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Memórias
Apenas algumas imagens, huumm, vocês chamariam de lembranças, que são os meus fantasmas, me dizendo BUUU a cada dia-minuto-segundo do meu cotidiano. Algumas são boas, outras são ruins e outras não são porra nenhuma. Já vou dizendo que elas não são necessariamente as mais importantes da minha vida, elas são apenas as que ficaram guardadas na minha velha e bagunçada gaveta mental. São slogans, lapsos, slides, amarelos e coloridos, sem nenhuma ordem: cronológica, de importância ou qualquer outra merda. APENAS ALGUMAS INSTRUÇÕES (nossa, isso soou super almofadinha...), os nomes citados são reais, vou procurar narrar tudo com o mínimo de poesia possível, sem UAUS desnecessários ou UUUUs injustos. Elas estarão escritas da forma como existiram e aconteceram, ou pelo menos, de como estão na minha cabeça. Se o lance foi poético, ótimo, vocês terão uma narração poética, se não foi, se foi apenas um monte de droga, paciência...
. . .
Se tem um feriado que eu sempre caguei pra ele, esse feriado é o carnaval. Taí uma festa que eu num vejo graça nenhuma. Mas pelo menos é um feriado, o que significa que posso exercer o meu talento latente de vagabundo, e esse é um ofício que eu realmente admiro.
Naquele dia era carnaval. O início da semana do carnaval. O início da tortura, com aqueles bailes e desfiles na tv, os palhaços caminhando na rua, o pessoal de camisa florida e o ALALAÔÔÔ de sempre. Foi por essa e mais outras que a gente resolveu se mandar, um bando de deslocados e entediados que não tava com a mínima disposição de aturar toda aquela palhaçada.
9 horas da manhã e o pessoal reunido no ponto de ônibus. Na verdade eu fui o primeiro a chegar, com uma puta de uma mochila LOTADA nas costas, uma sacola com um ridículo saco de dormir vermelho ( & quando eu digo vermelho, é vermelho mesmo ) e um bando de comida de acampamento. E eu não tinha nenhuma merda de experiência com acampamentos... 9 horas e ninguém chegava. Daniel Frazão, o solitário fugitivo carnavalesco, cheio de badulaque pendurado nas costas, com uma cara de idiota de quem espera por alguém num ponto de ônibus. O pessoal em volta me olhava com curiosidade, provavelmente me achando muito diferente dos tipos que costumam sair pra acampar. E eles estavam certos...
( agora um parêntese só pra explicar essa história de acampamento. A odisséia que estava tendo início, não era a de um acampamento. Nós apenas íamos pra um sítio. É isso mesmo, um sítio distante da civilização. Mas o sítio estava vazio, ninguém morava lá e não tinha móveis ou mesmo comida e água potável, o que nos dá quase que um acampamento. Anyway... )
O próximo a chegar foi o Arthur, com uma mochila muito mais profissional que a minha... Arthur é o mais próximo que eu já conheci do cara que se adapta à vida inóspita da não-civilização. É um daqueles caras com roupas adequadas para o mato e um semblante meio insano e meio esperto de quem já fez isso um monte de vezes. Um daqueles que você consegue encaixar no meio duma selva em sua imagem mental...
_ Fala Daniel! Tá há muito tempo aqui?
_ Naaa... que nada...cheguei ainda há pouco.
O que se seguiu foi a típica conversa de salas de espera, onde o mais importante é fazer o tempo passar rápido.
Uns 5 minutos de conversa foram o suficiente para que chegasse mais gente ao nosso grupo. Lá estavam Tawan e Adriana, com mochilas mais profissionais ainda que a minha (daquelas gigantes que se amarra pelo corpo todo)!
_ Daniel... Arthur...tudo beleza?
Ele olhava pra gente com os olhos sorrindo. Tawan é o único cara que eu já conheci que o sorriso está nos olhos e não na boca! E a porra dos olhos literalmente estão SEMPRE sorrindo! Igual ao sorriso daquele gato da Alice, só que ocupando o lugar dos olhos! Ele estudava comigo, a gente fazia o Segundo Grau. Senti pena do coitado, que carregava as coisas dele e mais algumas sacolas da Adriana, sua namorada (a dona do sítio, pra falar a verdade) e minha amiga desde a mais tenra infância. Os dois eram um casal de namorados que você poderia ficar do lado sem se constranger (talvez pelo fato de ambos serem muito meus amigos...)
Mais 5 minutos e já não faltava mais ninguém. Ênio, João Paulo, Monge, seu irmão Monjinho, e um outro cara que não me lembro o nome, vamos chamar de Jefferson (conhecia o cara há muito pouco tempo... e nunca mais vi...)
O Grande Ônibus Maltrapilho apontava no horizonte, cuspindo escarros de fumaça e roncando como um dragão de metal enferrujado. Mágica urbana. O ticket celestial para o mundo de Oz, ou o que tiver pelo caminho. TCSHHHIIIII... O barulho dos pneus freando e o cheiro de borracha e poeira eram o prelúdio da nossa viagem. Dias! Noites! Surpresas! Conversas! Poesia! Estrelas sem nada para dizer! Tudo! Tudo! Tudo nos esperava! E nós estávamos no caminho, baby!
Puta, eu joguei as porras das sacolas no chão do ônibus com um tremendo de um alívio! O troço pesava pra valer!
Nada menos do que meia-hora (isso no mínimo) para ir do centro até o sítio. Talvez o percurso pudesse ser feito mais rápido, mas os motoristas que se aventuram por esse tipo de região sempre manipulam o volante com uma certa letargia... Chegamos lá em 40 minutos...
O Sítio! Grande. Selvagem. Distante. Descabelado. Deserto. Frio, frio, frio. Estávamos lá afinal, e valeu cada minuto dentro do velho ônibus! O lugar era como uma grande redoma de vegetação e fantasmas. Se você prestasse atenção, poderia ouvir os UUUUAAAA! UUUUUAAAA! saídos de todos os lugares e de lugar nenhum. As árvores se envergavam na nossa frente como braços esqueléticos. Uma casa pairava no meio de toda aquela desolação, e conseguia ser mais solitária do que o próprio terreno. Adriana, como boa anfitriã, tomou a frente da nossa caravana.
_ Chegamos.
Nós olhávamos pra ela, num misto de expectativa e excitação.
A chave debaixo do capacho parecia esperar por nós. E ela esperava por nós.
A grande porta dupla, de madeira maciça, abriu com estranhos rangidos, nos revelando um mundo de exploração e descoberta, um Admirável Mundo Novo, e ele era vazio. Nenhum móvel na sala, com exceção dum triste sofá que não via um traseiro há mais de vários anos! Jogamos as nossas mochilas pelo chão da sala, enquanto Adriana guardava as suas coisas no quarto que ela costumava dormir quando era criança.
_ Cara, isso aqui é realmente muito maneiro...
_ É sim, não é?
Tawan falava com a experiência de quem já tinha visitado o lugar algumas vezes, mas nunca o vira tão deserto. Ênio, Jefferson e João Paulo exploravam os aposentos, Monge e Monjinho se jogavam no chão, exaustos, enquanto Arthur corria pro banheiro.
O mais legal naquele sítio, é que a cozinha ficava separada! É! A cozinha era uma casa de dois ambientes distante da casa principal! Bota aí uns 50 metros de distância pelo menos... Comecei a pensar em como eu faria se sentisse vontade de beber água no meio da noite... Teria que atravessar 50 metros de mato, terra, frio e escuridão. 50 metros do mais puro medo! É... seria muito bom se eu não sentisse sede no meio da madrugada...
_ Pessoal, vocês podem dormir aqui na sala, ou então se espalhar pelos outros quartos... Eu vou dormir no meu quarto antigo...
Ela tava mais que certa. Como a única menina, é claro que não ficaria bem ela dormir no meio de um bando de caras.
_ Pô, a gente dorme todo mundo aqui na sala mesmo...não é?
Um grandioso e ordenado ÉÉÉÉ em uníssono ecoou pela casa.
13:00. Estômagos roncavam. Arthur pegava os seus temperos na vã ilusão de que pudesse preparar alguma coisa mais comestível do que miojo! Os olhos de Tawan adquiriam uma coloração amarelada, do jeito que eles ficam quando a gente está prestes a desmaiar de fome. Tinha sido um dia cansativo pra todos, e um rango naquele momento caía mais do que bem!
Fomos pra casinha/cozinha cheios de pacote de miojo. Arthur carregava algumas batatas e massa de pizza ou sei lá o quê...
Arthur, Arthur, guarde suas espátulas meu caro amigo...
Uma grande mesa redonda _ rotativa _ nos convidava ao festim. Um festim diabólico para os cavaleiros da távola redonda!
_ Dri?
_ Oi...
_ Onde é que eu posso beber água?
Ela me levou a pia, pois a água de lá era direto da nascente e não havia necessidade de filtros. Porém...
Quando eu botei o meu copo debaixo da pia, o que caiu foi um líquido AMARELO! É isso mesmo! Uma água AMARELA! Imagine no seu cineminha mental uma água AMARELA...era essa a água que tinha, AMARELA! Adriana explicou que o estranho fenômeno era devido a chuva do dia anterior e coisas assim... Era isso, uma água AMARELA, sim, afinal, tinha chovido ontem. Fosse como fosse, eu não me arrisquei. Aquilo me encarava como um copo de veneno. Por muita sorte, eu tinha levado um montão de garrafa de água mineral! Parecia que eu tava adivinhando! O fato é que ninguém mais tinha levado. Ou seja, eu era o detentor de toda a água! E era assim como eles deveriam me tratar: como o detentor de todo o elixir da vida! Um Rei! (de qualquer forma, tivemos que economizar na água, e na maioria das vezes, matar a sede com Coca-Cola)
Foi o pior miojo que eu já comi na minha vida! E ainda assim o melhor, pois é o único que eu vou me lembrar daqui a 80 anos. Devoramos pratos e pratos
e pratos e pratos
e Coca-Colas
e Coca-Colas
e Coca-Colas
e ninguém se atreveu a meter a boca debaixo da pia.
Cara, a noite! Como era frio naquele lugar! E como era escuro! Tirando o nosso grupo, não se via nem ouvia uma viva alma! A noite era noite mesmo. Foi a primeira vez que eu entendi e compreendi essa parte do dia, essa negação da manhã. Foi a primeira vez que eu pude realmente conversar com a noite, e ela me disse "Como vai você?"
Estávamos na casinha/cozinha batendo mais um prato de miojo. Eu me sentia generoso e cedi um copo d'água pra cada um...mas não muito...
