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Contágio
"A linguagem é um vírus."
_ Bill, Bull, Burroughs _
O vírus é a cura. O vazio é o parasita. Os corpos ocos estão infectos. O vírus é a palavra. O vírus quando introduzido no organismo desinfeta o hospedeiro. O vazio é eliminado. Palavras escritas fluem pelas veias como essência de vida. Aqui estão algumas.
Naked Lunch
William Burroughs

Este é o desmascaramento da cidade. As coisinhas ínfimas, que não são vistas se arrastando nas esquinas, mas por detrás dos óculos poluídos. O entorpecimento enfumaçado do ópio metropolitano e o ruir dos cidadãos... sãos. Nada é ficção, tampouco realidade. Uma lívida Paranóia flutua no ar nestes dias. Todas as coisas são ramificações de seus tentáculos. Quem são os detetives e quem são os ratos?
Quem são os ratos &
quem é a comida?
Como saber... o que eliminar?????????
On The Road
Jack Kerouac

A grande serpente segue engolindo o horizonte diante de nossos olhos. Um livro de viagens. Um livro de chegadas. Ode Ao Destino. A derrocada do Tempo. Vitória Juvenil. Este é o jazz em palavras. Estas são as palavras ritmadas. A sinceridade do pensamento. Fluidez. Frases como rios. Kerouac é a nascente orválica no auge da montanha, desembocando em um mar revolto. Bop é o seu mantra. Seu manto é o asfalto. Os mocassins gastos já viram tudo. Seus olhos mostram a alucinação e a sabedoria do homem após o trem fantasma. Capítulos em forma de cidades. Fantasmas pelos becos desérticos. Cowboys e beatniks pairando nos postos de gasolina. Bares testemunhando a estrada. O livro todo diz uma coisa: a imortalidade está no caminho em movimento.
Nós somos o caminho em movimento. Odisséia.
Tudo está seguro
& nada se conforma. Quando há Shangrillá por todos os lados.
Assim Falou Zaratustra
Nietzche

Como ele disse, um livro para todos e para ninguém. Um livro para os perdidos. E existem achados na perdição. A fé dentro da extinção de todas as crenças. A porta do céu através dos portões do inferno. O Intenso é vívido. Simétrico & irregular. O Deus morre se não souber dançar. A imagem e a sua semelhança são a mesma coisa. Esqueçamos "o que é?" e pensemos em "como ser?". Um livro para todos e para ninguém. Um livro para tudo. O buraco que dá no fundo do abismo. Reflexo. Zaratustra fala para ninguém. Tão sozinho encontra a si mesmo. O tolo da montanha. Os animais são seus ouvintes. A tempestade seu juiz. Perca-me. Assim falou Zaratustra. Perca-me. Acha-te. Como? Como? Como? Perguntas não trazem respostas. Elas são desvios. O olho desfocalizado. Palavras testamentárias na boca de um solitário. Zaratustra foi embora. E nós ficamos. E nós somos Zaratustra. Assim falamos.
O Apanhador No Campo de Centeio
J.D. Salinger

O diário da juventude. As palavras por elas mesmas. A violência de se estar perdido. Pressão. Lennon morto e sob o seu corpo um revólver e uma edição. Os dias preenchidos por incompreensão, documentados para posteridade. Todas as escolas no caminho, como obstáculos, arautos da ignorância, esfinges envelhecidas de olhares velhacos. Inúmeros adolescentes distantes um do outro. São pilares trêmulos desmoronados por dogmas pré-fabricados. Eis aí um livro para todos os moleques...discípulos da recuperação. Todos aqueles que não sentam na frente. Todos aqueles de palavras erradas e vozes quietas. Todos aqueles não-estudados em uma semana de provas. Aqueles perdidos em um longínquo campo amarelado, revoando com o vento vespertino. Sua mãe é uma voz distante. & sua própria voz, é sempre imaginária. Longas conversas monologantes dentro de sua cabeça imaginativa. Cabeça crucificada por esfinges inquisidoras.
Demian
Hermann Hesse
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O fruto da maldição expele o néctar da benção. Todos os iluminados são escuros. Demian na caverna, vê a luz de Platão. O presente de Caim na sua testa e cabelos sussurrantes. Este é o livro dos cainitas. Suas páginas desoladas, folheadas uma à uma, somente por aqueles que não têm medo de baterem às portas de um inferno dantesco. Somente por aqueles que ousarem brindar com suas taças cristalinas e sorverem nectarina maldita num só gole. Demian é um livro para aqueles que têm Demian tatuado na testa. Que mantém longas e longas conversas com as suas longínquas sombras. Aqueles que tornam-se sombras no seio das tardes de verão. Imagens petrificadas de contemplação. Demiurgos escondidos no nanquim Hesseano. Dementes demoníacos e Demian nas cabeceiras.
Os amaldiçoados irão brilhar como estrelas da manhã. Um livro para todos os cainitas e todos os cainitas lá estão.
Uma Temporada no Inferno e Iluminações
Arthur Rimbaud

