Nova página 0

 

SLIDES DA VIDA COMUM NUMA ALUCINAÇÃO COTIDIANA

 

 

FOTOS

em movimento.

Cenas, aromas,

sons e

sentimentos.

Fotografados

pelo olho da ação,

pela visão do tempo.

O TEMPO que não PASSA,

que posa

como uma estrela de hollywood

perdida na banalidade

de suas próprias mentiras.

Sim, apenas fotos,

imagens, slides,

coloridas ou preto-e-branco,

não importa,

refletindo na parede branca

do OBSERVADOR.

 

 

    Dia salpicado de tonalidades cinzentas. As árvores paradas e verdes, sem dizer nada. Suas folhas verdes são pequenas, mas não caem nem rasgam. Alguém chora. Não me importo, não conheço ninguém por essas bandas. Essa noite me importa. Tenho medo do que está por vir. O farfalhar de uma vassoura. TAKE 1

 

    Observo o documento onde está contido o meu livro, o primeiro, o que já foi publicado. É estranho vê-lo assim, na tela do computador. Brilhando com o fundo branco e as letras pretas embaçando a minha visão. Ele já está na minha estante, como tantos outros. Rostos que se misturam nas minhas lembranças. Lembranças remotas e recentes, do dia de ontem. Sorrisos, olhos, castanhos, mãos pelos cabelos e pronto, tudo some. Tudo menos aquelas imagens que persistem em brilhar no fundo branco, mesmo depois de já estarem na estante. Estranho, esse quarto está vazio. Só eu por aqui. Prefiro assim. Por enquanto. TAKE 2

 

 

    LUZES! LUZES! LUZES! Tudo luminoso e acordado, aberto. As janelas escancaram e pequenos rostos aparecem por detrás das vidraças, como silhuetas pretas que ofuscam a luz. CARROS que passam velozes pela estrada noturna. Dobram as esquinas e fazem as curvas, ultrapassando sinais vermelhos. Nova Friburgo se disfarça de cidade grande e tenta seduzir os entediados. Tudo é uma mentira. Tudo é doce, com um leve gosto metálico de ferrugem. O barulho dos ônibus me incomoda. As esquinas me incomodam, porque não sei o que vou encontrar. Luzes. Luzes. Luzes. O clique de um flash na minha máquina fotográfica. TAKE 3

 

 

    Agora, tudo vazio. Ou melhor, tudo está cheio, EU ESTOU VAZIO. Por onde passo, não encontro nada. Nada me agrada. O telefone não toca, mas quando toca finjo que não estou. Estou pensando em encomendar um livro, no entanto, não consigo gastar dinheiro. Sinto que devo poupá-lo. Tenho essa mania. Uma sensação estúpida de estar economizando para alguma coisa que não sei o que é. Como se fosse utilizá-lo para eventualidades mais tarde. Como se fosse precisar. Todos precisam de dinheiro. Eu não. PRECISO RESPIRAR E DORMIR. & preciso de dinheiro. Notas verdes dançando na minha carteira. Noites suaves, sem horários, sem preocupações idiotas. Os cachorros latem lá fora. Me fazem perder a imagem da grana, o fluxo das palavras que traduzem a cor do dinheiro e a sua futilidade. Agora só consigo escutar os cachorros latindo. Não consigo escrever mais nada. TAKE 4

 

 

    O telefone está mudo. A janela trancada me protege da tarde escura e silenciosa que consome o relento. O telefone está mudo. A estrada vazia, longa, quase como uma cobra. O telefone está mudo. Melhor assim. Eu não teria mesmo o que dizer. TAKE 5

 

 