A gente conversava sobre fantasmas, o assunto preferido de todos os campistas durante a noite. Adriana contava pra gente as histórias do sítio. Contava que há muito tempo atrás, o sítio não tinha cercas, e os 50 metros entre a casa principal e a casinha/cozinha eram usados como passagem pela vizinhança. O problema é que o tempo tinha passado e essa vizinhança já tinha morrido. & quando ela e as irmãs eram crianças, elas viam os espíritos famintos e remotos dos transeuntes atravessando aqueles 50 metros. OLHARES PETRIFICADOS MEDO MEDO MEDO MEDO & MIOJO. Tawan perdia o sorriso nos seus olhos. Ênio parecia congelado no tempo. João Paulo e Jefferson mastigavam timidamente a sua maçaroca, como se os fantasmas os pudessem ouvir, Monge e Monjinho pareciam Budas pecadores, e Arthur tentava afastar o medo com um ligeiro sorriso. Eu? Tremia dentro duma infinidade de casacos. Frio e medo me faziam companhia. Lá fora, o breu.
Olhei pra janela de vidro. Escura. Todos estavam hipnotizados. Até Adriana, mesmo sendo ela a narradora da história. Olhei pra janela e só pude elaborar uma frase pra dizer a essa turma:
PUTA QUE PARIU!!! OLHA NA JANELA!!!
Desespero geral. O pessoal pulava como galinhas degoladas! Saltavam de suas cadeiras. Eu ria por dentro. Jamais vou me esquecer da expressão de pavor no rosto de Ênio. _ os olhos arregalados em direção a janela, o corpo magricela saltando da cadeira como um gato desengonçado, o boné caindo no chão, a boca aparelhada formando apenas um ÔÔÔÔ!!! HA!HA!HA!HA!HA! Aquilo foi muito engraçado! O pessoal se olhava assustado, sem dizer uma única palavra. Respirações ofegantes. Eram sobreviventes de um Holocausto. Após alguns segundos de estagnação, tudo explodiu num delicioso HA! HA! HA! HA! HA! A gente ria até se acabar.
Abandonamos a casinha/cozinha e voltamos para a casa principal, atravessando os 50 metros assombrados. Meio assustados, meio felizes. Eu era Stephen King e era o dono da água.
Achamos uma antiga vitrola, perdida no meio de coisas perdidas. O episódio que se seguiu foi o mais bizarro e insólito de um carnaval insólito. Moliere ria na tumba. Encontramos um vinil poeirento. Um bolachão negro que tratamos de botar pra tocar. Ligamos a vitrola numa tomada da sala e botamos o treco pra tocar. O que saiu de dentro das caixas de som, foi a música tema de Star Wars, numa versão Disco Music! O vinil era um remanescente dos anos 70 e emanava aquela aura amálgama de Embalos de Sábado à Noite com Guerra nas Estrelas. A música era um eco estranho, o fantasma de um palhaço. Nos olhamos em silêncio, sem saber o que fazer. Explodimos numa nova série de gargalhadas. Começamos a dançar da forma mais ridícula que conseguíamos. João Paulo se mexia ignorando o carnaval. Jefferson vencia todo o pacifismo e explodia em movimentos neuróticos. Ênio era um palhaço louco pulando na sala. A canção era horrível! O cúmulo! Star Wars em Disco Music?! Qualé! Mas ela era nossa. Como se tivesse sido feita pra ninguém, só pro nosso grupo de aventureiros. Como se ninguém jamais a tivesse escutado e ela fosse um tesouro, um tesouro horrível e ridículo dos anos 70, há mais de vinte anos esperando pela gente. E nós o encontramos. Lembrando agora, gostaria de botar as mãos naquele vinil novamente... Não sei por que... Porém sei que neste momento ele está hibernando mais uma vez, esperando por mais um grupo de aventureiros futuristas.
Uma sessão de piadas antes de dormir. 2. 3. 3:30 da manhã. Uma sala sem móveis. Um sofá que finalmente via traseiros. Um bando de caras. Uma garota. Uma sessão de piadas nos fazendo esquecer do medo e do frio. Ou melhor, guardá-los em local seguro. Depois, cama!
Adriana ia pro seu quarto, enquanto que na sala, o pessoal se amontoava entre sacos de dormir. O meu era o mais ridículo, vermelho brilhante. Eu parecia uma linguiça ambulante. Uma esquisitona minhoca inchada. O frio era malévolo! Éramos marionetes nas mãos caquéticas do inverno!
_ Ops!
_ Peraí!
_ Chega pra lá, porra!
O exército de sacos de dormir abrigava moleques com sono.
Deixamos a lareira acesa, como que pra espantar o treme-treme gelado. Mas não adiantava muita coisa, tudo o que saía da lareira era uma tímida fumaça.
Tawan foi o primeiro a dormir. O cara tem a perícia magistral de morrer quando despenca numa cama (ou saco de dormir)! Além do corpo, nada sobrou dele. Um fóssil pré-histórico roncando, respirando e tremendo. Já eu, fui o último a pegar no sono. Sempre tive dificuldades pra esse tipo de coisa. Taí um talento que eu nunca vou ter: dormir. Um milhão de pensamentos me fazem companhia. Ainda fiquei um bom tempo olhando praquela cambada de sacos de dormir roncadores.
Foi um puta dum feriado! O único carnaval que valeu alguma coisa! E como valeu! Mais do que um milhão de dólares! Diversão. Medo. Correria. & muito frio. Três dias que valeram por um épico.
No primeiro dia o pessoal acordou com o Arthur colocando a droga do disco Disco Music no volume mais potente possível. Todo mundo acordou com os ouvidos tinindo. O segundo dia, foi quando a Adriana acordou a cambada disparando uma arma de espoleta, só que sem espoleta. POU! POU! POU! e todo mundo acordou. POU! POU! POU!
Fomos embora de lá com o nosso velho ônibus maltrapilho. A gôndola do inferno. Que de inferno não tem nada. Aquele que guia os heróis para o outro lado, e os trás de volta com semblantes maníacos, cansados & mágicos de quem esteve no outro lado e voltou para contar a história. De quem gritou poemas, chorou com o frio, descobriu coisas místicas e mundanas. De quem viu muito, tanto, que tudo o que sobra é a cegueira, e a certeza de que tudo viu. De quem olhou para a escuridão e entendeu o que existe dentro de suas pupilas notívagas. De quem passou pelo Vale do Frio e da Morte, da Noite e da Dor. De quem esteve nos Reinos da Mágica e dos Truques Baratos e AHHHH! Nós estivemos no final do mundo, nos vestimos de brumas, e voltamos. E foi com esse semblante que voltamos a civilização. Com o semblante insano e heróico da Testemunha da Criação. E muitas barbas por fazer.
Nos despedimos, combinando novos programas para o próximo final de semana. Cada um tomou o seu rumo. O seu ônibus.
Na cidade, o carnaval dava os seus últimos suspiros. As pessoas ainda pulavam com suas camisas floridas e MAKE UP, mas não importava, pois nós tínhamos presenciado alguma coisa mais importante e passamos pelas ruas ignorando a tudo e a todos. Nós havíamos descoberto alguma coisa. Eu havia descoberto uma coisa. Não me pergunte o que. Mas eu não posso deixar de sentir que naquele feriado, naquele sítio distante e deserto, eu descobri alguma coisa.
Dentro do ônibus pra casa, eu não era um poeta. Não era um artista. Não era autor de nenhum site e de nenhum livro. Eu não era nada além de um herói. E um herói é tudo o que alguém precisa ser.
Muitas coisas me aconteceram. Coisas que eu vou contar e outras que vou guardar para mim. Mas de vez em quando, me pego pensando naquele dia, naquela noite, em que eu estava tremendo de frio, enfiado num saco de dormir ridículo. Uma lareira agonizante. Em que eu estava custando a dormir, rodeado de sacos de dormir, cercado pelos caras mais filhos da puta e sacanas de todo o mundo! E eu me lembro deles todos.
. . .
O filme ia passar muito depois da meia-noite. Eu ia ficar acordado esperando. Não tinha aula no dia seguinte, então foda-se o sono! Um filme de terror é tudo o que um moleque pré-adolescente metido a escritor precisa pra conseguir inspiração. E na época, era o que eu fazia, histórias de terror (ou ao menos eu achava que fazia).
O gosto de Nescau e biscoitos de chocolate inundavam a minha boca. Aproveitavam e festejavam ao longo do céu da minha boca, enquanto não começava o espetáculo infernal. & quando começasse, eu iria esquecer todo o Nescau e todos os biscoitos do mundo! Na minha boca, somente o gosto de uma palavra, lenta e escorregadia: BLOOD! BLOOD! BLOOD! Um espectro cartunesco.
Noticiários. Novelas. Comerciais. Tudo era uma bola de neve, com o único propósito de me confundir e me afastar do meu oráculo! Eu resisti bravamente. Toda a chatice televisiva do mundo não era páreo para mim.
A casa pairava num completo sono e eu era o único ser vivo acordado naquela hora da noite. Tudo estava apagado. Até mesmo na rua viam-se poucas luzes. Ninguém ousava testemunhar aquela hora macabra. A tv aos poucos tornava-se mais soturna e mais obscena, um ser estranho, brilhando luz verde na minha frente. Raios hipnóticos saindo de lá como braços sem carne.
Eu estava explorando algum lugar inexplorável, e mais cedo ou mais tarde iria pagar caro por isso. Voava sobre um tapete mágico por cima de uma baía escura & repleta de tubarões. O tipo de coisa super perigosa à se fazer. A ausência de qualquer espécie de segurança me atraía cada vez mais. Eu subia a montanha, em direção ao castelo, onde um vulto espectral me abriria a porta e muito em breve ecoaria alguma estranha saudação Be my guest...
O último comercial. Silencioso & solene, o prelúdio da tumba. Eu sabia que tinha conseguido, finalmente tinha chegado lá! Tinha vencido o sono e a hesitação e chegara no ponto onde não havia mais retorno! O último comercial!
E tudo começa, a escuridão technicolor e a versão brasileira Herbert Richards cavam os meus pensamentos e ocupam todas as minhas idéias. E eu não tinha muitas idéias. Eu não tinha nenhuma idéia. Aquele era um momento de pura contemplação, testemunhas! Nada a se fazer além de se deixar levar pela montanha-russa! E rezar para não sair dos trilhos!
