFORME o previsto.
os dias SE calaram.
O AMOR SENTADO À MESA
Eu sento com os meus colegas
numa mesa de bar
em meio à calçada,
E peço um chocolate,
cobertura de chantilly,
temperatura ambiente,
500 ml.
Todos eles pedem o mesmo:
Um chocolate,
cobertura de chantilly,
temperatura ambiente,
500 ml.
Alguém pede uma pizza.
Nós rimos sob o brilho febril
dos canudos nas canecas.
Conto meus centavos
e pago o cara,
Coloco níqueis prateados
na palma da sua mão.
Assôo o nariz
com o pedaço de
papel higiênico
que guardei no bolso de trás.
O nariz em carne viva.
Me faz parecer um junkie
com os olhos vidrados e
vermelhos
e tossindo pelas ruas
e vitrines
de uma noite qualquer.
Sobra tempo
para rir
e falar
e tomar chocolate.
É noite.
Nós tomamos,
eu e os meus colegas,
todos aqueles copos de chocolate,
E penso nela
caminhando pelas bordas da cidade
com toda a sua
Perfeita
Perfeita
Perfeita
Solidão.
Todos riem
mas não falo nada a respeito.
Terminamos o chocolate.
Esperamos o cara terminar a pizza
para que possamos ir embora.
Já gastei muito essa noite.
Muito da minha grana.
Muito do meu tempo.
E penso nela
Calado.
Alguém diz alguma coisa
que me faz temer pelo pior.
SOMENTE QUANDO NÃO FALO
Sinceridade
é o que eu chamo
quando estou sem palavras
sem palavras
sem palavras.
Vocês podem entender
o que estou falando?
VIDA
Ele se suicidou
numa quarta-feira à tarde.
Deixou um bilhete
em cima da escrivaninha,
onde se lia:
não suportei
minhas hemorróidas.
A AUTO-ESTIMA VAI PRAS CUCUIAS
Toque a melodia
da vitória
e os fogos de artifício resplandecem no céu
em inúmeros estrondos fugazes de cor.
Você toca nas suas costas
nos músculos distendidos,
rijos,
que latejam
após uma noite mal dormida.
Pranto para os abortados
louco
louco
louco
louco
chora afastando o tempo
e as crianças do tempo
louco
louco
algo doce por detrás da sua ira
uma súplica
e uma vontade terna
ele chora
grita
em fúria
dando as costas para
a multidão de desiludidos
louco
ele grita
foda-se
esmurra
os desvalidos
e caminha na direção oposta
se fecha no seu silêncio de urros
num esquife de pedidos
louco
mas existe algo doce por detrás da sua
ira
melancólico
doce
oceânico
bem no fundo dos seus olhos
e ele sabe
que não é dominado
pela fúria
e pelo ódio
aos despedaçados
ele chora
sabe que vai ofertar
a bondade
que vive
dentro do seu ódio
louco
louco
louco
louco
um estrondo
uma ruína
destrói os destruídos
e cospe
salivas de sangue e fogo
nos sorrisos
ódio
nos seus dedos
em riste
louco
louco
louco
golpeia os aleijados
do seu trono esfumaçado
soterrado pela sombra da turba
louco
louco
surdo
surdos
não fala
a ninguém
e dá as costas para tudo o que irrompe
do chão de lama
aos seus pés
dentes fechados
ele chora
olhando para trás
e para frente
esbofeteia os desprovidos
caleja os buracos descarnados
de todos os cegos
faz uma triste ferida
de si mesmo
e diz que não se importa com ninguém
planeja assassinar
louco
a todos
encaminha os açoitados
para o chicote
da sua língua
e salta no abismo
ele chora
e grita
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só odeia
só
açoita
os inocentes
protegidos
pela grinalda da ignorância
descarna a mediocridade
e faz dela a sua noiva
urra e chora
louco
louco
louco
sem tombar aos próprios pés
ele odeia
e desdenha do amor
daqueles que o amam
da escuridão
daqueles que não o enxergam
na cegueira
do sangue
da ilusão
de si mesmo
enquanto corrompe
os bem nascidos
com sua lascívia de doenças
mas por detrás dos seus espinhos
existe um beijo.
estou lendo Bukowski
ao som dos Stooges,
nessa quase meia-noite.
sozinho
chovendo
sem dor,
como uma garganta perfurada pelo
silêncio.
os Stooges estão gritando
numa canção de seis minutos
e meio
nessa quase meia-noite.
não tenho chances.
sou um dado sem faces
rolando no cimento.
foda-se o Bukowski
e seus amores
nojentos.
seu brilhantismo
apodrecido
de cemitério.
sem chances.
não tente.
dê-me
alegria,
vê?
INUNDE O MUNDO
inunde o mundo
com a sua agonia,
mas lembre-se de lavar as mãos.
CÂNTICOS
Eu sou o poeta
E ela é a musa.
Tudo o que existe no meio
Desvanece.
GUARDO NO MEU ROSTO
Guardo no meu rosto
todos os cadáveres do mundo,
todos os sorrisos mortos,
lábios rachados de juventude,
o verme que cava o seu lar
nos olhos aguados das meninas.
Por trás da minha pele
conservo o gás,
todos os cheiros ruins.
O GRANDE FILHO DA PUTA
gosta de Pablo Picasso,
diz ser influenciado por ele.
pinta durante as tardes.
ou pelo menos diz que pinta durante as tardes.
também escreve algumas coisas
depois de ler algumas coisas
de Sartre e Shakespeare
e Pessoa e Dostoievski
e um pouco de Dante.
toca piano,
ou talvez trompete,
não me recordo muito bem.
passa as noites sozinho
em seu quarto iluminado,
escutando Dizzy e Charlie
e um pouco de Miles,
lá pelas nove, dez da noite.
também gosta de fazer a mesma coisa
acompanhado pelos amigos,
você sabe,
para que eles saibam
do seu gosto refinado:
Dizzy, Miles, blá, blá, blá.
mas não é um retardado,
pode ser visto pelas mesinhas sociais
no ápice das noites
de fim de semana,
com seu bom humor,
conversa suave,
e risadas bem entrosadas.
senta em círculos de conhecidos
e fala sobre pintura,
mostra algumas gravuras e retratos,
menciona Pollock
e cita os surrealistas de qualquer lugar que seja,
seja da França, seja dali.
depois muda o assunto para música;
fala que admira Coltrane.
gosta muito de falar sobre Coltrane
porque gosta do som do nome:
Coltrane.
dispara frases como
"o jazz mudou depois de Coltrane",
"o melhor saxofonista é sem sombra de dúvida Coltrane",
e por aí vai.
ri com gosto
e segura confiante o copo de cerveja
enquanto encaminha a conversa
para futebol
e sambistas da antiga,
só para posar de descolado
e não parecer pedante demais.
dá tapinhas nos ombros,
acena,
sorri,
gargalha,
empresta cds dos Mutantes,
Coltrane,
e pede a saideira.
alguém tem que dar um tiro nesse cara.
Textos de Daniel Frazão