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CUT UPS OF LIFE

Se você abrir os olhos lentamente poderá ser mais feliz. FELICIDADE transborda da cidade morta. Fique longe das ruas que são iluminadas por imundas lâmpadas vermelhas.
Eles gritam como macacos.
Saltam como grilos na fogueira.
Garotas de calendário.
Pranto.
Risos. Prédios e risos. E riscos sobre o concreto. Disso somos feitos. Você, quero dizer. Não me incluo no lusco-fusco que fecha os dias que antecedem o final de semana.
SEXO
revistinhas de sacanagem.
Trocados nas mãos dos miseráveis.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Cachorros mancos. Latindo para os carros que cruzam a avenida.
Um chapéu voa com o vento, todos olham para ele, revirando pela brisa uivante, ululante, por toda a tarde. Um deles está morto. O outro tem os olhos vermelhos e a cabeça descascada que brilha como uma lua.
AND WILL MAKE YOU HAPPY.
Abra os seus olhos. Acordei mais cedo essa manhã. Abra os seus olhos. Não posso escutar a minha própria voz quando os carros buzinam. Abra os seus olhos. Mais um filme em cartaz. Super-produção. Não vale um centavo. Ainda assim, todos os meus amigos foram assistir. Gostaram. Fiquei em casa. Abra os seus olhos.
É UM ABSURDO, MAS ELE ESTÁ MORTO. TRÊS TIROS NO PEITO.
INTERVALO PARA OS COMERCIAIS E PATROCINADORES.
da violência
da violência
da violência
Será que amanhã ela irá ler os meus versos? Portas de shopping center que se abrem para um mundo fantasma. Elas são ecos e segredos.
DESVELADO EM ALTO-MAR
num dia de sol
campeonato de windsurf.
regatas.
A loira pisca os olhos por detrás dos cílios doirados. Seu olhar é metálico. Vitrines com roupas caríssimas das melhores grifes. Passo devagar, olhando para o outro lado. Alguém morreu e grita, afogado pela multidão. Carcaças de carros.
AND WILL MAKE YOU HAPPY.
HAPPY NOW.

E daí?
Ele acorda com um gosto rançoso na língua.
Prédios imperiais destroçados por ataques terroristas.
Sua bunda está à mostra.
Um filme pornô com as cenas cortadas, nas altas horas da madrugada.
Coça as partes íntimas e sente a tremedeira morna por dentro das calças.
Slogan em néon cercando a estrada.
Abre a janela abre os olhos abre a vida para a morte abre o mundo à sua volta abre a porta e parte para nunca mais voltar.
Borracheiro, padaria, paradas, gatos velhos, farmácia, prostituta, garotos sem futuro, confecção de moda íntima, supermercado, agência de modelos, auto-escola, boutique, novela, igreja, cinema, bares e botecos, televisores ligados, fábrica de vinhos, velhas ressequidas, o vento, o vento, o vento, kurt cobain dez anos depois nas capas das revistas, 37 anos, livros sobre o concreto, 1994, sinais de trânsito, 2004, minha deusa passando, bonés, brechó, praça pública, escola antiga, antigos pensamentos odeiam a si mesmos, locadora, outdoors, cortina cor-de-rosa, e a estrada continua, os sorrisos se acumulam pelo lado de fora da janela.
"Planejemos um assassinato!", alguém grita no rádio.
um dia ele foi jovem.
melhor estar morto do que velho.
Velho por dentro.
POIS QUANDO OS ANOS PASSAM, NOSSA FORÇA MATRIZ RESSECA E DEFINHA
devorando as idéias e os pensamentos e os anseios.
Somos minhocas vazias.
Secas.
Sob o sol do meio-dia.
Ela é linda por si só.
Uma canção de amor.
E tem as minhas palavras
brotando dos seus olhos
com as lágrimas azuis.
AND WILL MAKE YOU HAPPY.
a terra úmida entre os dedos
quebrou a vidraça
maçãs podres, o sopro do gigante produz um facho cósmico em direção ao céu de papel.
Viro a página e procuro pelos classificados, ainda pensando nela.
Será? Será? Será?
Talvez.
Os conceitos são despejados pelo quadro negro e escorrem ao chão,
minha mente está clara,
inocente.
Frio nos banheiros.
Todos desertos.
Alguém poderia estar morto que tudo permaneceria inerte. Silencioso. Luminoso. Como o gemido de um fantasma. Espelhos.
Os piratas cruzam os mares, vendem CDs falsificados e correm quando a polícia chega.

Muita gente desempregada.
Grande piada.
FODA-SE a verdade.
HAPPY NOW
HAPPY NOW
Planos funerários que nos dão direito
a duas cremações.
MORRA E LEVE UM ACOMPANHANTE.
É o que dizem as vozes cibernéticas da publicidade.
Olho para as suas pernas caminhando pela calçada enquanto os seus cabelos cortam a tristeza em gumes de madrugadas. Ela é a deusa da neve. O oráculo que desperta pelos becos. A garota das manhãs.
Um cara de rosto vermelho deitado na cama. As rachaduras tornam-se caminhos molhados.
Acordou com um gosto rançoso na língua.
Um novo recorde no fliperama. Um novo rei no fliperama. Passamos pelos portões às nove horas da noite e podemos escutar o tilintar eletrônico das máquinas que vibram em uníssono. Estamos a caminho de uma festa, mas vamos a pé.
Sacuda o seu leite em pó na caneca. Você está sozinho essa noite. Seus olhos se perdem no café. Sacuda o seu leite em pó.
Talvez mais tarde possa ir à padaria
do outro lado da rua,
uns cem metros de distância,
apenas um pretexto.
Rostos monstruosos arranham o vidro. Com suas línguas ásperas e os poros abertos, sanguinolentos. O sinal vermelho. O dinheiro rolando.
Vamos lá, vamos andar até o alto da montanha nessa manhã de sol. Esquecer do dia de amanhã. Escutem os ecos. Eles não falam, apenas existem. Amanhã é domingo.
Séculos
da violência
da violência
da violência
É o slogan.
Meu reflexo.
Cheguei em casa
OS OLHOS SÃO PEQUENAS ESTRELAS COLORIDAS
FOTOGRAFIAS EM MOVIMENTO
ELES SE MOVEM E FALAM SOBRE O PRESENTE, A NOITE, A NOITE ACORDADA E LUMINOSA, AND WILL MAKE YOU HAPPY,
E OS CARROS PRATEADOS REFLETINDO A ESCURIDÃO, TUDO É BELO
TODOS OS REFLEXOS REPETINDO A REALIDADE NAS VITRINES
O CHÃO PISOTEADO
PELOS SAPATOS
PESSOAS POR TODOS OS LADOS
TUDO POR AQUI
SE MOVE E VIVE,
ENCLAUSURADOS NUMA COVA URBANA
PORTÕES CELESTIAIS
GAROTAS
ESQUINAS LOTADAS.
e botei o despertador para tocar as sete e meia da manhã,
mas não sei se vou conseguir acordar.