O filme inteiro era uma mistura surrealista de morbidez com depressão, que formava montanhas e pradarias, estradas desertas e castelos de pedra. Mas até aí, eu estava levando a coisa toda na boa. Tinha passado pelo teste. &...
de repente tudo muda. A tela adquire uma coloração vermelho-preto. Uma sensação claustrofóbica atravessa o cristal líquido! Foi tudo uma fração de segundos! Eu, um pirralho sozinho e perdido no meio da noite, tentando desafiar um filme de terror, & subitamente, um ensandecido Christopher Lee, no papel de Drácula! Ele era a personificação da monstruosidade explícita! Arreganhava os dentes cravados em gengivas vermelha. Duas porras de filetes de sangue descendo do maxilar até o colarinho. O cabelo negro engomado, penteado para trás. Seus olhos eram o que há de mais medonho, duas órbitas pálidas, afogadas em vermelho sangue, que pulsavam e se arregalavam e zigzagueavam pra lá e pra cá, emitindo fúria e fome! PUTA QUE PARIU! AQUILO ERA DEMAIS PRA MIM! O ambiente avermelhado e chamuscado, como a tumba de um inferno (eu acho que era um castelo ou uma caverna...), e a mocinha assustada gritando, completavam a cena. Enquanto Christopher Lee/Drácula sorria e grunhia, a mocinha recuava contra a parede, ela sabia do seu destino. & eu sabia do meu.
Não agüentei nem mais meio segundo na presença de todo aquele inferno! Dei um salto do sofá e disparei em direção ao quarto, deixando luzes e TVs ligadas!
Um mergulho frenético na cama. Eu tinha perdido a batalha. Na hora era o que eu achava. Mas talvez, olhando pra trás, eu tenha vencido a parada. Mas naquele confins da noite, eu era só um moleque aterrorizado, que por tamanha petulância, fugiu gritando com o rabo entre as pernas, diante da presença dum Christopher Lee imponente! Eu tremia e ofegava debaixo dos cobertores. Pagara caro por ousar entrar no mundo do inferno e das dublagens. Tinha seguido o seu chamado como um cordeiro em direção a uma toca de lobos.
Do outro lado, a sala ainda estava acesa, e Christopher Lee ainda gargalhava.
. . .
Sábado à noite! Lá estava ele, a grande e velha noite de sábado diante dos meus olhos! Promissora, reluzente e perigosa, extremamente perigosa, de uma forma como só as noites de sábado sabem ser! Era um daqueles dias em que você tem tudo planejado e tudo parece seguir uma ordem de perfeição que de jeito nenhum pode acabar mal. E eu era uma parte perfeita dessa realidade deslumbrante. Nenhum poema por hoje. Nada. A não ser uma roupa muito bem passada e um monte de visões fosforescentes na cabeça repleta de shampoo. Nunca me senti tão arrumado e preparado para o que der e vier quanto naqueles sábados à noite!
Nós três, caminhando pela rua, e por todas as ruas. Vagabundeando, enquanto esperávamos pelo destino certo. Eu não parava de falar nas garotas, garotas e mais garotas que nos esperavam impacientes pelo caminho interminável do fim de semana. Anderson, deixava de lado o Rock'n Roll e seguia o curso natural das coisas, fluindo e gargalhando. Anderson é um desses caras que curtem um bom e velho rock'n roll (como eu), nada dessa papagaiada colorida dos videoclips, mas sim o que há de mais puro no rock, e como se isso não bastasse, o sujeito realmente FAZ rock'n roll. Ele é um desses com uma banda, que nunca tem uma banda por muito tempo, mas que sempre está tocando de um jeito ou de outro. E se amarra numa boa conversa e aprecia tudo o que é dito de forma inteligente e sempre responde com os quatro olhos (2 verdadeiros e duas lentes envidraçadas) arregalados em êxtase e um longo ÉÉÉÉ!!! O tipo de cara que vale a pena conversar sobre tudo. Junto da gente estava Hugo, e ele não é nada mais do que a personificação do próprio nome: escuro e calado, exatamente como o som do nome HUGO soa para todo mundo. Uma estátua viva. Ele é um dos que podem ser chamados de legítimo alienígena, um enigma a todos, incluindo a mim. Como um Buda congelado no tempo, ou uma estátua da Ilha da Páscoa, perdida em sua própria contemplação. Mas do momento em que você se torna íntimo do sujeito, o cara explode em sonoras gargalhadas de HO HO HO HO com a barriga tremendo de tanto rir, e toda aquela sobriedade e seriedade se dissolvem numa estranha comédia encenada por um sujeito estranho. Lá estávamos nós, três sujeitos estranhos pra ser sincero, caminhando pela rua, sempre a pé (essa era a nossa regra número um), em direção ao Country Club, onde uma boate alucinada nos esperava, onde um universo dançante e vibrante tomava forma em nossas imaginações.
Chegamos nos portões da boate nos sentindo verdadeiros Johns Travolta, e nem mesmo nos chateamos com aquela chatice de mostrar documentos, fotografias, chaveiros e o caralho a quatro. Nós olhamos ao redor, com três putas de uns sorrisos nos rostos. Tínhamos otimismo exalando de todos os poros.
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O balcão do bar era um bom local pra gente poder respirar um pouco, se situar e planejar a noite. E nós traçávamos as nossas rotas, enquanto Anderson tomava cerveja e eu coca-cola (é estranho que um cara como eu não beba, mas é isso aí...). Hugo olhava o movimento ao redor, já farejando um final não muito feliz. Tudo se movia por onde quer a gente olhasse, todos com aquele vigor e sorriso idiota do pessoal que acaba de chegar numa festa. O ar era uma mistura caótica de perfume e loção após barba. O retrato do mais perfeito banho.
_ Olha só cara, a porra da pista tá lotada de garotas! Cara, não vai ter erro, a gente vai se dar super bem! Claro que vamos, nós temos muito mais pra oferecer do que a maioria desses caras.
_ É. Eu posso falar das coisas que eu leio e das que eu escrevo, você pode falar de música e que você faz música e blá, blá, blá e é isso, não tem erro! Nós somos verdadeiros achados no meio desses caras todos!
(É... nós sempre assistíamos às cenas com olhos de expectadores... Como se isso fizesse alguma porra de diferença...)
Hugo encarava à pista de dança, sabendo que NADA era tão simplista como a gente queria que fosse.
A música era uma daquelas batidas dance, frenéticas e insanas e nós tentávamos nos misturar à multidão. Fico pensando em como os olhos por detrás dos óculos de Anderson não devem ter sofrido diante de tanta luz fosforescente e flashs psicodélicos... Nós estávamos perdidos lá dentro! Quanto mais tentássemos nos embrenhar, mais o caminho se fechava em verdadeiras muralhas de gente. O ambiente se tornava mais dinâmico e amoral, as pessoas brilhavam com as luzes. Ali, no meio da pista de dança, tomamos consciência que estávamos num inferno humanista, no centro de um espetáculo sem rédeas. Um pardieiro de cores. E tudo era muito bom!
& então nós avistávamos alguma garota que nos interessava, e lá íamos nós, os verdadeiros Johns Travolta, os artistas, os poetas, os pensadores, os revolucionários de uma grande, úmida, penumbra latino-americana!
Nada acontecia. Tudo o que eu conseguia pensar se tornava inútil e impensável diante daquelas meninas. Nada do que eu fizesse surtiria efeito. A minha mente não era nem um décimo daquilo que ela sempre vinha sendo. E isso também acontecia com as investidas de meus dois ilustres amigos. Nada acontecia com eles também. Então Anderson ou Hugo me dava um aceno de positivo, como se as coisas estivessem correndo às mil maravilhas. O DJ em cima do palco ignorava à tudo, com uma bebida colorida em suas mãos.
E a cena patética se seguiu por toda a noite, um fracasso após o outro, sem que nenhum dos três tivesse o bom senso de propor um final para toda a agonia. Ao contrário, perpetuávamos a comiseração lenta e interminável de três moribundos. A verdade é que aquele não era o lugar, e aquelas não eram as garotas. Eram daquele tipo de menina hiper bem-vestida e com telefones celulares na cintura e sempre com o rosto alvo e sorridente, o tipo de menina bonita e com planos pro futuro e uma faculdade de medicina as esperando. Embora nós também tivéssemos planos pro futuro e também estivéssemos bem vestidos, alguma coisa nos denunciava. Era como se uma aura cinzenta pairasse por cima de nossas cabeças. Nós éramos forasteiros. Impostores. Mesmo aparentando ser como qualquer um de lá, a verdade é que nós não estávamos em nosso habitat natural (e diabos, qual era o nosso habitat natural??!!) e íamos sendo gradativamente desmascarados pela multidão feminina ao redor. Éramos fraudes, patifes. Verdadeiros charlatões. A situação durou até o meio da noite, quando já estávamos num estado deplorável e decadente, e todo o otimismo ia por água abaixo. Nós éramos reduzidos a três cansados e esqueléticos lobos da estepe no meio dum deserto árido, que transpirava hostilidade. HERMANN HESSE ESTARIA ORGULHOSO DE SUAS TRÊS CRIAS! E Hugo se aproximava, me perguntando
_ Como as coisas estão indo?
_ Nada bem, nada bem...
Eu não era nada mais do que um cara sem nada pra dizer ou pensar. Toda a minha sensitividade para as coisas ao redor simplesmente não existia, e eu não tinha mais a mínima condição de analisar a situação. Anderson se apoiava no meu ombro, com os olhos injetados de exaustão, parecia uma versão magra e doente do que fora há algumas horas atrás. E então ele me dizia com a sua voz desesperada:
_ Ei cara, vamos tentar só mais uma vez! Olha, aquela garota ali. Ela parece ser legal, eu posso me aproximar e conversar com ela e...e...e se ela não se interessar pela minha conversa, você pode falar uma poesia pra ela e...e...e...e se ela não gostar, o Hugo pode tentar falar um pouco e...
_ Cara, não dá! Nada do que você falar vai fazer qualquer diferença! E eu não faço a mínima idéia de como esse papo de poesia funciona! Nós somos só três caras numa noite improdutiva, nós não somos os artistas que o mundo clama! Nós somos só mais três caras aqui, e olha, isso tá cheio de caras!
Eu estava sendo radical demais e exagerando na gravidade da situação, mas como eu disse, não era hora de grandes análises. A noite terminou sem que nada de bom tivesse acontecido.
Mas talvez as coisas não fossem tão ruins assim. Aquela caverna de ritmo e endorfina pode ter exercido alguma influência sobre nós três. Embora as cinco da manhã, nenhum de nós soubesse disso. Lá estávamos, sentados no meio fio, as camisas grudadas no corpo, um insuportável cheiro de suor, os cabelos totalmente desarrumados, três maníacos de olheiras profundas esperando por algum facho de sol (que no momento nos cairia como um verdadeiro milagre), esperando que as revelações nos descesse dos céus e enchessem nossas almas e mentes com todo o tipo de excitação e sabedoria adquiridos numa noite como aquela. Anderson não parava de se lamentar.
_ Cara, eu nunca mais ponho os pés naquela espelunca. Eu juro, essa foi a última vez.
E eu concordava. E sempre jurávamos que aquela tinha sido a última vez, mas sempre voltávamos lá, um ou dois finais de semana depois.