O adolescente do simbolismo traça seu imaginário, chafurdado num mar de absinto francês. Sua voz tem o timbre das imagens. E elas, abstratas como um espelho quebrado, não são feitas para serem lidas, e sim percebidas. Linguagem percorrendo labirintos oníricos que jamais acordam. Olhos eternamente fechados para o mundo. Flashs poéticos em pensamentos alucinados de infância. Fotografias ressonantes. O deserto nas costas do poeta, o acompanhando aonde quer que vá. O garoto descobre que para se viver no deserto terá que se tornar o seu senhor absoluto. Aqui deitarei o meu reinado e aqui tombarei o meu jazigo. Eterna temporada num deserto infernal. Beleza gramatical. Aventuras clamando poemas em dias futuros. Incerteza. Ele deita o simbolismo e dorme o sono testemunhado por todas as eras.
The Lords and the new Creatures
James Douglas Morrison

O herdeiro dos tormentos grita rock'n roll e declama segredos para ouvidos atentos. Édipo Rei. A criatura que deita do outro lado das portas, reside com uma horda de Pãs ao seu redor. Rituais divinatórios para o seu bel prazer. Eterna zombaria de Morte/Vida. Olhares cinematográficos congelando momentos. Transpiração lisérgica. A Jornada. A persona do Herói. Do Monstro. Deglutido pelas Bacantes num altar outonal. Após percorrer o caminho mítico da Tragédia. O show. A música & o grito. O lúgubre uivo gutural cercado de escuridão. O descampado da dor. Morrison, um filho da guerra que correu por seus jardins e pulou as suas cercas, caindo no terreno inóspito (hostil) da música. Tapetes peçonhentos ao chão. Falava caótico em palavras esparsas. E cada uma delas detém o poder das alucinações. O poder único e insubstituível. O poder sagrado da jornada.
Obras Completas
Edgar Allan Poe

O corvo é a voz da perda. Toda a sua lentidão perpétua é sentida em cada parágrafo. Nevermore ecoado nos corações humanos. A imagem do ontem. Sempre aqui. Nunca aqui. As boas lembranças tornam-se fantasmas pantomímicos nos recantos da cabeça do ancião. Gatos pretos percorrendo os corredores, a prova viva da reprovação. O mundo nunca é o mesmo um dia depois. Os dias nunca retornam. Como nunca vão embora. NEVERMORE. My sweet Lenore. NEVERMORE. Jaz fria em uma sala fria de uma noite gélida. O sangue quente do ancião treme diante dos calafrios iminentes. A voz da perda paira nos ares do esquecimento. Gralhando como um pássaro moribundo e maligno. Negrume absoluto em tudo o que acreditamos. Em tudo o que esperamos. Negrume absoluto em apenas uma palavra: nevermore.
Saco de Ossos
Stephen King

O pesadelo do artista. Os demônios da criação. O horror da imaginação. O artista e a arte fundindo-se em caos. O que é criação e o que é paranóia? A imaginação é uma criatura selvagem. Ela grita ao artista, incontrolável. Ele não sabe até onde vai o seu limite. Não sabe até quando irá agüentar. Ilusão de ótica. Máquinas de escrever & imãs de geladeira. Revelações onde quer que vá. Cidades erguidas em terras inexistentes. Destruídas num piscar de olhos. WELCOME TO CASTLE ROCK, MAINE. O que você vê é o que você quer ver. & é você. Um átimo de eternidade. Talvez aí esteja o segredo de Deus. Um segundo para se moldar o infinito. Fantasmas no recinto do artista. Relação simbiótica. Símbolos em seus parágrafos. Revistas em quadrinhos anunciando um novo tempo. O saco de ossos que sorri para o futuro.
Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley

