os dias difíceis de um cara com um manuscrito nas mãos e um futuro literário escondido em qualquer esquina de merda do labirinto

os dias difíceis de um cara com um manuscrito nas mãos e um futuro literário escondido em qualquer esquina dessa merda de labirinto!

 

Mas não existe nada pior do que perambular por aí com as pernas doendo e nenhum lugar pra ir. Você procura pelos dias que ficaram perdidos no seu passado e pelos dias que estão perdidos no futuro e se descobre PERDIDO NO DIA DE HOJE! Eu tenho um manuscrito debaixo do braço. Você diz. Vai ser um best-seller. Você diz. Melhor do que isso, não vai vender porra nenhuma e se tornar uma obra prima. Você diz. & o cara te olha com o par de olhos amarelos, repletos de remela e marasmo, e ele está cagando pra tudo o que você diz. Está cagando para o fato de você estar perdido, está cagando pro seu futuro, está cagando pro seu best-seller e está cagando pra sua obra-prima. Como se o fato de não vender porra nenhuma o tornasse alguma espécie de gênio, ou imortal, sei lá. Grande piada. Então estamos cheios de gênios passeando por aí. Gênios pelas esquinas, gênios dentro dos puteiros e bueiros, gênios consertando o encanamento, gênios pedindo trocados, gênios tocando bronha, gênios esperando o ônibus, gênios chafurdados nas poltronas de frente para a TV, gênios se matando e gênios nascendo. AH! Grande Merda! Mas você olha pro cara, com o seu olhar especial pra esse tipo de situação, o seu olhar de gênio (o mesmo que usa quando toma um fora de uma gatinha) e vai embora com as costas transbordando genialidade. Fecha a porta e atravessa o corredor. Cumprimenta os desempregados, escorrega no assoalho, ajeita o cabelo e a gola, e parte pra a rua como se nada tivesse acontecido. O centro de comércio é homérico e irreal, mas o sol não se importa nem um pouco e castiga o teu dia perdido. É preciso ser meio assassino pra conseguir andar por esse labirinto de cimento sem levar uma trombada. E você se pergunta por que é sempre você que tem que se desviar dos transeuntes que caminham na direção oposta? Resolve caminhar pelo meio, nem pela direita nem pela esquerda, só pra ver o que acontece. Bate de frente com uma velhota de cabelo roxo e vestido florido. Ela não vê o gênio nos seus olhos. Ninguém vê o gênio nos seus olhos. O que lhe dá o argumento do "gênio incompreendido" que você destila para si mesmo, só pra evitar a hipótese de não existir nenhum gênio nos seus olhos. Às vezes o óbvio é difícil de se vislumbrar, dependendo da ótica que você adote. Mas você atravessa as pessoas que povoam a decadência, sentindo-se um baita de um Shakespeare. Sem dar-se conta de que você também povoa a decadência. De que também É parte da decadência, exatamente como os imbecis, as toupeiras, os idiotas e os quadrados.  É estranho, mas nenhuma vidraça de butique reflete a sua imagem. E todos os retratos 3X4 queimam, como se nunca tivessem existido. O Universo é cego e insano. Rodopia como um pião, esperando por alguma força cósmica que o faça parar. O universo não sabe o que faz. Ou talvez seja você que não sabe o que quer. Será possível que tudo o que você diga e pense seja apenas uma outra forma de fazer birra? Se for, meu chapa, então os pirralhos da creche em frente a minha casa são os maiores gênios que já pisaram sobre a terra! Limpe a bunda com essas folhas de merda! O cara grita no teu ouvido quando você atravessa a rua no sinal verde, criando uma confusão dos diabos no trânsito do meio-dia. E tudo o que você consegue pensar é no tempo que vai levar para chegar até a outra calçada. A cidade é viva e escorregadia, como uma lesma que se contorce e arrota, se livrando dos parasitas colados nas suas costas. O CLIC do semáforo te faz disparar para o outro lado, e os caras no interior dos carros urram e babam e lançam relâmpagos de ódio por seus olhos cibernéticos. Você por muito pouco não tropeça no meio-fio. Poderia ter arrebentado a cabeça e morrido no meio da rua, no meio do dia, ao meio-dia, num dia perdido, dum presente perdido, duma vida falida, de esperanças vazias.

