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NADA

Um espaço em branco entre os espaços. Os olhos se abrem para a luminosidade de um silêncio que se repete em círculos de tardes de sol. Um silêncio de motores, de amores, amores consumados, não correspondidos, escritos e cantados, um nada vivo, um nada hostil, de olhos abertos, acordado, acordado enquanto o sono sonha com nada. Um silêncio de criaturas que se contorcem buscando o ar, numa tentativa desesperada de se livrarem dos grilhões formados pelo acaso do futuro. Suas bocas são guelras.
Hoje é o último dia da semana.
As calçadas estão desertas.
A rua é incerta
Como o destino,
de certa forma.
Hoje é o último dia do ano,
do século,
do milênio.
O último dia em que eu sou quem eu conheço
e reconheço
nos olhos refletidos
do nada.
Fale, meu caro amigo. Fale com a sua voz de ócio. Fale sobre o cio e a criação. Escute a minha canção. & uma única joaninha espera na parede, por alguma coisa que não existe na natureza humana. Talvez espere por mim.
ELE SENTE O CHEIRO DAS CERCAS VIVAS,
VEGETAIS.
OBSERVA PARA ALÉM DOS QUINTAIS
& VÊ AS RISADAS
MERGULHAREM NAS PISCINAS,
NUMA TARDE VERMELHA
DE CHURRASCOS E ACENOS.
FREAK!
ELE CAMBALEIA
tombando pelas ladeiras, como uma desilusão freak. Ninguém sabe o que fazer. Tomar drogas, tombar pelas ladeiras, entrar no carro e se mandar, casar num fim de novembro, escrever o inferno agonizante que queima as suas mãos, beijar o queixo rugoso da ignorância.

A joaninha caminhou um centímetro para cima e ainda aguarda pela inexistência. No entanto, a natureza é a única certeza que existe, a natureza é a constatação da existência. Não Deus. Ou mesmo a Fúria do Tempo. Não a Morte. Ou a sorte que sopra no norte. Não o Fim. Não uma elegia a mim. Mas a natureza, ela é a certeza brotando na incerteza. O NADA. Absoluto como um zero na equação.
Você abre a porta nas altas horas da noite e acende a luz da varanda. Agora toda a rua está coberta de orvalho que reluz nas pedras do asfalto. Um brilho silencioso e cortante, ácido, lascivo, na ponta de uma faca. O espelho do fim.
Doentes terminais aguardam na fila de espera de um hospital público pela sua vez de morrer deitado. Eles tentam manter a mente acesa, feito uma casa vazia de luzes acesas no final da rua. A morte flui pelas suas veias azuis. NÃO É O NADA QUE OS CONDUZ, MAS O BARULHO FRENÉTICO DO DESESPERO. O PERFIL DA MISÉRIA NOS SEUS ROSTOS ESTIRADOS PELO FIM DA TARDE.
Esperam na fila de espera enquanto enfermeiros atravessam correndo os corredores escuros de um labirinto sem janelas.
Ele respira uma, duas,
três vezes,
sem palavras para abandonar.
Ele vê as imagens que o cercam
e não sabe o que será da semana que vem.
O teto te oprime, consumindo o que você deseja para hoje. O teto e as paredes. Um dia de chuva como esse não pode oferecer mais do que o desperdício. E você sabe disso.
NADA PARA SER
além do tilintar colorido dos fliperamas. Ou dos gritos dos acordes quebrados de uma fúria rock'n roll. Nada para ser além de tudo o que ninguém quer que você seja. Nada para ser além da quebra de todas as condutas. Nada para ser além da ofensa.
E é isso o que eu vou ser. Eu vou ser nada.
Eu vou ser nada para ser. A oferecer.
Se não aparecer
nada melhor por aí.
não pode oferecer mais do que o desperdício
não
pode
oferecer
mais
do
que
o
desperdício
desperdício.
E esses são os olhos abertos.
Entenda isso como uma esperança,
ou como uma queda estúpida e patética numa poça de chuva
bem em meio à madrugada.
Não me importo.
Entenda como quiser. Pretenda como quiser. E daí em diante.
Uma chuva torrencial que desaba sobre uma úmida selva dos trópicos. Seus pingos prateados batem na enorme folhagem num estrondo de silêncio insano, acompanhado pelos assobios, apitos, estranhezas e distâncias, pois tudo é distante, inatingível, inexistente, enquanto as nuvens cobrem o azul do céu de uma terra de ninguém. As torres de gelo que derretem no solo. O horizonte de areia escaldante, visto por ninguém. O eco. O eco. O eco. Na penumbra do meio-dia. É a lembrança de alguém.
NADA PARA VER
ao longo das cortinas desbotadas. A solidão só existe quando nada mais vive. & essa é a hipótese que lateja no medo. É a falta de sensações num buraco que foi cavado há muito tempo atrás.
A rua está tomada de garotos vestidos de preto que têm os cílios frágeis e empoeirados como as asas de uma borboleta. Estão sedados, os garotos. Seus ouvidos batem com os tambores. Suas bocas gemem ocasionalmente e eles se debatem, eles se debatem contra o nada. Cantam um punk rock qualquer num palco de cimento até as dez horas da noite.
NADA PARA CRER.

eles se debatem contra o nada.