Ficção Dark. Sinistra profecia do desperdício. Futuros descartáveis. Nosso mundo é uma nefasta ficção. Científica por natureza. Zumbis fabricados em laboratórios. Tudo o que existe é oco e opaco. Anomalias da natureza humana. Criação da não-criação. Este é o nosso Admirável Mundo Novo. Nós. Sorridentes o tempo todo. Aranhas por cima de arranha-céus. Teias cercando o cotidiano. Veneno sob as janelas. Destruídos no âmago. O mundo erguido sobre um assassinato. Este é o outro lado da moeda. A coroa, quando a cara era a escolha. Sem escolhas. MADE IN HONG KONG nas costas das nações. PRODUZIDO NA ZONA FRANCA DE MANAUS nas costas de cada cidadão. De cada suspiro entorpecido. Esquinas reluzindo vácuo. Progresso ruindo mentes pós-nascidas. Ruídos de desgraça otimista. Escadas à lugar nenhum.
Flores Do Mal
Charles Baudelaire

O doce aroma do verão. A brisa corrupta da podridão. Bastilha gritando de dor. O Rei Sol colecionando cabeças humanas e sorrisos melados. Poucos corredores de alívio à se vislumbrar. Tempos simbólicos. Embriaguez afirmada. Tempos utópicos. Utopia escrita? Pesadelos imponentes. Dedilhares impotentes. Falsidade em quilômetros e mais quilômetros de Edens. Eu sou a lama do Éden. O barro calcificado. A voz em pessoa. Eu sou o NÃO escarrado na sua cara. Bocas em formatos redondos expressando constrangimento. Eu lhe agrado? Provavelmente não. NÃO. NÃO. Não é? Eu sou. Timbres firulados tentam o esconder. Punhados de dinheiros como falsa esperança. Significância impossibilitada. Tempos utópicos pós-enciclopédicos. O pessimismo romântico lhe revira as vontades. Tudo será diferente.
O Casamento do CéU e do inferno
William Blake

Vidência é fogo. Como tudo o mais. Escondido. À ser percebido. Percepção. A chave do mundo. O mundo não é o que conhecemos. Resquícios de mentiras. Relíquias passageiras. Religiosidade esquecida. O que podemos ver prossegue infinitamente. Nada acaba quando queremos. A palavra. O segredo. O ópio de Deus é vento. Tudo como resultado do acasalamento. Procriação. Pró-criação. Anjos entoados. Os viveiros dos homens seguem caminhos misteriosos e simplórios. A simplicidade de existir nos é complexa. Poeta e vidente próximo da insanidade exuberando filetes escorregadios de verdades. Profetizando a poesia. Uma única conversa com o intangível lhe durará por mil anos e você durará por mais mil. A percepção. Nada mais do que a genitália de Deus.
Notas Do subterrâneo
Dostoievski

O doce inconformismo nos arredores da velha Rússia e seus esgotos. Eu não sou o Czar! Eu sou um rato molhado! Entocado em sua fúnebre oca. Olhando com olhos de antiguidade, o mundo jorrar. Poros obstruídos. Testemunhando a natureza humana, em que as pessoas são receptáculos de remorso. Fyodor sussurrado nas esquinas. A voz que ninguém quer ouvir. Fyodor. A imagem que ninguém quer ver. O puro espelho. Assustador e obscuro. Receptáculo de remorso. Receptáculo de pessoas. Os casebres de madeiras formam curvas nos seus dias. Eles são letras nas palavras. Madeira podre na velha Rússia. Cheiro de velas. Espetáculo fúnebre deslizando sobre os bairros. Pompa de nobreza. Czar. Tempo para observar. Tempo para falar.
Édipo Rei
Sofocles

As ruínas da Grécia descansam nas ruínas de um homem. Ele é o homem da civilização. O amaldiçoado e o rei. O filho e o pai. Ele perdeu seu espírito santo. Um homem arruinado. Destino emaranhado na cintura. Fatalidade horizontal. O grito dos deuses. O pop em toda a sua ira. Ironia. Nem mesmo todas as eternidades do mundo poderão apagar o seu dia ruim. Órbitas vazias execrando sangue onde antes jaziam os seus olhos. Jazigos de vidro. Jazidas de vida. Olhares que só enxergaram a mentira do tempo. Prole de si mesmo. Diabretes em uma hora qualquer. Édipo foi acorrentado em seu próprio sucesso. Aprisionado em esperanças. O filho bastardo. O filho dos deuses.
Hamlet
Shakespeare