De todas as meninas que eu já tenha me envolvido, pouquíssimas, POUQUÍSSIMAS, foram através desse tipo de lugar, mas seja como for, aquelas não eram noites perdidas. Havia um certo tipo de pureza, algum resquício de "sagrado" em nossas derrotas (se é que se pode chamar de derrotas) e todos nós saíamos de lá com a certeza de ter testemunhado o mundo e de que o mundo nos havia testemunhado. & nada disso era tão horrível quanto pensávamos. Pois a qualquer momento, nós três acabaríamos ouvindo o gemido melodioso de Deus. HAANHANNN. Enquanto isso, aguardávamos.
Me despedi do Hugo e do Anderson e esperei pelo primeiro ônibus, que só passou as 6 da manhã. Eu dormi das seis e pouco até as onze horas. E escrevi um poema a respeito.
. . .
Aquela tarde de calor e tédio mudou o modo de como eu atravessaria a vida dali em diante. E tudo começou com isso: calor & tédio.
Todo mundo que está em casa lá pelas três, três e meia da tarde sabe do que eu tô falando. O mormaço, a sonolência, a sensação de se estar perdendo alguma coisa muito importante, a sensação de se estar de fora de alguma coisa muito grandiosa, é tudo o que passa por dentro do cara na frente da tv assistindo Sessão da Tarde. As duas horas prometiam ser intermináveis e insuportáveis. A sentença mortal e definitiva de um moleque entrando na adolescência.
Eu me esparramava pela poltrona como uma lesma prestes a morrer, um saco de biscoitos na minha mão, um controle remoto na minha mão, e uma enorme quantidade de tédio para me abastecer junto com o nescau. Se o mundo não estava no fim, EU ESTAVA. Meus olhos piscavam tentando não encarar a horrível novela que se prolongava na minha frente, um eco cafona de um passado não muito remoto.
O mundo deve ser mais do que isso. Eu devo conseguir mais do que isso. Será possível que eu já tenha perdido? Puta que pariu, se for isso, puta que pariu.
E então, tudo mudou! E mudou em technicolor!
A música não era das suas melhores, mas porra, pra mim era a melhor! A fase não era a melhor (a fase de hollywood é considerada a pior, de acordo com os críticos), mas o cara que surgia no meu televisor me indicava um novo mundo, uma nova existência, uma novíssima resposta para todas as perguntas que a rapaziada me fazia! ELVIS PRESLEY surgia fantasmagórico na tela vespertina da Sessão da Tarde. Não era o seu melhor filme, nem o seu melhor momento, mas era Elvis Presley que vinha à um moleque sentado em frente a tv, com novas atitudes...e um quilo de brilhantina. Tudo era novo, brilhante, promissor. Elvis era ao mesmo tempo um oráculo e um caminho. Um caminho que me levaria para fora de Kansas City.
Acho que o filme era alguma merda sobre o Havaí, que provavelmente Elvis deve ter se sentido enojado de fazer, mas eu não prestava atenção em nada disso. Somente nos movimentos, nas imagens, na imagem. BUUM! A coisa estourou na minha cabeça e tudo ficou mais claro! Nessa hora eu tomei a maior resolução de toda a minha vida de onze anos, eu me decidi como eu iria ser. Eu iria ser exatamente como Elvis Presley! Ele tinha o olhar, a atitude, o andar, o foda-se nos lábios, o cara tinha tudo o que eu precisava ter. Era uma perfeita experiência de si mesmo. Era isso mesmo, Daniel Frazão iria entrar numa metamorfose irreversível, dando origem a uma nova criatura, alguma coisa de passos quebrados pelas ruas, numa eterna romaria a todos os lugares, sem estar nem aí pra nada nem pra ninguém. A personificação do selvagem, do sublime, de tudo o que todos procuram evitar, a cauda flamejante de um cometa. O filme seguia, com um Elvis dublado e acima do peso, e eu me envolvia num casulo de seda pra uma longa hibernação. O que eu queria era irromper o casulo, sendo um novo ser, explodindo num eterno grito de WABOPLULLAWAPBEMBUMM!
O filme acabou. Eu dei um suspiro de vitória e desliguei a tv, com os olhos distantes e os dentes serrados, me sentindo o cara mais foda do mundo. Elvis Presley tinha a resposta que eu precisava dar para o mundo. E agora eu sabia disso.
Os dias que se seguiram foram de treinos incessantes e cansativos. Treinos de detalhes e coisas aparentemente ínfimas. Eu praticava e condicionava o meu corpo e a minha mente para abrigar o espírito do Rei do Rock'n Roll. Embora não fosse o Rock'n Roll, a conquista de Elvis e a minha ambição, mas sim o "I DON'T GIVE A DAMN". Era o que eu buscava, no meu quarto, no banheiro, na sala. Pouco a pouco eu ia formando um personagem, escrevendo uma ficção e/ou biografia no meu próprio corpo. Eu treinava maneirismos, expressões faciais, entonações, tudo que eu podia captar do Elvis. Arqueava o meu sorriso para a esquerda, procurava soltar a minha cintura e andava como um cowboy. Danielvis. Era o que eu procurava desenhar.
E lá estava eu, em frente ao espelho, emplastando o meu cabelo com a mais fedorenta brilhantina que pude encontrar, e esculpindo um enorme topete. Os jeans nunca caíam tão bem quanto deveriam.
É claro que eu nunca consegui me transformar no que eu queria. Daniel nunca se tornou Danielvis, e todos os maneirismos decorados se dissipavam perante a força dos meus próprios maneirismos. Eu nunca me tornei Elvis Presley, da mesma forma que Elvis Presley nunca se tornou James Dean. Tudo o que o plagiador tenta copiar acaba iniciando uma metamorfose diferente da esperada. A metamorfose do plágio para a criação.
Na época, eu era só um moleque tentando desesperadamente enxergar o mundo com os olhos de Elvis Presley, e ficava puto e com vontade de gritar toda vez que eu percebia os resultados desastrosos de minhas tentativas. Meu cabelo não era loiro tingido de preto, como o de Elvis. Era preto de verdade. Meu sorriso não arqueava para a esquerda, arqueava para a direita! E as merdas das calças jeans nunca ficavam tão bem quanto nele. Mas de uma coisa eu não tenho dúvidas, Elvis realmente me fez entrar num casulo e me transformar numa nova criatura. É, ele foi o caminho para fora de Kansas City, só que o que eu encontrei no horizonte não foi o Rei do Rock'n Roll, mas a minha própria imagem, o Rei de Sei Lá o Quê.
Hoje eu olho para trás, olho para a minha estante, repleta de discos de Elvis, e tentando sem resultados arquear os meus lábios para a esquerda, eu digo para ele, no mais típico estilo Presleyano: THANKUVERYMUCH.
Esse é o final da história pessoal, Elvis Presley não conseguiu se tornar James Dean. James Dean não conseguiu se tornar Marlon Brando. Jim Morrison não conseguiu se tornar Rimbaud. Ninguém nunca conseguiu se tornar ninguém além de si mesmo. E acreditem, se tornar você mesmo é a coisa mais difícil que existe! Muito mais difícil do que se tornar o reflexo de quem quer que seja! ( Las Vegas continua repleta de imitadores de Elvis Presley...). Aquela Sessão da Tarde com um filme idiota (que Elvis deve ter estourado na tv com uma magnum 44) fez isso comigo. Eu saí pra rua numa tarde de calor e tédio tentando enxergar o mundo com os olhos de Elvis Presley, e voltei pra casa enxergando o mundo com os meus olhos, pela primeira vez!
Ps: Ao menos uma coisa eu consegui guardar do Rei do Rock'n Roll: o bom e velho I DON'T GIVE A DAMN.
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Só existe um lugar pra onde eu me dirijo quando estou a fim de gastar alguns trocados. Quando tô na rua, perdido, com dez ou quinze reais à minha disposição: o sebo!
Já foi tempo em que eu me matava de me economizar pra conseguir adquirir o mais novo lançamento na mais nova livraria da cidade. Não mais! Descobri que as melhores coisas se encontram nos sebos. E baratas feito pirulitos vagabundos!
Meu estômago roncava, uma sede dos diabos, e eu fazendo um puta esforço pra não gastar o meu amado dinheiro numa refeição qualquer, ou pior: no tão irresistível-maravilhoso-celestial-orgástico-e-catártico "Sorvete a Quilo Finlandês"! Não! Eu não podia pensar nessas tentações! Os livros me esperavam! (o sorvete era um dos tantos prazeres que custavam os olhos da cara! Uma vez o sorveteiro me extorquiu 10 reais num único sorvete! Um truque maquiavélico de enfiar a pá o mais fundo que puder no balde de sorvete e tacar tudo dentro do potinho, contando com a gula e ganância do consumidor...mas isso é uma outra história...)
O sebo era uma cálida e escura boca aberta à minha frente. Uma gruta de vozes guturais. Eu entrei na pequena espelunca, deixando para trás nada mais do que ruas e ruas e loucos transeuntes portando cheques pós-datados. A mulher do balcão me olhava com um par de olhos simpáticos que se escondiam por detrás de lentes fundo-de-garrafa. Dava pra ver que ela era uma das que iam com a minha cara. Provavelmente me tinha em alto conceito, algo como Uau! Um jovem que se interessa por livros! ( Ou vai ver ela me via apenas como um maluco qualquer com uma grana pra gastar...vai saber...) Esse não era o tipo de coisa que me preocupava, pois eu estava no paraíso liberto e poeirento dos livros velhos! Poetas! Contadores de História! Mentirosos Floreados! Artistas Suicidados! E parasitas drogados! Todos ali, mortos e me olhando, escondidos pelas páginas envelhecidas de suas obras de arte! Um cubículo escuro e claustrofóbico, iluminado por uma parca lâmpada quase pifando. Um ambiente sedutor, com um quê de maligno. Eu estava dentro de um inferno de estantes e me sentia inteiramente em casa!
Agora me deixa falar uma coisa a respeito dos sebos. Frequentar um sebo é o tipo de coisa que requer certa perícia. Não é um troço pra qualquer um. Aprendi isso na primeira vez em que entrei numa loja dessas. Não é como uma livraria comum, em que você entra e têm um milhão de funcionários prontos pra te ajudar e tudo é separado por categoria e ordens alfabéticas. Não. Num sebo você tem que ser um garimpador. Um bandeirante desbravando fronteiras. Um arqueólogo em busca de relíquias esquecidas pelos cadernos literários. Um Indiana Jones literário. E você está sempre sozinho. Nenhum funcionário poderá te ajudar, pois em geral eles são carinhas atrás de um balcão que querem mais que você se foda. Não estão nem aí pra saber o que é que você está procurando.
