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apenas um par de glóbulos vazios

Apenas isso: esquinas nuas, mesas úmidas, córneas feridas, minutos gastos. Nada mais, nada mais do que isso. Palavras violentas, enquanto correm nas primaveras as palavras violetas.
Palavras violentas.
Palavras violetas.
& o sonho de Rimbaud, boiando bêbado por cantos inexplorados do século vinte e um. Henry Miller, oh Henry, você ecoa os ecos de fantasmas negros! Eles são as bolhas eclodindo nos calos dos meus dedos. Mas se ao menos eu pudesse escrever como você, tudo ficaria bem! Mas no ano que vem...eu não estarei aqui...eu serei ninguém.
Sussurro segredos para as minhas idéias. Segredos que elas não sabem esconder. E sempre alteram os finais, como uma eterna novela operística afundando num oceano de sabão em pó. Por que eu disse sabão em pó? Porque é o sentido de todos os folhetins, SOAP OPERA dig it? E não é só o que seu sei fazer, folhetim? Vocês sabem que sim.
VIDA LONGA AO REI DO SABONETE!
Vida longa a Harold Robbins!
Vida longa a Danielle Steel!
Vida longa a Jacqueline Suzann!
Vida longa a Sidney Sheldon!
Apesar de nunca ter lido nenhum deles
eu respeito toda a sua falta de princípios,
e flatulência perfumada,
os seus finais rosados
como bundinha de neném.
Não foi isso o que todos eles sempre almejaram escrever, os olhos violeta de Liz Taylor? Não foi por isso todos os sacrifícios? Não é essa a razão de todos nós morrermos? Não é isso a paixão? O tesão? A razão? A noção? A inspiração?
A imaginação?
Não?
Sim.
Escrever é sempre um duelo.
Uma peleja.

Batalhas ferozes no sopé de um vulcão, com uma multidão urrando nomes de entidades adormecidas enquanto um soturno cavaleiro sem cabeça, envolto em armadura incandescente, e montado no espectro feito de lava de um cavalo negro, empunha uma lança que gargalha maldições.
Escrever.
Agora imagina você, estar nessas circunstâncias, as 23:08 pm, de acordo com o relógio do computador, enquanto a televisão narra um filme noturno do outro lado da casa... Não é o que se poderia chamar de uma batalha bem preparada.
Alguns quilômetros, essa é a minha distância. No alto de uma torre acorrentada um par de olhos violeta pisca na penumbra.
& algum dia,
alguém perguntou a Sidney Sheldon
o que ele gostaria de ser
se não fosse um escritor de sucesso.
& ele respondeu:
um escritor sem sucesso.
Isso diz tudo.
Ao menos pra mim.
(e pra ele,
claro).
O cara pode não ter sido um Shakespeare, um Dostoievski, um Miller, um Kerouac, uma Woolf, um Joyce, um Hemingway, uma Nin, um Lobato, e tantos outros,
pode não criado nada do que todos eles criaram,
mas ele criou Jeanny É Um Gênio
e isso já é muita coisa.
Pandora abrindo a própria caixa, soltando no ar o céu púrpura que invade os pensamentos da horda de rebeldes. Rebeldia alegórica. Som & aroma de metal.
Tróia conquistada. Pilhagem. Sinto o sangue
o suor
o incenso
e os tapetes
debaixo de meus pés.
Somente a violência crua pode caminhar pela desolação dos terrenos inférteis. Essa é uma mentira que eu insisto em acreditar. Mas o par de olhos violeta e o sorriso vermelho dentro de sua clausura anacrônica das quimeras continua a me desdizer com sua crueldade luxuriante. Sorri para mim e o mundo se desfaz. O mar negro transborda em ondas pela areia. Guerreiros saltam para o esquecimento. Vazio. E todo o ardor em movimento espera solene, chafurdado em cores, em terrenos distantes, como uma esfinge que adorna a cercania púrpura da terra dos oásis. E ela diz apenas uma palavra:
escreva-me.
Decifra-me
ou devoro-te.
Esqueça
o passado
Aqueça
o futuro
com o seu toque letal de sedução.
Eu choro à tarde, e as minhas lágrimas são quimeras. Que não morrem, mas flutuam, e respiram e respiram e respiram
sua doce ilusão.
Quimeras
que fazem morada em meu próprio choro. Que me esperam dentro de meus próprios olhos. Que chibatam os meus próprios dedos. Que tentam me matar para me fazer viver. Que estão sempre comigo, o impossível.
Suas cabeças caem ao cair da noite e dos pescoços vazios surgem sopros de vento que formam novas cabeças que florescem sobre novas mentiras que expelem novas verdades. As velhas verdades. As mesmas verdades. A verdade que caminha sobre a Terra...do Nunca.

Essa é a Terra do Nunca? Ruas escuras, semi-residenciais, com lâmpadas quebradas nos postes e alguns cachorros bebericando cerveja nas poças urbanas da desgraça. Um letreiro em néon piscando pela madrugada, dizendo O...EN ALL NIGHT. Algo que ninguém quer ver. Essa é a grande ciranda dos tempos. Futuro, passado, tudo brilha em luzes baratas de dizeres quebrados. O presente é uma rua sem saída. Uma parede descascada. Um emaranhado de luzes artificiais que rasgam os meus olhos frágeis enquanto observo o fantasma violeta do desafio me dizendo ESCREVA-ME. Fui devorado em meio aos doentes.
Um beijo com gosto de agonia. Ele é vermelho como a arte.
Preciso de cores nas minhas palavras, mas o cinza cru do profano me persegue como um cão raivoso que espuma no rastro da presa. Isso é tudo, admiro o sabor doce e a alegoria clichê de amor e dor, mas não quero experimentar mais do que possa agüentar.
mais uma vez
quimeras violentas
quimeras violetas
PURPLE HAZE.
Uma tempestade púrpura
no meio de um oceano de morte
e arte morta
dormindo em suas profundezas.
Algum dia
alguém irá retornar à superfície
com tesouros nas mãos
milagres nos olhos
palavras nos olhos
palavras nos olhos
com a visão dos maníacos e alucinados
que tocaram a morte púrpura em seu âmago
e beijaram a boca vermelha do impossível
e retornaram a superfície.

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