O Homem feito em palavras. Hamlet é o barro. O Homem eterno. Uma alma aprisionada em carne. E parentesco. Hamlet é cada ser pulsante que caminha sobre tudo o que é vivo. Hamlet corre nas águas montanhesas de todas as nascentes. E no fedor esgotal dos resquícios chuvosos de uma grande metrópole. Hamlet é a metrópole. O único livro que é uma pura e plena compreensão do ser humano e de todos os seres humanos e todos que pretendem vir a ser. Ó Shakespeare! O mundo foi moldado à sua imagem e semelhança! Em uma infinidade de afirmações, uma pode ser declamada com certeza: Eu sou Hamlet. Uma peça teatral executada pela vida continuamente, circularmente. Os dias são os seus atos. "Ser ou não ser?" pulsando em cada coração irracional.
David Copperfield
Charles Dickens
O fracasso derrotado. Ressurreição nos campos humanos. Liberdade elevada ao céu matutino. A paixão sorvida. História de um amigo. Ignorando pompas londrinas. Só os jovens podem conseguir alguma coisa. Somente eles crescem. A grande escapada do desperdício. A grande escapada de seus enormes tentáculos pegajosos. O homem pode voar algumas vezes. Escrevendo histórias na sua história. Criador e criatura se encontrando em uma só vida. O mundo é um local de brincadeiras à ser conquistado.
A Metamorfose
Kafka

Como poderemos lidar com nossa estranheza onipresente? Como poderão lidar com nossa estranheza onipresente? Nós somos muito mais do que pensamos ser. Diferentes. Viver é diferente de todas as outras coisas. Fatos patológicos. Dadaísmo à mesa de jantar. Camisas-de-força. Gaiolas de um quarto escuro. O sangue preto que jorra das veias esquecidas desemboca no fundo dos ralos enferrujados da vizinhança. Kafka. Feitos de coliformes fecais e embriões de pensamentos. Substâncias entorpecentes, proibidas pela lei. Dos homens. O buraco negro na família. O psicopata na prisão. O tio solteiro. O babuíno babante no porão. Mamães varrem a sujeira infantil para debaixo do tapete. Encontros acarpetados
O Senhor Dos Anéis
Tolkien

A face do herói mostra-se imperfeita. Ele é sempre pequeno e fraco. Caso contrário não seria herói. Um anel para à todos governar. Confronto solitário e inadiável. Solidão. Pesadelo. Luz. Gargalhadas loucas revirando as suas crenças. Tudo o que sempre fora escondido. Os caminhos da mente são feitos de caos. E medo. Todos tem a sua jóia à ser destruída. Alguns são destruídos no caminho. Alguns tornam-se deuses de si mesmo. A Terra das Trevas é necessária ao amanhecer. Noite absoluta. Absinto. A jornada de Tolkien é inacabada e maleável, sempre um caminho disforme no caminho. E sempre será um caminho vazio, com viajantes esparsos e dúvidas no ar.
Eu
Augusto Dos Anjos

Todas as esquinas tremem em estranhos calafrios quando suas ruas são tomadas pela tosse pigarrenta das bordas do intelecto. Suas sombras adoecidas morrem definhando hora após hora. O poeta está louco. E mundano. Imundo mundano. Mundo. Augusto chacinado pelos anjos caídos da modernidade. Carregado para os círculos profundos. Tudo está decaído por aqui. Tudo é sujo. Morrendo. O último suspiro precisa dizer alguma coisa importante. Caso contrário morrerá. Mortos pelas esquinas mortas. Sujos em lençóis peçonhentos. Declamando o nada. Eu sou impuro e declamo sujeira adoentada. Declamando você.
Ulisses
James Joyce