Eu entrei no local me sentindo aliviado por não ter nenhum funcionário vampiresco na minha cola. Eu sempre odiei aquela típica rotina das lojas e shoppings, em que você entra no lugar, roda um pouquinho, e quando tu menos espera, lá está o cara atrás de você, surgido do nada, como um fantasma de crachá. E ele te diz: Posso ajudar? E você responde: Não, eu só estou dando uma olhada. E ele diz: Fique à vontade. Mas é claro que você não fica a vontade, porque tu sabe que ele tá te sacando de longe, esperando que você escolha logo o que tem que escolher e se mande. Ou pior, esperando pelo pior, que você tente enfiar alguma coisa debaixo da camisa, e então ele terá que gritar PEGA LADRÃO! e tu sairá correndo da loja, feito um trombadinha em pânico. Não... Não em um sebo.
As prateleiras não me causavam grande impressão. Um sebo nunca causa grande impressão à primeira vista em ninguém. Por isso explorá-los não é tarefa pra amador. Se você não tem experiência com a coisa, você não encontra nada demais. E aquele sebo não era exceção. As prateleiras eram um verdadeiro oceano de Sidney Sheldon, Danielle Steel e Harold Robbins e mais um trilhão de folhetins no estilo Sabrina. Mas eu sabia pra onde me dirigir.
Perguntei a balconista se eu poderia subir ao sótão. O lugar onde as grandes relíquias descansavam. Um lugar em que poucos ousavam adentrar. Somente os mais sábios, ou os mais desesperados. Ela abriu caminho, deixando a imunda escadinha à minha frente.
Toda a fome e sede que eu sentia, neste momento não eram nem mesmo lembranças. Eu subia aqueles degraus, repletos de livros, com a maior ansiedade do mundo.
O silêncio era mortal. Todo o ambiente estava inerte e escuro. Eu teria que forçar a minha vista para conseguir ler alguma coisa. Livros e mais livros se empilhavam de uma forma mais do que desorganizada, verdadeiras ruínas vivas. E eu sabia que aquelas pilhas de desgraças estavam vivas, e seus criadores estavam vivos, uivando com ecos ectoplasmáticos Danieeel...Danieeel... Não tinha a menor dúvida, o lugar era mal assombrado. & mal ajambrado. A primeira coisa que fiz foi tirar o casaco, pois não se podia nem mesmo respirar. Um verdadeiro caixão, fechado e trancafiado. Partículas de poeira flutuavam como as brumas de Avalon.
Eu olhei para os lados, sem saber por onde começar. Tudo era convidativo. A prateleira onde ficavam os livros franceses parecia muito interessante, com um enorme volume de Rimbaud por apenas 5 reais. Mas puta que pariu, eu não sei francês. FUCK. Deixei o adolescente maldito de lado e me concentrei na prateleira à minha frente, com amontoados de livros das mais variadas espécies. How To Play Chess, Queen Vitoria, Gone With The Wind, Ecce Homo, Jack London: Life and Time, tudo era uma raridade barata. E cada um desses fantasmas ronronava a meus pés como prostitutas lascivas.
Eu assoprava a poeira de cima dos livros e sentia o peso de cada um em minhas mãos, era como se eu estivesse descobrindo tomos antigos, ou múmias milenares. Tesouros imortais que exalavam bolor e putrefação, mas que se revelavam tão doces quanto todas as primaveras do mundo, se você fosse capaz de descobri-los.
Consegui descolar As Vinhas Da Ira, de Steinbeck, e uma edição caindo aos pedaços de 1984. Mas eu sempre gostei dessas edições caindo aos pedaços. Sempre senti um certo prazer em conseguir esses livros. Neles, se tem a nítida sensação de se estar conquistando algo, coisa que não acontece com os livros novos. Através das páginas soltas e capas consertadas com durex palavras são ditas em forma de estranhas revelações. Palavras impronunciáveis por qualquer livro de primeira mão. A Mágica Dos Livros Velhos.
Tchau meus amigos! Até a vista Jack London! Te vejo mais tarde Garcia Lorca! Bye Bye Ernie Hemingway! Se cuida Kafka! E até você, Jacqueline Susann, fica na paz!
E o ar! Ah, o ar! Tornava a entrar em minhas narinas! Eu desci a escadinha suando em bicas, meio maluco de tanta poeira e escuridão. Um sobrevivente de um passado empalhado. Voltando a um presente cuzão, que não me tem como presente. A loja estava vazia.
Confesso que no momento senti aquele impulso mais do que filha da puta de me mandar com a mercadoria sem pagar nada, coisa que todo mundo sente vontade de fazer quando se depara com uma loja deserta. Mas porra, eu não ia fazer isso! A dona tinha saído (ido comer um salgadinho, sei lá) e me deixado sozinho no sebo. Porra, ela merecia uma salva de palmas! Taí uma alma verdadeiramente boa. O garoto gosta de literatura. Se ele quiser levar uma porrada de livro debaixo do braço sem pagar nada, cara, que leve! Não, eu nunca ia fazer uma coisa dessas. Não em um sebo. Sebos são as únicas lojas em que se tem confiança no consumidor. Pois nos sebos, eles não são consumidores, são sedentos por ecos. É. Sebos são lojas puras. Arcádias. E as pessoas dos sebos são pessoas puras.
Fiquei lá esperando feito um idiota enquanto a mulher comia o seu salgadinho numa pastelaria chinesa qualquer. Esperando com a maior das paciências, e com o maior orgulho de mim mesmo.
A mulher voltou e seus olhos brilharam ao me ver ali, a esperando. Ao mesmo tempo surpresa e radiante. Eu tinha passado no teste. Eu merecia frequentar aquele sebo e visitar o sótão. Ela me deu um sorriso amável, enquanto que o conceito que ela fazia de mim subia em mil por cento. Entreguei os dois livros para ela, já sabendo que seriam seis reais ao todo.
Logo saquei que ela gostou de me ver com aqueles volumes. Steinbeck. Orwell. Coisas inesperadas.
_ Estou vendo que você gosta de ler!
_ É.
_ Pratica alguma coisa de literatura?
_ Não, não. Só leio mesmo.
Não estava com disposição pra dizer que eu escrevia e o blá,blá,blá de sempre. Não tava com muita vontade de iniciar uma conversa naquele momento. Talvez se isso acontecesse, a imagem idealizada que eu tinha dela se dissiparia, e a que ela tinha de mim idem. Preferia deixar as coisas como estavam. Paguei os seis reais e saí da loja.
Sentei num banco da praça, folheando as minhas aquisições por horas a fio, e pra falar a verdade, me sentindo o maior dos intelectuais!
Sempre que posso faço uma visita àquele sótão imundo e sufocante. Cavando poesia e pulp fiction. Henry Miller, mais Steinbeck, uma biografia de James Dean e algumas outras coisas. Tudo por uns míseros reais. Mas o que é mesmo importante, é o momento em que eu estou lá em cima, tossindo com a poeira, ouvindo vozes de fantasmas e delirando em meio a sujeira. Aquele é o meu santuário. Um dos meus lugares secretos. O lugar a que eu retorno todas as vezes que quero conversar com meus amigos mortos. Um pretenso escritor. Um moleque. Conversando com um bando de defuntos famosos. Grandes amigos. Os meus amigos mortos.
E talvez algum dia algum outro moleque suba no sótão de um sebo qualquer. E talvez a balconista o deixe lá sozinho. E talvez eu seja o seu amigo morto.
. . .
Era uma porra dum final de tarde abafado e ressecado, cheio de mosquitos pairando em volta das nossas cabeças. O ar simplesmente não se movimentava, ficava pulsando ao redor das ruas, quente, rindo da gente, e há pelo menos três meses não víamos uma gota de chuva cair do céu. Nós entramos no shopping center como um verdadeiro bando de foras-da-lei saídos duma matinê de velho oeste, sujos e suados, ofegantes, sem muita paciência pra merda nenhuma. Eu, Hugo, Anderson, e Vítor, quatro sacanas suando em bicas, de barriga roncando, e dispostos a acabar com todos os sorvetes que estivessem pelo caminho.
A praça de alimentação estava cheia. Repleta daquele tipo de gente que fica zanzando por aí depois do trabalho, senhoras levando filhotes pra comer um hambúrguer e alunos secundaristas pairando pelas mesas. O lugar era um legítimo refúgio contra o verão. Ficamos ali, olhando para os lados, decidindo o que iríamos consumir.
_ Então? O que vai ser?_ Perguntou Vítor.
_ Cara, eu não sei quanto a você, mas nós temos uma coisa em mente.
Anderson e eu arregalávamos os olhos em direção ao Magnífico e Insuperável Sorvete a Quilo Finlandês, o maior oásis da cidade. Éramos atraídos para aquele letreiro de néon como verdadeiros insetos em direção à luz.
_ Vamos encarar?
_ Vamos nessa.
Vítor nos olhava de cima, do patamar do seu um metro e oitenta e poucos, nos desejando boa sorte, sem entender muito bem o que é que caras durangos como nós dois iríamos fazer na sorveteria mais cara do pedaço.
_ Você não vem?_ Anderson perguntou para Vítor.
_ Não...não tô com tanto dinheiro. Vou pegar um sorvete de casquinha mesmo...
_ Você que sabe.
Corríamos em direção à sorveteria com o semblante maníaco de dois viciados. E é isso o que nós éramos, dois viciados por sorvete, trêmulos e de barriga roncando. Aquele vício realmente estava nos saindo os olhos da cara, e naquele dia nós chegaríamos no fundo do poço.
Entramos no Finlandês. Vítor entrou no MacDonald's. E Hugo nos aguardava na mesa, esperando para abocanhar algum sorvete alheio, uma grande ave de rapina esse cara.
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O vilão dessa história, um jovem sorveteiro não muito mais velho do que nós, nos olhou indiferente e perguntou com um sorrisinho cínico no rosto:
"POIS NÃO?"
Pegamos as cumbucas coloridas e entregamos pro sujeito, olhando para a infinidade de sabores deliciosos, enquanto gotas de saliva desciam por nossos lábios. Anderson foi o primeiro.
O cara enterrou a pazinha no balde de sorvete o mais fundo que conseguiu. Era visível o esforço que o sujeito estava fazendo. Ele era um desses tipos que se empenham com toda a vontade nos seus negócios escusos. O potinho parecia explodir com a quantidade absurda de sorvete que lhe foi despejada. Anderson, não se dando por satisfeito, ainda falou:
_ Pode botar mais um pouco.
O sorveteiro estava deliciado com tudo aquilo. E despejou mais uma enorme bola de sorvete no pote.
Depois foi a minha vez. Pela minha expressão o filha da puta com certeza percebeu que eu também iria ser engabelado. Meu estômago roncava como um animal selvagem, e a minha linha de pensamento a essa hora, já estava completamente tomada pela loucura, pela fome, e pelo calor. O sujeito se aproveitou da situação para construir mais uma de suas montanhas de sorvete, uma bela oportunidade de faturar dinheiro fácil, que grande filha da puta...
_ Aqui está.
