reações

r

        e

                  a

   ç

                    õ

                                  e

                                             s

& ele espera,

sentado e pensando, com o mundo inteiro esperando pelo próximo passo. O mundo inteiro. É uma bola de fogo congelada no tempo. A inércia fez um ninho de véus negros sobre os oceanos e pradarias e desertos e lagoas e casebres e todos os televisores, que são nada mais do que TALVEZ.

& ele espera,

engolindo gritos em seco. Morrendo de sede. Apodrecendo na dúvida e na hesitação. Quem levantará os braços? Quem piscará os olhos? Quem acordará o mundo? Ninguém por aqui, isso é certo.

Acorde o mundo

disse a senhora do Acaso e do Jogo

para toda uma nação de refugiados e desertores.

O mundo está dormindo

e não pode acordar vocês.

& ele espera,

o mundo,

exatamente como quando Ele o deixou.

Suave torpor, os sonhos boiando nos mares, abaixo das arcas, abaixo das orcas, abaixo das orlas e dos afogados.

& a voz do Homem é a voz da Inércia.

Caminho pelas ruas, com as solas dos sapatos quase acabando, e ele por aí, sem ter um lado para escolher, uma esquina para dobrar, uma placa para ler, uma casa para entrar, UMA PORRA DUMA RUA PRA ATRAVESSAR!

Quem irá fazer alguma coisa???????????????????????

É só o que um idiota como eu pode perguntar. Porque eu sei muito bem QUE A ÚNICA COISA QUE EU NÃO POSSO FAZER É FAZER ALGUMA COISA. Não. Ninguém pode fazer coisa alguma. Nem por mim, nem por você, nem pelo mundo dormindo.

Acorde o mundo.

Faça alguma coisa.

Ela lhe diz enquanto se enrosca nos seus pés como uma sombra negra que caminha pela praia numa manhã de sol.

Acorde o mundo.

Acorde.

WAKE

o mundo é minúsculo, microscópico, e nós não podemos vê-lo dentro de nossos próprios sonhos, de nossos próprios olhos fechados.

Curvados. Com as costas rente ao chão e o vento carregando o futuro, que pesa em nossos corpos curvados. Mas o presente dói muito mais, é o que nós dizemos para o tempo. O futuro é um peso morto, e o presente nos faz deitados.

UP.

Aí, meu amigo, nós já tamo fechano, então eu acho melhor você dá uma apressada nisso aí pra não atrasá o nosso lado. Nada pessoal só um trampo fisiológico como tu deve di sabê muito bem você não é o único que almoça por aqui.

& após o almoço,

a pausa para a digestão.

Será possível que nós sejamos a digestão?

Que o nosso tempo é uma longa e estática pausa para a digestão?

Nós,

almas intestinais?

O tempo

uma longa e estática

INDIGESTÃO?

Não conseguimos alcançar o futuro, que é sempre o horizonte, que está sempre atrás do horizonte. Eternamente pisando no sol, caminhando noite adentro. E então, não conseguimos tocar os anos, que percorrem nossas vidas, escondidos, e logo estamos em um ponto tal, que não conseguimos mais alcançar os dias, nem mesmo as horas, e depois, olhamos para frente e não enxergamos os minutos. Nossos pés já se afundaram tanto no passado, que já não temos mais nenhum presente, e todo o presente se torna futuro, até não termos nem mesmo mais passado. Todo o passado se torna distante, como tudo o mais, e vagamos numa terra atemporal e remota e passada, mas ausente de passados. Distantes, cansados, com os braços estendidos e sem conseguir alcançar.

Porque o tempo é distância.

ACORDE O MUNDO

POIS O MUNDO NÃO VAI ACORDAR VOCÊ.

ACORDA

MUNDO.

Quando a tarde acabar,

nós vamos ver o vento passando por nossa janela,

do conforto de um décimo segundo andar.

Um vento amarelo como as almas antigas,

varrendo esperanças amarelas

e sonhos roxos

destinos enegrecidos por um milhão de

hematomas.

O garoto que estendeu os braços, o único gesto de avidez contra o vento voraz,

caiu pela janela. E agora não é mais. Acabou. Espera novamente, espera, espera, espera, e uma multidão à espera

contempla o caso perdido.

Alguns escolhem a televisão, outros escolhem a moda de verão, outros escolhem o sexo oposto com tesão, outros escolhem uma nova emoção e ainda outros escolhem simplesmente a extinção.

E todos esperam pela revelação,

que se revela um

NÃO.

Ninguém esboça uma REAÇÃO.

Eu não posso lutar contra a cidade, você diz, mas a cidade não é o inimigo, você é o inimigo de você mesmo. Você matou a si mesmo quando ninguém estava olhando. E fez do seu esquife um sorriso. Você matou a si mesmo com as promessas e planos emoldurados na sala. Você matou a si mesmo com as palavras duras, mas que não representam porra nenhuma nem pra ninguém nem pra você. Você matou a si mesmo quando se fez Homem. Um Homem feito.

O rio negro perdeu todas as ninfas, todos os dentes. Suas águas paradas abrigam nossos disfarces que enterramos nas profundezas de um presente superficial. Alguém que olhar para cima, irá ver a maré, ondulando por cima de todas as construções humanas, pois na verdade NÓS somos os disfarces. Nunca fomos o que nos propomos a ser. E sempre nos propomos um montão de coisas.

ACORDE AGORA

ABRA OS OLHOS SUAVEMENTE

OLHE O VERDE

E AS ÁGUAS AO REDOR

OLHE O SEU REFLEXO SOB OS SEUS PÉS

SACUDA TODOS OS DIAS

E COMECE DE NOVO

NASÇA

VIVA

NÃO FAÇA VOCÊ MESMO

SEJA VOCÊ MESMO

ACORDE

VOCÊ ESTÁ LIBERTO.

E você acorda

e dá as graças.

Chora de alegria.

Seus olhos doem com a luz

mas você não percebe a dor

pois está correndo mais rápido do que ela pode alcançar.

Em sua cabeça

os fios se enroscam com os louros da liberdade.

Liberdade.

Você está liberto.

Você pensa estar liberto.

Mas não está liberto

pois não se libertou

foi libertado

não acordou

foi acordado

E agora as correntes cheiram a flores.