Blooms rodopiantes em universos efêmeros. Bailarinando vintes e quatros horas, como círculos quebrados. Odisséia corriqueira. Corredores colegiais. Velhos conhecidos, mortos pela manhã. Bloomland. óculos partidos. corações. tumultuosos pensamentos corroendo condicionacérebros. (se eu sobreviver a estas vinte e quatro horas) (o mundo vai acabar) Algumas vezes nós somos esquecidos pelo caminho. Atalhos joyceantes trazendo ilhas úmidas à estas terras. Eu tenho o meu roteiro do dia. Ratoeira. As palavras fervilhantes tomam a sua própria forma quando não estamos vigiando-as. Maléfica vigília. Virgílios. Ele é o esquartejador do calendário. Germes pronunciando linguagens. Todo dia é uma sinfonia à Ulisses. Todo dia. Possui Blooms em seus recantos.
O Retrato De Dorian Gray
Oscar Wilde

Um verdadeiro retrato de nossos reflexos. Futilidade pactuante. Eu quero permanecer bonito na minha desgraça. Como um cisne morrendo. Em um lago de sangue. Vaidade refletida em olhos oceânicos. Um mar vazio. E seco. Línguas ásperas. Choramos lágrimas de festim e transbordamos fantasia. Um pequeno circo. Artistas maquiados. e aplausos. e aplausos. Guarde suas doenças nos confins de seu covil. Peles antigas de lagarto. Mentiras glamourosas. Assassinatos reluzentes. JACK THE RIPPER'S US. Tente achar a ti mesmo neste emaranhado de deturpações. Nada mais. Apenas purpurina e juventude. Restarão.
Alice No país das maravilhas
Lewis Carroll

Frescor das estações. Toda a existência sufocante perde seu sentido quando descobrimos o esconderijo da infância. E ela sempre se esconde debaixo de nosso nariz. De nossos gramados esverdeados. O sorriso de um gato invisível pintado desdenhoso no que conhecemos como céu. Não se importa com a nossa maturidade. Por que deveria? Não existe atraso debaixo dos seus olhos. Vamos! Vamos! Fala alguém que você não pode ver nem ouvir muito bem. A vitória de Alice. Lá estão todas as crianças perdidas. Deste e de outros tempos. Dormindo com unicórnios. Sozinhas. Recostado em um tronco oco de uma árvore, eu penso em existir. Talvez nas próximas férias. Talvez nos próximos anos. Ou nunca. O perigo do talvez nunca está com todos os adultos. E um sorriso de um gato invisível simplesmente não se importa.
Howl
Allen Ginsberg

Por que um homem triste deve se importar com a mácula de mentes juvenis? Os destroços de seus corações? Com uma geração em massa? Numa clínica maligna. Num topo de edifício. Numa nuvem poluída. Ele lamenta fracamente as lágrimas ausentes do seu colega de quarto. Por que ele não pula? Uma civilização lá embaixo grita em coro "PULE! PULE!" Palavras manuscritas caem como penas em suas cabeças ocas. O acento perfurado do ônibus que pegou naquela manhã, guarda seu melancólico recado, ALLEN ESTEVE AQUI. Todas as esquinas do século vinte guardam o seu melancólico recado. engrafitado. ALLEN ESTEVE AQUI. Num topo de uma antena parabólica ele funga um choro gripado. O corpo magro ameaça cair. PULE! PULE! Por que não? Ele está fraco e cansado. Mas não tão fraco, nem tão cansado.
Post Office
Charles Bukowski

O calor de verão. De uma mediocridade cosmopolita jazendo em classes médias e comas profundos e proletariados. Tudo é uma ficha a ser preenchida e o labor consome as suas peças como o verão consome todas as brisas. Nada é uma brisa. Próxima rua. Próxima casa. Uma, duas, três, quatro palmas, como se estivesse aplaudindo toda essa bosta. Ninguém. & é isso, até o fim dos tempos. Hank perambula por bairros e submundos e ratos dos bairros e raios que o partam se ele não faz o seu trabalho! A próxima esquina será melhor. A próxima garota e a próxima dose. As promessas que sempre fazemos a nós mesmos e nunca temos coragem de cumpri-las. Um apanhado de caras comuns, é isso que nós somos & tudo o que fazemos se resume em não sermos apanhados pelas teias do apanhado de caras comuns. & esse é Hank. Só mais um deles. Esse é o discurso do cara comum. Comum? ...
1984
George Orwell