Ele nos estendeu os dois potinhos inchados, todo orgulhoso do que tinha acabado de fazer. E nós, na inocência de dois famintos, agradecíamos sem nem mesmo notar a canalhice de que tínhamos sido vítimas.
Mas no momento em que aqueles sorvetes foram postos em cima da balança, toda a nossa felicidade foi por água abaixo. Ficamos pálidos, de garganta seca, sentindo a falência financeira nos dominar.
DEZ REAIS.
Dez reais de cada um! Por um mísero sorvete! O desgraçado tinha faturado 20 reais numa cajadada só! Aquele era sem dúvida o fundo do poço. O resultado funesto do nosso vício. Eu olhava pro Anderson, Anderson olhava pra mim, incrédulos, decididos a nunca mais passar por nada semelhante. As gotas de suor desciam cada vez mais por nossas testas.
É claro que fizemos de tudo para não demonstrar ao sujeito que tínhamos sido tapeados, nos portamos como se estivéssemos no controle da situação, como se dez reais fosse exatamente a quantia que pretendíamos gastar. E é claro que o cara sabia que nós éramos viciados, o que o colocava no controle da situação. Pagamos ao mal-caráter e retornamos à nossa mesa, sentindo o peso dos sorvetes nas mãos...e nos bolsos.
Vítor retornou do MacDonald's segurando uma singela casquinha, e olhou assustado para os nossos sorvetes.
_ Vocês pegaram pesado mesmo, hein? Quanto custou?
_ Dez reais.
_ Ao todo?
_ Pra cada um.
_ O QUÊ????!!!_ O cara quase saltou da cadeira, como se fosse ter um enfarto ou coisa parecida.
_ Tá tranquilo. A gente sabe o que faz._ Anderson tentava se explicar.
Hugo achava graça da desgraça alheia, como a grande ave de rapina que é, mas não falava nada.
A merda já estava feita, agora só nos restava comer a porra do sorvete. O negócio tinha partido pro lado pessoal, já era uma questão de honra. As duas montanhas de gelo adocicado tinham se tornado a nossa quimera, o Everest a ser conquistado. Somente assim conseguiríamos ter a nossa dignidade de volta. Somente assim conseguiríamos encarar aquele calhorda da sorveteria de novo. Tínhamos que digerir todo aquele sorvete, colher por colher, custasse o que custasse.
Começamos a jornada alimentícia com medo de sucumbir pelo caminho. Milhares de mesas de mármore nos rodeavam, e o pessoal em volta nos olhava horrorizado enquanto engolíamos garfada por garfada o nosso infindável sorvete . Olhando-nos como se fôssemos verdadeiros animais selvagens. Um fedelho de uniforme me encarava com admiração, provavelmente me achando um herói por estar encarando um sorvete como aquele, e me tendo como um modelo de "jovem adulto", "adolescente", "menino grande", ou seja lá de que forma ele me via. Sua mãe o virava para frente, me afastando de seu campo de visão.
Vítor não parava de falar sobre os nossos sorvetes enquanto comia muito tranqüilamente o sorvete de casquinha.
_ Vocês têm consciência do que sejam 10 reais? Vocês fazem idéia do que vocês poderiam fazer com 10 reais? Olha só pra mim, eu estou matando a fome e a sede, tanto quanto vocês, e não paguei quase nada. 10 reais por um sorvete é um verdadeiro absurdo. Vocês poderiam...vocês poderiam...caralho, vocês poderiam assistir algum show com esses 10 reais! Ir ao cinema! Comprar alguma coisa melhor! Cara, muita coisa!
Facadas. Aquelas palavras eram facadas entre nossas costelas. O pior não era ter perdido 10 reais numa cumbuca de sorvete, o pior era ter que comer aquilo levando lição de moral.
Nós escutávamos as palavras de Vítor com a resignação própria dos culpados. Vítor é o típico vocalista de banda de rock'n roll que fora dos palcos é um sujeito mais do que responsável e que sempre tem os argumentos certos para os assuntos certos. Um desses que nunca gastaria os seus 10 reais numa besteira. Vocês sabem... O tipo do cara que você nunca escuta e acaba entrando por água abaixo. Hugo, ao contrário, estava achando aquilo o máximo, estava realmente se divertindo com o nosso prejuízo. Para ele quanto pior, melhor.
A tigela colorida transbordava sorvete colorido. Uma hidra de sete cabeças, que por mais que você corte as suas cabeças, mais cabeças nascem em seu lugar. Nós levantávamos a colher com as mãos trêmulas. Cada porção do monte de neve cor-de-rosa era um novo desafio. O medo de falhar nos dominava. O cenário de pessoas almoçando e garçons servindo frituras e bebidas que dominava o ambiente, só fazia com que nos sentíssemos pior. Eu imaginava o que Jack Kerouac me diria naquela situação. Provavelmente nada. Riria da minha cara. Dentro da minha cabeça uma batalha era travada:
Estou no meio de um descampado, cercado pela escuridão e pelo frio, o frio dos sorvetes. O aroma é adocicado, de um jeito enjoativo que me faz querer vomitar. Um enorme monstro salivante me encara da maneira mais hostil possível. Uma forma disforme, colorida, de onde é emanado todo aquele aroma. Ele vem em minha direção. Uma criatura viva! Um pote de sorvete vivo e ambulante, caminhando em minha direção, com milhares de dentes à mostra e baforadas gélidas! Gélidas como tutti frutti congelado! Onde está todo mundo? Onde está todo mundo? É impossível fugir, pois tudo é muito longe e o chão é feito de gelo. Transparente. De onde eu posso encarar o meu próprio reflexo amedrontado. Mas, espere! Alguém está do meu lado! Alguém que talvez possa me dizer alguma coisa! Fazer alguma coisa! Sei lá, me tirar dessa enrascada! Jack Kerouac me observa, segurando uma garrafa envolta por papel de pão. Suas roupas cáqui são adequadas a um aventureiro que sabe das coisas. O monstro está cada vez mais perto. Mais gelado do que nunca. Mais um pouco e não serei nada além de um cubo de gelo.
_ Jack! Caramba, o que é que eu faço agora? Eu tenho uma pilha de sorvete para derrotar!
Kerouac parece pensar por alguns segundos, como se estivesse analisando por detalhes aquele desastre todo. E então explode no mais desanimador e desesperado
HA, HA, HA, HA, HA, HA!
que eu já ouvi em toda a minha vida. Porra, não havia nada que eu pudesse fazer com aquilo a não ser me afastar, tentando fugir daquele monstro.
_ Cercado por um monstruoso sorvete?
A voz me é familiar. Stephen King coça o queixo, como se não pudesse entender o que eu estava passando. Ignora completamente a criatura horrenda que está me perseguindo.
_ Você! Você pode me ajudar! Você sempre sabe o que fazer com esses monstros e...isso tudo!
Stephen King se aproxima, colocando a mão sobre o meu ombro.
_ Eis o que você pode fazer... você pode...você pode...hunn...é...você...
Ele parece esconder alguma coisa. Como se estivesse prendendo o riso ou algo assim, e de fato estava prendendo o riso, até não aguentar mais e explodir num acesso de gargalhadas como Kerouac. Os dois escritores se mijam de tanto rir, rolando pelo chão de gelo, enquanto a criatura feroz se aproxima cada vez mais.
_ Obrigado caras...vocês foram de muita ajuda...
Ela está à minha frente, uma gigantesca montanha cor-de-rosa, com pequenos e nojentos pedaços de frutas cristalizadas escorregando pela testa como suor. O bafo de mamão papaya me faz tombar para trás, num princípio de desmaio. Eu vou desmaiar...bem de fronte aquele horrendo pesadelo comestível.
_ EU NÃO AGÜENTO MAIS! NÃO VOU COMER NEM MAIS UMA COLHERADA!
Afastei a tigela da minha frente, inchado e tonto. Hugo deu cabo do que restava. A nossa batalha contra a humilhação já tinha sofrido a primeira baixa. Anderson era agora a nossa última esperança.
Ele ingeria as colheradas de sorvete sem pensar muito no que estava fazendo, procurando não ser dominado pelo terror da guerra. Começava a adquirir uma coloração azulada. O suor descia pelos cabelos. Eu tinha cada vez mais certeza de que ele também não resistiria por muito tempo. O meu sorvete pelo menos era mais leve, de frutas tropicais: mamão, banana caramelada, esse tipo de coisa. Mas o dele, era uma verdadeira bomba atômica de chocolate com menta. O negócio devia descer como um inferno!
Mais de quarenta minutos já haviam passado desde que tínhamos comprado aquelas drogas de sorvetes, e Anderson seguia em sua maratona, colherada após colherada, as mãos tremiam como nunca, mas sua força de vontade era digna de um soldado. Já estava naquele estágio em que as pessoas fazem as coisas mecanicamente, de forma condicionada. Vítor, eu, e Hugo o olhávamos hipnotizados pelo suspense da situação.
A ÚLTIMA!!
Ele tinha conseguido! O sorvete inteiro estava extinto! O pesadelo tinha terminado e nossa dignidade recuperada! Era o fim! A luz no fim do túnel! Anderson afastou de si a maldita tigela, agora vazia, e nos olhou como se nada tivesse acontecido, como se não pudéssemos ver o aspecto deplorável em que estava.
_ Pronto. Vamos embora?
Saímos do shopping em direção à noite que se iniciava, sentindo em nossas costas os olhares atemorizados de todas aquelas donas-de-casa de sacolas nas mãos. A brisa noturna foi um verdadeiro alívio depois de toda a desgraça que tínhamos passado, e quase nos fazia esquecer do sorvete que rolava por nossos estômagos. Nos despedimos e nenhum de nós comeu sorvete novamente pelos próximos dois...dias.
Não muito tempo atrás, voltei naquele shopping. O Finlandês foi destruído. Construíram uma porra de um fliperama no lugar. E eu daria tudo para me encontrar mais uma vez com aquele sorveteiro e botar as mãos naqueles sorvetes!

. . .
Minha turma é uma dessas que parecem sobreviventes de uma pequena ilha no meio do oceano. Testemunhas do Armagedon que agora observam com olhos marejados o amanhecer de um novo dia, repleto de pássaros cantando e almas partindo. Uma turma de felizes, é isso o que esses caras são.
Sinto a fome em cada um deles, uma fome mortal que consome as ilusões dos mais fracos, e semeia esperanças nas entranhas dos mais fortes.
Um dia fomos para um sítio numa pequena cidade chamada Duas Barras, cravada no meio do nada, e pude perceber cada um dos meus amigos mais de perto.
