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VOCÊ NÃO TEM MEDO DE ERRAR?

Quando eu conheci aquele cara, essa foi a primeira pergunta que ele me fez: você não tem medo de errar? Tinha me segurado num mal momento, o filho da puta, porque eu estava atrasado pro meu encontro e o metrô chegaria a qualquer minuto. Olhei pra cara dele e falei que não, nunca tinha medo de errar. Ele não parecia acreditar nas minhas palavras e ficou ali me observando por alguns segundos, antes que perguntasse de novo, “você não tem medo de errar?”, como uma perfeita cegonha que berra na droga da sua janela. Claro que a minha resposta foi exatamente a mesma. Nunca tive nada que sequer chegasse perto do medo de errar.
Então o metrô chegou. Abandonei o imbecil ali mesmo, sem me preocupar em me despedir ou qualquer coisa assim. Entrei no vagão e me ajeitei dentre as cadeiras. Ainda me restavam alguns minutos antes do meu encontro, e poderia gastá-los como bem entendesse, no entanto, era na pergunta que eu pensava.
Você não tem medo de errar? Sim, eu tinha medo de errar. A cada instante da minha vida, tudo o que eu tinha era medo de errar.
Quando me levantava da cadeira na fila dos desempregados ao som de uma voz feminina e impessoal que gritava PRÓXIMO!, um próximo que era eu, eu tinha medo de errar. Me cagava todo ao pensar que poderia errar. Nas horas em que caminhava pelas esquinas do meu bairro, meio embriagado e meio apaixonado, dobrando cada uma delas, sem enxergar o pessoal que se acumulava como veias pelo solo, só o que eu tinha era o medo mortal de errar. De errar com tudo e com todos. Até mesmo naquelas horas da madrugada em que estou sentado na privada, cagando e lendo poesia, quando sinto as fezes mergulharem na água, respingando o esgoto na minha bunda, tenho medo de errar assim que abro a porta e dou a descarga e encontro o corredor escuro completamente vazio.
O cara sentado ao meu lado pediu licença para se levantar, já que a sua
estação estava se aproximando. Quanto a mim, a única estação que conhecia era a
do inferno. 
Fiquei na cadeira pensando na pergunta do salafrário.
Começava a suar como um porco, do jeito que suo quando estou petrificado. O metrô tornou a andar e logo me vi perdido na escuridão vazia que existe entre as estações. Fiquei ali, sem olhar para os lados, pensando no que aconteceria se o cara que dirigia a droga do metrô também tivesse medo de errar. Todos nós estaríamos mortos. E se Deus tivesse medo de errar? Não haveria mundo. Não haveria nada. Não haveria nem mesmo Deus. Mas eu tinha medo de errar, ao contrário deles, eu tinha medo de errar.
Naqueles tempos eu me achava um escritor e vinha trabalhando na minha mais nova novela, uma historiazinha de cinqüenta páginas sobre um sujeito que atira em porcos numa fazenda no meio do deserto. Ainda não tinha escrito o final, estava na página quarenta e três, e não sabia como terminar a droga da história. Ela estava na minha cabeça, mas simplesmente não sabia como escrever um final. O cara continuaria atirando nos porcos ou os sujeitos do imposto de renda tomariam a sua fazenda, colocando o homem no olho da rua? Terminaria ele com uma bela dona de cabelos castanhos ou simplesmente...ou simplesmente continuaria atirando em porcos? Bem, eu não sabia. Eu tinha medo de errar. Cada palavra que escrevia continha em sua essência o medo de errar, de acabar com a coisa toda.
A voz no eletrônica nos informava que estávamos nos aproximando de mais uma estação. Eu continuei pensando a respeito da minha história, porque eu me achava um escritor. Então entrou essa dona, uma velha gorda de cabelos platinados carregando sacolas de roupas. Sentou bem do meu lado, com o seu aroma de anjos de plástico, dos que se compra nas lojas de atacado. Olhei pra ela por um segundo e percebi que ela também me olhava.
_ Um calor dos diabos que anda fazendo._ eu disse.
A dona me olhou bem no fundo dos olhos e começou a arfar como uma vaca gorda. Os seus brincos balançavam nas orelhas, pois eram enormes brincos de plástico que brilhavam com as luzes. Estendeu um dedo gordo. Eu não sabia muito bem o que esperar de uma velha como aquela, que parecia querer me matar, me assassinar bem no meio do vagão.
_ Não venha puxando assunto. Conheço a sua laia, seu tarado. _ ela disse.
Pensei em me levantar e saltar na próxima estação, mas iria parecer culpado, suspeito demais, e os caras na certa me pegariam assim que começasse a subir as escadarias. Então apenas continuei olhando para ela, como se não estivesse entendendo bulhufas.
O dedo da velha estava apontado para o meu rosto, quase tocando a ponta do meu nariz, e notei uma aliança enferrujada agonizando o seu brilho no dedo gordo da mulher. Ela estava disposta a me matar, ou foder comigo no chão do metrô enquanto todo mundo olhava e se masturbava, o que viesse primeiro.
Novamente escutei a voz do maquinista nos dizendo que mais uma estação se aproximava. Não havia muito tempo a perder. Levantei do meu assento e saí fora daquele maldito metrô, o que deixou a dona fula da vida. Olhei pra trás e vi o seu rosto flácido colado no vidro, lambendo as janelas como alguma criatura grotesca que usa maquiagem e fede a anjos de plástico. Me dizia alguma coisa que não conseguia distinguir, pois o metrô se distanciava, sumindo dentro do túnel negro da cidade submersa.
Esse foi um dia realmente estranho, com a mulher lambendo as vidraças e o sujeito me perguntando se eu não tinha medo de errar e tudo o mais. Muito estranho mesmo. Somente o calor fazia frente aos pesadelos.
Subi pela escada rolante e lá estava ela me esperando, no calçadão. O vestido florido revoava com a ventania e ela abria os braços para me receber. Um cara sentado no chão tocava um jazz super improvisado num velho saxofone, esperando, naturalmente, por alguns trocados. Beijei-a na boca e fomos embora dali.