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O grande filho da puta

gosta de Pablo Picasso,
diz ser influenciado por ele.
pinta durante as tardes.
ou pelo menos diz que pinta durante as tardes.
também escreve algumas coisas
depois de ler algumas coisas
de Sartre e Shakespeare
e Pessoa e Dostoievski
e um pouco de Dante.
toca piano,
ou talvez trompete,
não me recordo muito bem.
passa as noites sozinho
em seu quarto iluminado,
escutando Dizzy e Charlie
e um pouco de Miles,
lá pelas nove, dez da noite.
também gosta de fazer a mesma coisa
acompanhado pelos amigos,
você sabe,
para que eles saibam
do seu gosto refinado:
Dizzy, Miles, blá, blá, blá.
mas não é um retardado,
pode ser visto pelas mesinhas sociais
no ápice das noites
de fim de semana,
com seu bom humor,
conversa suave,
e risadas bem entrosadas.
senta em círculos de conhecidos
e fala sobre pintura,
mostra algumas gravuras e retratos,
menciona Pollock
e cita os surrealistas de qualquer lugar que seja,
seja da França, seja dali.
depois muda o assunto para música;
fala que admira Coltrane.
gosta muito de falar sobre Coltrane
porque gosta do som do nome:
Coltrane.
dispara frases como
"o jazz mudou depois de Coltrane",
"o melhor saxofonista é sem sombra de dúvida Coltrane",
e por aí vai.
ri com gosto
e segura confiante o copo de cerveja
enquanto encaminha a conversa
para futebol
e sambistas da antiga,
só para posar de descolado
e não parecer pedante demais.
dá tapinhas nos ombros,
acena,
sorri,
gargalha,
empresta cds dos Mutantes,
Coltrane,
e pede a saideira.
alguém tem que dar um tiro nesse cara.
Senhoras e senhores, assistam nosso glorioso espetáculo. Flutuando sobre um palco de esquinas, mesinhas, garotas e risadas, o grande filho da puta demarca o seu domínio. Ele pode ser visto coçando suas sarnas enquanto conversa e sorri e olha diretamente nos olhos dos deslumbrados. Senhoras e senhores, apaixonem-se, desesperem-se e aplaudam: o grande filho da puta.