O que posso te dizer sobre a cidade? Nem mesmo se parece com uma cidade, sendo apenas uma pequena praça onde transeuntes desconfiados te observam chegar ao meio-dia, enquanto os sinos de uma igreja barroca, entre a prefeitura e o fórum, badalam anunciando a passagem de mais uma tarde. E você olha em volta e não vê nada além de bicicletas e mercearias tomadas pelas risadas. Uma cidade menor do que pequena. Uma semente de frutos da terra. Um lugar no meio do nada, Duas Barras. O lugar onde essa turma um belo dia chegou.
Dentro da casa o pessoal tratou de encontrar lugares para dormir, o que se resumia a dois quartos infestados de cupins e sofás mofados na sala, onde eu, naturalmente, fiz o meu ninho. Virei para Ricardo e falei: "não vai ter lugar pra todo mundo. É melhor a gente garantir o nosso de uma vez." Mas Ricardo não é o tipo do sujeito que se preocupa com um lugar onde possa dormir, e pra falar a verdade, ele não é o tipo do sujeito que se preocupa com o que quer que seja, pois a vida está aí para garantir a boa ventura e a lua abraça os viajantes, mesmo que estejam tremendo e com medo, no chão de pedras abaixo das estrelas. Tudo é lindo quando existimos e tudo é uma coisa só: vida. Esse é o Rica, o único beatnik autêntico que jamais conheci. O tipo do cara que numa outra existência devia estar caminhando pelos desertos de Jerusalém, moribundo e apaixonado, apaixonado pelo deserto, ouvindo as palavras dos andarilhos que proclamavam o amor pelos becos escuros do verão. Um cara que dormiria do lado de fora de um casebre, pelo simples fato de que a vida está aí e não podemos fugir dela...a vida que nos acompanha em todos os momentos.

Esse é o Ricardo sendo abraçado pelo seu irmão Cezar.
No final das contas, Rica também conseguiu um lugar na sala, dormindo no chão. Na sala também ficaram Cezar, irmão do Rica, Anderson, Natália, Guilherme e eu. Acho que não preciso dizer mais nada a respeito do Anderson, vocês já conhecem muito bem o cara. Mas posso dizer que naquele dia não havia música alguma para ele, apenas a câmera em suas mãos, e se dedicou a ela com o mesmo empenho com que toca as suas canções. Alguns o chamam de detalhista, mas eu não. Simplesmente entendo que artistas jamais deixam de ser artistas, seja na frente de um piano ou tostando numa tarde quente e repleta de barro. Sei disso, pois vejo a tudo com os meus olhos de escrevinhador.
Ficamos todos nós amontoados. Um calor dos diabos, mosquitos planando pelo ar como aviões da Segunda Guerra Mundial bombardeando milharais japoneses, e um bando de sujeitos insones se contorcendo pelos assoalhos e sofás. Ricardo foi o primeiro a pegar no sono, sendo acompanhado logo em seguida pelo Cezar, enquanto que Guilherme se aproximava do desespero, devido ao calor e ao ataque brutal dos mosquitos. O sujeito simplesmente não conseguia dormir e sua respiração tornava-se um grotesco chiado. Nos oferecemos para abrir a porta e as janelas e ele nos respondeu com um sonoro NÃO!, pois isso poderia atrair ainda mais insetos. Deixamos tudo fechado e tentamos dormir na maneira em que estávamos: sujos, suados, alérgicos, trêmulos e contentes.
No meio da madrugada o pessoal da sala acordou e iniciou uma série de conversas sem sentido a respeito de qualquer coisa que nos parecesse insignificante. Valia de tudo, desde escatologia até desenhos animados. Biologia animal e dietas exóticas, não importava, desde que tivéssemos o que conversar. Anderson e Natália riam de tudo o que eu falava, e comecei a me perguntar se eu não teria um talento secreto para palhaço. Acho que sim, embora o meu humor não seja do tipo encontrado nas ribaltas, sendo um estilo mais ácido e despojado, típico dos humoristas sem teto que podemos avistar pelos recantos esquecidos. Falei alguma coisa a respeito da maneira estranha como Cezar dormia e Natália caiu na gargalhada, fazendo com que Anderson também se acabasse de tanto rir. Não sei o que falei a respeito de Cezar, mas sei que foi sincero e sem intenção alguma de fazer piada! Guilherme, deitado no segundo sofá da sala, me apoiava em tudo o que eu dizia. Guilherme é o exemplo perfeito do amigo que as pessoas imaginam para si mesmas, um cara que sabe admirar as qualidades e os defeitos dos outros. Alguém que pode gritar e reclamar por horas a fio, salivando e fulminando os próprios amigos com o olhar, mas que abre um sorriso gigantesco logo em seguida, encantado com as pessoas que conversam ao seu lado. Não posso me esquecer do tempo em que ele interpretava o Leonardo, personagem do Cinco Minutos, com a maestria de um profissional, compreendendo cada linha que escrevi e, ao mesmo tempo, dando as suas próprias nuances ao personagem. Guilherme transformou Leonardo em alguma coisa inesquecível.
O dia amanheceu e o pessoal da sala foi o único a escutar os barulhos da manhã; o farfalhar das folhas secas quando os pássaros caminhavam sobre elas, o sol batendo no que sobrara de uma fogueira, e os prenúncios da brisa de verão. Éramos os únicos acordados, enquanto que o pessoal dos quartos ainda dormia. Ramon estava num deles, junto com Adriana, sua namorada, e foi um dos últimos a acordar.
Por volta das dez todos estavam despertos. Fernanda preparava qualquer coisa na cozinha (para ela e para todo o grupo) enquanto Wellington, seu namorado, observava os bois pastarem num descampado longínquo. Ele os observava com os braços cruzados, sempre silencioso e contemplativo, e eu o compreendi, pois também sou silencioso e contemplativo. Compreendi o que Wellington enxergava naqueles bois: irmandade. A pura e simples irmandade entre os animais e a manhã. Os animais e o silêncio. Os animais. A vida que independe de nós.
Dentro da casa o pessoal ria e cantava e gritava. Nós estávamos unidos pela solidão, pois cada um de nós era solitário à sua maneira. E cada um de nós tinha alguma coisa a dizer e a escutar, fosse com o som ou com o silêncio.

Anderson (de camisa azul), Ricardo (de camisa preta), eu (meio que escondido, no meio da muvuca), Natália (a única menina da foto), Cezar (também escondido, de camisa amarela), Guilherme (onde somente a sua cabeça aparece) e Ramon (no topo de todo mundo). Nós, um dia antes da viagem.
O fim de semana não foi perfeito, estava longe de ser perfeito. Nós não éramos perfeitos, estávamos longe de sermos perfeitos. Mas ainda assim, tudo aconteceu como se escrito por um grande Deus-Escritor, que traça cada linha sabendo o que faz, e constrói os seus personagens amando cada um deles, heróis ou vilões. Pois como diz o Rica, a vida está aí e tudo está numa boa.
Para os fissurados por imagens, me despeço com mais algumas fotos dos personagens que costumam transitar pelas minhas histórias:
Eu, entre Fernanda (à minha direita) e Aninha (à
minha esquerda, que infelizmente não estava naquele fim de semana).
Natália
(sozinha com sua tatuagem).
Guilherme,
em algum ponto distante, numa pista de dança.

Ramon, escrevendo qualquer droga que seja
Aninha
(de preto), Karla com K (de azul), uma menina de vermelho que não conheço,
Fernanda (de preto e de óculos).

Renato (o mais novo de todos, de laranja...não estava em Duas Barras), Anderson (de camisa preta e óculos), Ricardo (também de camisa preta, com o cabelo estilo Beatles do início), Aninha (de rosa, acho que abraçada com o Rica, sei lá), Fernanda (de vermelho, do lado da Aninha), Karla com K (entre a Fernanda e a Aninha), Diego (também não estava em Duas Barras...é o de camisa verde no canto da foto). PS: Alexandre, você fez falta, cara!
E qual de nós pode saber quem viverá feliz para sempre?
. . .
E teve esse dia, no início de tudo, quando entrávamos na adolescência, e passeávamos pela cidade como dois caras felizes. Uma noite de sábado, devo dizer, e tinha acabado de sair de uma tarde dentro do cinema. Um dos meus programas favoritos era passar a tarde inteira no cinema, assistindo o mesmo filme, sessão após sessão, até a noite cair. Quando saí, lá pelas oito, encontrei bem na porta do São José um sujeito muito amigo meu, e fomos andar por aí.
Estava quente, mas não o suficiente para nos fazer suar, e as pessoas abarrotavam as ruas com a felicidade e vigor do início das férias de dezembro. A maioria delas adolescentes. Espinhas brotando nos rostos, as lanchonetes empilhadas de gente e um monte de faróis disparados para todos os cantos.
Olhávamos as meninas passarem e atravessarem as ruas, desfilando nas calçadas com os perfumes voando no vento e os cabelos balançando de um lado para o outro, como se nos chamassem. Todas eram bonitas aos nossos olhos, mas você com certeza irá concordar que esse é o modo como a maioria dos garotos dos seus recente treze anos enxergam as meninas. Todas elas são deusas da beleza. Meninas-primaveras por todos os lados. Estava prestes a iniciar o meu primeiro namoro e ansiava por um sorriso feminino ou qualquer coisa que viesse daqueles olhos, daquelas bocas, daqueles corpos. Tudo estava perfeito e belo...e imaculado. Como o prenúncio de um pesadelo.
Foi quando tivemos a terrível idéia de entrar na Rua Portugal, onde a garotada costumava se concentrar. E fomos pra lá, com as passadas decididas e os sorrisos imóveis em nossas faces. O lugar estava tomado por caras bebendo cerveja e garotas encostadas nas capotas dos carrões brilhantes, e o ambiente era coberto por uma fragrância, um aroma estranho, uma mistura de adrenalina com perfumes de verão com teor alcoólico com o cheiro de cabelos recém-lavados: a fragrância do vigor. Ao menos essa foi a minha impressão. Que pequeno moleque imbecil eu era...
Não conhecíamos ninguém, mas não importava, pois tudo o que queríamos era estar ali, percorrer aquela rua e olhar para todas aquelas pessoas sorrindo e se movimentando. Nós só queríamos fazer parte daquilo tudo, mesmo que como espectadores. Tudo nos era novo, como a adolescência que se iniciava. Tudo por ali estava em constante movimento, se transformando com o passar dos segundos, tomando novas formas que engoliam as antigas, e todas elas eram incompreensíveis, o que as tornava ainda mais atraentes. Estávamos em um mundo estranho e não tínhamos a menor intenção de voltar atrás, iríamos adiante, custasse o que custasse, como dois jovens desbravadores de sonhos, que caminham abrindo trilhas entre as folhagens oníricas, sem nem mesmo olhar para trás, sem perceber o momento em que a luz fenece e nasce a escuridão, a linha divisória entre os sonhos e os pesadelos.