    A manhã. Um pouco de som, alguns pássaros, um domingo qualquer. O som da noite passada reverberando no meu ouvido. Vocês aí, querendo explicações, querendo menos abstrações. Foda-se. O gosto amargo. O cheiro de fumaça nos cabelos. O medo o medo o medo. Uma borboleta que voa sozinha pelo ar iluminado lá fora. Os galhos balançando suavemente. Todas aquelas vozes, aqueles olhos brilhando como pesadelos na escuridão, o caminhar pela sala de uma multidão. Tudo. O som. Vou me matar... pensando em todas essas coisas. Alguém falando sobre a minha geração. Querendo a minha opinião. Foda-se, já disse o que tinha pra dizer, agora estou na minha. Olho para os fios telefônicos diante da minha janela do segundo andar. Preciso conversar com alguém. Uma pessoa que entenda as abstrações e não divague sobre egos e ecos. Uma pessoa, não um idiota. Latidos. Colocaram bolinhas no refrigerante. Colocaram álcool também. Não era droga, era remédio pra dor de cabeça, mas a indução psicológica fez com que todo mundo se sentisse muito doidão. Rio da cena, mas também estou desesperado. Sinto-me como num jantar de imbecis. Preciso me mudar desse planeta. A janela dianteira mostra abacates amadurecendo e uma rodovia principal totalmente vazia. Domingo de sol pela manhã. Mate os duendes de jardim. Destrua os unicórnios. Faça-os sangrar pelos olhos. Eu estou cego, no meu rosto apenas dois buracos onde as moscas botam ovos. Me lembro da garota passando mal, vomitando no assoalho. Ainda bem que a casa não era minha. Não gostaria de ter que limpar vômito e varrer toda aquela sujeira. Foda-se. Fico aqui imaginando vocês, cada um de vocês, pessoas dos mais diversos tipos. Muitos de vocês também se mostrariam imbecis, e eu também riria ao vê-los na noite passada. Então foda-se. O dia escureceu. Os galhos não se movem mais. O telefone está mudo.. O meu modus operandi não existe mais. EU SOU UM HOSPEDEIRO DE LEMBRANÇAS. A tarde se estende à minha frente como um tapete. Vou pisotear a cidade, esfregar os meus sapatos no capacho da humanidade. O som do ônibus que eu pego todo dia. Ele acabou de passar. Tudo COMUM. Dentro de mim, BLECAUTE. Holocausto. Não sou fruto de nenhuma geração. As eras não são nações. Apátrida do tempo. Vira-latas arrastando-se pelo domingo como ratos, figuras magras, apátridas cheirando o lixo. A imagem das meninas. Elas estavam sentadas no sofá, algumas dormindo, outras acordadas. Preciso me trancar numa tumba, e então explodir o mundo. Penetrar na futilidade. Corredor cheio de gente passando; seguram latas de cerveja, fumam e tentam dizer alguma coisa. Não conseguem, como de costume, então se movimentam. Eu me movimento pra frente, sem saber onde vai dar, como de costume. Cheiro de fezes. Elogios. Olhares curiosos. Minha mente está vazia. Meu corpo está vazio corredor vazio vazio vazio as portas trancadas o som abafado as pessoas estranhas meu corpo está vazio vazio vazio. FODA-SE. Os palavrões são as minhas espadas. As ilusões são as minhas escadas. Chutando o saco da morte. Puxando o saco da morte. Todas as pessoas que eu temo. As imagens se misturam nessa manhã, formam uma única figura grotesca e desfigurada, uma figura que ladra. Os abraços que assombram o sol. Todas as pessoas que eu amo. Desci a ladeira às cinco da manhã. O céu clareou e o mundo tentou disfarçar sua loucura com o despertar dos bairros. Não importava mais. Eu já sabia a verdade. Sentia desprezo por ela. TAKE 6

 

 

    Uma tarde que persiste antes de existir. Há um sol fraco e algumas pessoas indo e vindo do trabalho. Ambos sabem que aquela é uma tarde dentre tantas outras, e a única a persistir. Ela é a despedida. Ela é a vida que segue, o futuro, tão silencioso quanto a tarde lenta onde um sol fraco ilumina as pessoas e os carros e todos aqueles que seguem para algum lugar. Chuva o tempo todo. É noite. Many Rivers to Cross toca nas caixas de som e no início do outono. A chuva é um choro, eu posso sentir. Cai sem parar. Molha os cabelos e os olhos brilham, naquela tarde. As folhas são como olhos, embaçados pelas lágrimas. Ambos sabem que haverão sorrisos, e outras tardes. E por um momento, eles se apegam naquele instante breve. Diante de seus olhos, a vida se tornou passado. Amor, pessoas, amizades, momentos, ruas, músicas, mortes, lamentos, tudo se tornou passado, e ambos se seguram a ele por um último instante. Antes que a tarde acabe, levando-os embora. Many Rivers to Cross, é o que canta Joe Cocker. Penso num rancho que nunca fui. Não sei se ele existe. Seu portão está aberto e balança com o vento. Há um caminho de pedra que ondula pelo terreno na direção do chalé. O mundo se mostra vazio e belo ao longo da linha do horizonte. Um cachorro deita sonolento na varanda. Essa é a noite da chuva. A chuva cai sem parar, o dia todo. Agora é noite. Eu só queria poder dizer as palavras certas. Eu apenas gostaria de dizer a última palavra, e que ela se deitasse no passado como os momentos, as amizades, os sorrisos. Mas fico calado e escuto a chuva, e escuto Many Rivers to Cross saindo das caixas de som. Não sei o que dizer. TAKE 7