Podia ter sido melhor assim. Acabado como um cidadão respeitável de início de século, com o crânio arrebentado no meio-fio e um milhão de curiosos te olhando, enquanto os seus membros enrijecem e o rabecão não chega. Mas não. Você preferiu continuar com a estúpida idéia de cruzar a tarde com os pés que Deus lhe deu (se é que lhe deu mesmo). Agora os postes são leões cinzentos e todas as curvas têm olhos próprios, como se o desafiassem com os seus destinos impostos, como se você fosse só mais um dos seus escravos. O que na verdade você é. Você olha pras folhas na sua mão, e sussurra um orgulho tímido, que só você mesmo pode escutar. Até o ar dessa droga de tarde parece envenenado! O céu está coberto por telhados de cimento. As nuvens tocam as antenas parabólicas, criando estática em milhares de residências familiares. Você tenta ignorar, mas o talento do progresso é muito maior do que o seu. E ele enxerga mais longe, isso é um fato inquestionável. Nessas horas, até mesmo o endereço de casa parece uma coisa impossível de se aceitar. E as placas das ruas, todas com nomes de cultuados escritores, riem da sua fuça de merda que você insiste em estender ao mundo. Na verdade, não há diferença nenhuma entre a vidraça arrebentada com uma pedra e a sua vida. Ambas são frágeis e detentoras de uma beleza estilhaçada. A VIDA É ESTILHAÇADA, E DESAPARECE QUANDO TOCADA PELOS DEDOS DA RAZÃO. O mundo plastificado lhe cobre com desejos. Todos prescritíveis. Todos notórios. Os manequins por detrás das vitrines transbordam a placenta de antigos deuses gregos, abortados no século vinte, e apodrecendo no século vinte e um. No século vinte e dois todos serão detritos e silicone. As cidades serão poças de civilização, boiando inertes no fundo de um poço de humanidade. E o firmamento será de cimento, assombrando os dias perdidos que flutuam por sobre nossas cabeças. E o firmamento será apenas um momento. William Burroughs matou a esposa com um tiro no meio da testa, enquanto tentava acertar um copo d'água em cima da sua cabeça & você observa o copo d'água nas suas mãos, uma água amarela, posta à venda, que exibe movimentos lânguidos e ovas de mosquito, e tudo o que você consegue falar é QUANTO É? Quanto é por uma vida miserável? Quanto é pelos dias perdidos? Quanto é pela morte pútrida que o espera na portaria? Quanto é pelas mentiras e delírios de grandeza que empestam a sua imaginação vazia? Quanto é pela sua imaginação vazia? Quanto é por um final feliz, um par de aplausos e um beijo na mocinha? Quanto é por acabar acabado num quarto de pensão? Quanto é pelo copo d'água? Um e cinqüenta, obrigado e passar bem. A rua percorre um caminho que lhe persegue, e todos os povos passam disparados, como flashs. Você não pode ver a miséria. São todos gênios dentro de uma aquarela abstrata. Talvez o I CHING tenha mentido pra você, com todo aquele papo confuso de Confúcio e tudo o mais. Balela zen pra boi dormir. Talvez tudo seja uma desculpa esfarrapada. A vida seria bem melhor se fosse escrita ao invés de vivida. Mas infelizmente, você, assim como todos nós, insiste em viver a ficção ao invés de escrever a realidade. O gênio do centro da cidade. Das vitrines de shopping center. O gênio dos fins de festa. Tentando ser cool e não dar a mínima. Tentando parecer indiferente para si mesmo, escondendo os sorrisos e pairando nas bordas das felicidades, como uma estrela morta do rock'n roll.

Mas você não está morto, não é uma estrela, não foi mutilado pelo rock'n roll, e tem um manuscrito debaixo do braço, colado nas manchas de suor das axilas. Até mesmo a realidade, às vezes se mostra amarrotada. Você faz sinal pro ônibus, e espera que ele despenque de um penhasco ou coisa que o valha. Mas não existem penhascos pelos recantos que você transita, só estúpidas cançõezinhas de amor, tocadas por tecladistas de churrascaria, de quinta categoria (os tecladistas, não a churrascaria). Grande piada. Tudo é uma grande piada e você simplesmente não consegue mais rir. Sente vontade de chorar todas as vezes em que alguém lhe conta uma piada. As faces esperam pelo ponto final, com os semblantes carregados de vazio, que não fazem nada além de aguardar a escuridão e a escassez. Você é um deles, apesar de se recusar a acreditar nisso. Você olha para o outro lado, aperta o ridículo manuscrito contra o peito, como se fosse algum tesouro ou as próprias palavras de Deus. Como se algum desses miseráveis estivesse interessado em roubar as palavras de Deus das suas mãos. O sujeito sentado ao seu lado pede licença pra saltar e esbarra na sua pilha de folhas, coisa que você encara como uma afronta. Mas não fala nada, apenas se desloca para a janela. Amanhã vai ser um outro dia e você vai estar eternizado numa posteridade embalsamada, enterrado num cemitério de obras primas, a sete palmos da genialidade, que é onde todos os gênios estão. E também todos os farsantes. Chafurdados em celebridade. Como você e eu. E como a maioria dos caras que perambulam por aí com as suas palavras na ponta da língua e os seus medos enterrados no cu. Mas nada disso importa, pois a tarde consegue ser mais eterna do que a própria eternidade. Você olha pela janela, pensando na próxima merda que vai escrever. Se preocupa com o cacho de bananas que comprou no mês passado e que agora apodrece abaixo de uma nuvem de mosquitos, sobre uma jarra de porcelana na cozinha. E percebe que a sua própria vida é esse cacho de bananas: doce, e sendo devorada pelos mosquitos.

O ônibus pára e você salta. A genialidade trêmula pela qual você anseia parece se esvair com o cair do entardecer, e tudo em que você pensa é no maldito cacho de bananas à mercê dos mosquitos. Você olha ao redor e percebe que o mundo inteiro, a cidade inteira e o bairro inteiro estão infestados com a grandiosa febre alaranjada que colore as duas horas da tarde

e observa o ônibus indo embora, sumindo como num passe de mágica, da mesma forma em que surgiu, dentre rugidos motorizados e ecos de pobreza. Uma balsa embalsamada que leva embora a pureza, para além de toda a nobreza, para o Reino da Incerteza. Um pesadelo em quatro rodas que desaparece no horizonte cor-de-abóbora, engolido por uma nuvem cinzenta de delírios metropolitanos. E você se dá conta de que o manuscrito ficou lá dentro.

A GRANDE PIADA.

UMA TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS.

Dedicada a Torquato Neto

que veio a mim sobre uma tábua de Ouija

nos fundos de uma madrugada

perdida

entre as madrugadas.