Quando já estávamos no meio da rua o meu amigo esbarrou em alguém. Um esbarrão casual, completamente sem intenção, mas a pessoa caiu no chão, pois era um menino pequeno, menor ainda do que a gente. O menino, que não devia passar dos seus onze anos, nos olhou assustado e saiu correndo. Não entendemos nada, pois de todos ali, nós éramos os que menos chance tinham de assustar alguém. Éramos apenas dois magrelos de treze anos em meio a um bando de caras maiores cortejando meninas voluptuosas. Nós pendíamos mais para o lado do moleque de onze anos do que para o lado daquelas pessoas, mas infelizmente essa não era a idéia do garotinho. Vimos o garoto correr na direção de um menino maior, que vestia uma camiseta regata, deixando a mostra duas horríveis tatuagens no braço. Sabíamos que era encrenca na certa, e dessa vez não o tipo de encrenca que estávamos acostumados, à luz do dia, na segurança da nossa vizinhança, sempre de igual pra igual, mas uma encrenca das grandes, com um menino maior de camiseta regata que fechava os punhos ao ouvir as lamúrias do maldito pirralho. Não esperamos nem mais um segundo, tratamos de apertar o passo e dar o fora daquela rua, jurando jamais retornar. O local nos seduzira com seus encantos, nos arrastando para um pesadelo escuro, como uma perfeita sereia. Era isso o que a Rua Portugal escondia, uma bela e pestilenta sereia, penteando os cabelos doirados numa pedra boiando bem no meio dos pesadelos.
Quando dobramos a esquina
resolvemos parar e pegar um pouco de ar. Estávamos petrificados com tudo aquilo
e nos sentíamos perdidos, como se nada tivesse acabado e muita
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As duas sombras dobraram a esquina, surgindo da escuridão como a resposta inexorável para todos os nossos temores. Queríamos correr, disparar dali com nossos pés de Mercúrio em direção ao ponto de ônibus, onde poderíamos abandonar os pesadelos como se abandona o passado ao longo do caminho. Mas essa não era uma opção. Não tínhamos opções. Não havia nada a ser feito além de aguardar o garoto de onze anos que trazia ao seu lado um menino maior, que se parecia com um búfalo, um guardião dos pesadelos que expele baforadas de um ar abafado e apodrecido por suas narinas de inferno; uma criatura dotada de chifres e ódio, à espreita de pequenas crianças desavisadas que ousem cruzar o seu mundo ilusório, atraídas pelo canto melódico da sereia. Ele se aproximava, o búfalo, nos olhando da escuridão, com um dedo apontado para onde estávamos.
Ficamos cara à cara, eu e meu amigo com os dois garotos, e sentia sobre minhas costas a textura gelada da mureta do fórum, um lugar onde mendigos costumavam mijar e ajoelhar em busca de uns trocados. O garoto maior não perdeu tempo com o meu amigo, olhava diretamente para mim, e apontou o dedo indicador para dentro do meu rosto. Seus lábios se abriram, deixando à mostra dentes amarelos como a morte, e de lá surgiu uma voz impessoal, sem vida, sem personalidade, uma voz que nada tinha a dizer além da sentença.
_ EU VOU TE ENCHER DE PORRADA.
A frase me soou dessa exata maneira. Gutural e seca, sem nenhum resquício de dúvida, e foi quando tomei ciência de que estava de fronte à própria morte. O Búfalo. O Bicho-Papão no labirinto. Uns quinze ou dezesseis anos, mas ainda assim, perante os olhos de um menino de recém-completados treze anos de idade, o Bicho-Papão no labirinto.
O garoto de onze anos chamou-lhe a atenção e disse "não foi esse não. Foi esse aqui." Apontou para o meu amigo. Isso me deu um enorme alívio, pois sabia que estava liberto, ao menos por hora. Amizade e cumplicidade não eram coisas que me moviam naquele momento, apenas a sensação de auto-preservação, uma incrível atração pela fuga. Olhei para o garoto maior, horrorizado com o seu tamanho gigantesco. Ele era um imenso pilar de mármore que sustenta um templo de temores e monstros. Imaginei como seria levar uma surra de alguém como ele. Seria o ponto mais baixo, mais aterrador, que alguém pode chegar. Seria estar bem no meio do labirinto. E era onde nós estávamos, no meio do labirinto, no caminho sem saída que se traduzia numa mureta de um fórum. Estávamos perdidos sem caminho de volta. O Búfalo olhou para o meu amigo com seu par de olhos pétreos e destilou uma série de frases e palavras que ainda hoje me são vívidas e límpidas, como todos os meus pesadelos.
_ EU VOU TE ARREBENTAR. VOU TE COBRIR DE PORRADA. ACABAR COM A TUA RAÇA. NÃO ADIANTA TENTAR FUGIR, EU VOU TE DETONAR.
Naturalmente, a alegação de que nada tinha sido de propósito não era um argumento de muita valia diante das circunstâncias. O búfalo ia acabar com o meu amigo e, conseqüentemente, comigo também, de uma forma ou de outra. O búfalo apoiou suas grandes mãos no peito do meu amigo e o empurrou contra o muro do fórum, o que fez com que as lágrimas ameaçassem descer pelos seus olhos, mas ele não chorou. Seu instinto de menino menor o dizia para não chorar, pois monstros como aquele sentem o cheiro do choro como os tubarões sentem o cheiro do sangue, e isso só estimula ainda mais a sua natureza assassina.
Eu pensava no que podia fazer para ajudá-lo. Precisava tomar alguma atitude, impedir que o búfalo destroçasse o meu amigo. Não podia ficar parado enquanto um dos meus era brutalmente destruído por alguém com o dobro do seu tamanho, o dobro da sua largura e uma pele repleta de marcas de tombos, brigas, castigos.
Gostaria de dizer a você que fui o herói do dia, que terminei esse pesadelo com chave de ouro e impedi que as nossas almas fossem devoradas por um grotesco minotauro que nos farejara caminhando numa rua qualquer, mas não foi isso o que aconteceu. Eu não me tornei um herói. Eu não fui guiado por nenhuma força maior. Não fui tomado pelo senso de justiça. Não preservei dignidade alguma. Fiquei parado, esperando o que estava por vir. Não havia espaço para dignidade.
A frase EU VOU TE DETONAR tinha agora sobrepujado a nossa frase de "não foi de propósito". A absolvição se esvaía pelo ralo, misturando-se com a água da chuva e do esgoto.
Ele não bateu em ninguém, saímos ilesos, mas apenas fisicamente, pois ao invés de nos dar uma surra, o búfalo preferiu dar continuidade ao labirinto, perpetuando um pesadelo de ecos e ilusões. Virou para nós dois, aproximou o seu rosto redondo até o ponto em que conseguíamos sentir o seu hálito quente batendo nos nossos narizes, e disse seca e friamente:
_ CORRE.
E nós corremos. Corremos como dois fugitivos do inferno atravessando labaredas e oceanos de dor. Feito dois desesperados, esquina após esquina, cruzando sinais verdes e fazendo com que carros desviassem dos nossos caminhos abruptamente e cabeças de motoristas enfurecidos aparecerem nas janelas gritando "seus malucos!"
Após muita correria, paramos e sentamos no meio-fio, escondidos por um automóvel vazio. Estávamos sem fôlego algum e era uma enorme dificuldade pronunciar uma frase, por menor que ela fosse. Não pronunciamos nenhuma, apenas ficamos ali por alguns minutos, até que nossos corações voltassem ao ritmo normal e a respiração se estabilizasse, e depois fomos para o ponto de ônibus, porque já estava muito tarde.
A frase EU VOU TE DETONAR tinha causado enorme impacto tanto em mim quanto em meu amigo, e daí em diante, passamos a nos referir ao monstro do fórum como Detonação. E nunca mais cruzamos a cidade com a calma de antes, nunca mais...pelo ano seguinte inteiro. A cidade tinha se transformado num labirinto, e todas as ruas e bairros eram corredores escuros de um pesadelo subterrâneo onde um búfalo espectral dormia em algum recanto escondido. Um búfalo chamado Detonação, dormindo e respirando em um ninho fabricado com os corpos das suas vítimas. A partir daí passamos a percorrer a cidade, mais precisamente o centro da cidade, como se atravessando um labirinto onde uma besta se esconde: sempre olhando para os lados, aguardando ansiosos pela próxima esquina, temendo encontrar corredores sem saída que nos obrigasse a dar meia-volta, e acima de tudo, evitando a todo o custo a Rua Portugal. O labirinto estava formado ao nosso redor. Detonação estava em todo lugar. Jornada. Jornada. Jornada. Às vezes acho que a minha vida não deixou de ser isso nem por um único segundo.
Vez por outra avistávamos Detonação caminhando pelas ruas como um fantasma, uma assombração na outra calçada, e apertávamos o passo, virávamos o rosto para o outro lado, nos misturávamos na multidão, coisas desse tipo. Mas de qualquer forma, Detonação nunca mais nos viu, ou ao menos nunca mais se lembrou de quem éramos, o que no final é o mais provável. De certo ele era o típico menino encrenqueiro, que arruma confusão todos os sábados a noite, acumulando os rostos de suas vítimas nas lembranças, e nós éramos apenas rotina, nada mais. Uma rotina de faces assustadas que dura por uma semana e logo é soterrada por novas faces assustadas no sábado seguinte, fazendo com que Detonação passasse por nós sem se lembrar daquela noite de sábado no muro do fórum. Mas nós nos lembrávamos. Ele não era rotina para a gente. Ele era o pesadelo no meio do labirinto. O fantasma da calçada esquerda quando caminhávamos pela direita. Detonação, o búfalo, a onipresença do medo nos acompanhando pelas frestas escuras da cidade natal. E de vez em quando, eu ou meu amigo retornávamos do centro e dizíamos um para o outro, "fui no centro da cidade hoje e vi o Detonação". Geralmente a frase continuava com algum complemento como "tava na frente do pimball" ou "tava esperando ônibus" ou "tava passando na outra calçada". Isso por um ano inteiro.
Com o tempo Detonação foi se tornando apenas mais um dos pesadelos infantis destinados a fenecer nas lembranças e nas ruas de Friburgo. Depois disso, voltei a caminhar pela Portugal, certamente que sim, e hoje entro naquele lugar sem medo algum, pelo contrário, até conheço muita gente por ali. Quanto ao Detonação, nunca mais vi. Deve ter morrido ou se tornado um notório traficante de drogas ou se convertido à Assembléia de Deus (acredite, já vi muitos desse tipo acabarem dessa maneira). Ou, quem sabe ainda, casado e tido dois filhos, aqui em Friburgo mesmo.
Detonação não encontrou mais espaço entre os meus temores, e deixou de ser um búfalo para se tornar um nome. Um nome imbecil dado por dois molequotes imbecis. Mas nesse momento, contando a história para você, posso escutar o eco remoto dos seus cascos arrastando no concreto.
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