 

 

    Latas de lixo. Fileiras de lata de lixo ao longo das varandas, reluzindo sob o sol da manhã. Não, da tarde. Uma tarde de merda. Latas que pronunciam palavras para aqueles que sabem escutar. Sorrisos lindos. Grandes derrotas. Bigornas entrando pelo seu rabo, sem vaselina. O coração batendo e suando intensamente, e as latas de lixo fulgurantes, e os sorrisos lindos. Olhei aí pra cima e vi uma canção. Qual é! Dá um tempo! Não escuto nada, somente o som da respiração, o som do não, o silêncio, o silêncio, o silêncio da certeza. De noite as pessoas desaparecem lentamente. E os faróis acende-se como fantasmas sem corpos. Longas fileiras de latas de lixo perfurando as ruas. Latas de lixo em minhas costas. Bigornas e paralelepípedos em meu estômago. Vômito. Evito olhar para os espelhos dos elevadores. Não tenho a serenidade necessária para ler um livro, portanto, fico andando pela sala, como um animal enjaulado, até que anoiteça. Os finais de semana são o meu tormento. Eles são lindos, como os pesadelos. JUNKY. Não faço nada, nunca faço nada. Só as pessoas de talento fazem alguma coisa. Talento para a vida, quero dizer. Procuro uma brecha - fileiras de latas de lixo, latas de lixo solitárias, desgarradas, açoitando as esquinas com seu brilho de fracasso, e eu estou lá, nas ruas - uma brecha onde possa respirar; um único lugar onde tudo seja neutro. Esse lugar me serviu por um tempo, mas agora a angústia penetrou por suas paredes e logo se alastrará. Olhos profundos e claros. O risco. Salteadores à espreita da caça pelas sombras. Hoje, nada posso fazer. De hoje em diante, nada posso fazer. Apenas assisto, embora me sinta como se ainda pudesse fazer alguma coisa. Isso vai acabar me matando. Latas de lixo desabrochando como flores putrefatas. TAKE 8

 

 

    Hoje é passado. É o silêncio antes do som estrondoso. Hoje é marasmo e espera. Hoje é o medo que se fortalecerá amanhã. Portões de shopping center. Luzes coloridas e brancas, dezenas de pessoas novas e bem vestidas. Suas vozes se misturam num murmúrio apressado. Hoje é só visão. TAKE 9

 

 

    Sem perspectivas. Sentado num banco desolado de uma praça desolada numa noite desolada e um pouco deserta. Carros, bares, pizzarias, alguns amigos para alguns minutos, então, calçadas. Calçadas. Os pensamentos totalmente derrotados, impossibilitados de se reerguerem. Cansaço e dor de cabeça. Hoje é passado. O clima é uma mistura ardente de calor e frio. Algo como um presságio estranho. Passa apressada atravessando a calçada, com os olhos no nada e a pele de fada. Buzinas. Velhos amigos que perderam o contato...agora freqüentam lugares diferentes. O salão da sinuca. O barulho seco das bolas batendo umas nas outras, estalando. Pessoas curvadas sobre as mesas, com tacos em riste. Fico triste. O ar me sufoca. O lugar velho, tão velho quanto os velhos que foram expulsos de lá pela garotada. Buzinas do lado de fora. Sexta-Feira. Os pensamentos foram abandonados, os sentimentos também, os momentos e os tormentos. Cheiro de fritura e comida japonesa. Cheiro de faculdade. Bolas coloridas que anunciam a impossibilidade de qualquer reação. Bolas que são poemas, poemas que falam de morte e dor, e ilusão. AQUI ENTRAM AQUELES QUE PERDERAM AS ESPERANÇAS. Dante. A vida fervilha e isso me dá vontade de chorar. Melhor mudar o tom antes que vocês comecem a me chamar de niilista, gótico, pessimista, dark e todos esses termos que tanto me irritam. As pessoas se apaixonando por mim por causa das coisas que escrevo. Os números telefônicos me escapam da cabeça. Bancos de cimento contornando a praça. Resolvo me sentar, embora não tenha muita certeza de nada. A noite vai acabar e outra vai começar. O barulho das bolas de sinuca, o som de suas pegadas apressadas nas calçadas, o telefonema, o último ônibus partindo, o cara novo, e tudo de novo. TAKE 10