Vigilância. Propaganda propagada pelos recantos luminosos da vizinhança, INCLUINDO o meu quarto. Despejam demagogia formatada nos slogans. No fundo, todos os hinos são slogans. Temos um enorme olho mágico adornando a nação. BIG BROTHER IS WATCHING YOU. & nós o assistimos a nos assistir. Prédios. Masmorras. Tumbas. Holofotes. Tecnologia. Mentiras & Sonhos. Tudo é fabricado e tudo segue o trajeto linear do horário comercial, e ponha nisso aí a PALAVRA DOS PATROCINADORES. Num futuro que já é passado, a violência será dublada e programada ao horário nobre. & nós teremos as nossas avós deglutindo cérebros crus em praça pública, enquanto nos masturbamos com imagens digitalizadas & 30 minutos adicionais. Big Brother Is Watching You. O Mágico de Oz. O malabarista. Rodopiando décadas embalsamadas em suas mãos. UMA ETERNA REPRISE PAIRANDO POR CANAIS ABERTOS.
SEXUS, PLEXUS, NEXUS
Henry Miller

Tá entendendo o que eu digo? O lance que você ainda não conseguiu ver é que não se trata de desgraça, se trata de abrir os olhos. Entendeu agora? ABRIR OS OLHOS! E, porra, ABRIR OS BRAÇOS! Sentir o vento! Cheirar as flores, as folhas e os odores das mulheres suadas, cobertas de frutas na feira! Você está aqui, não por muito tempo, mas você está aqui. E você vai estar aqui quando pensar que já não está mais aqui. É nisso que se resume a coisa toda: abrir os olhos e se enxergar aqui, e sempre aqui, e aqui, mesmo quando não conseguir enxergar nada mais do que ruínas ilusórias.
É isso.
Eu fodi essa mina.
E ela me fodeu depois.
E fiquei fodido.
E eu morri e eu
renasci e abri os meus olhos. Uma fênix que brota de um lodo de cimento,
consumindo tudo em cinzas e fogo e gritos de poesia. Aqui estou eu, Henry Miller.
Aqui estou eu, meu velho amigo Henry Miller, com os olhos e os poros abertos. E você está morto. Um eterno par de
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Um ESTRANHO NO NINHO
Ken Kesey

Tudo bem, você me convenceu que somos costas curvadas e colunas envergadas, mutiladas pelo labor, eu posso entender e posso ver isso. Mas não vou ser mais uma costa curvada debaixo do sol e dos horários de visitas. Não senhor, eu não colocarei mais "senhor" no final de cada frase que consiga criar. Não, vocês jamais comprarão a minha massa cinzenta em troca de uma costa curvada. Não. E sim, eu posso dizer não. KEN KESEY, é um NÃO nas caras da nação, da civilização, da destruição. Um simples não, redondo e simples e curto.
& esse não é um livro sobre um cara numa instituição, esse é um livro sobre uma instituição em volta de um cara. McMurphy, eu tenho uma ligeira impressão que eu já te conheci por aí... Seu rosto não me é estranho...
É...o seu rosto não me é estranho...
Você não me é estranho...
E por incrível que pareça, o seu NÃO também não me é estranho...
ESCUTA, ZÉ NINGUÉM!
Wilhelm Reich

Escuta, Zé Ninguém...você não me engana do modo que engana a si mesmo. "ENGANA-TE A TI MESMO". ESGANA-TE A TI MESMO". Você não é a parabólica que instalou, nem o microchip que construiu. Você não tem um arranha-céu como coroa. E por mais que tente disfarçar, eu acho que não preciso te dizer que a única coroa que você já fabricou é a de espinhos... Não, eu sei, você não é um desses tipos que gostam de ter essas coisas te lembrando a todo momento quem você é. Me desculpe, Zé ninguém, a minha intenção nunca foi a de arrumar encrenca, mas eu tenho que te dizer. Zé Ninguém, não é nenhum motivo de orgulho ter o nome que você tem. E Zé Ninguém, é mais vergonhoso ainda ter assumido um nome como esse por vontade própria. Pois Zé Ninguém, você não é um Zé Ninguém qualquer. Você é um Rei no meio de Zés Ninguéns. E a tua vontade só se manifesta quando se trata de lhe transformar num ninguém. E o que é a tua vontade senão você, Zé Ninguém? E se a tua vontade é você, Zé Ninguém, então o que é você, senão um Zé Ninguém?
MAD
Vários

MAS ISSO NÃO É UM LIVRO!! ISSO NÃO É LITERATURA!! NÃO! NÃO SENHOR! ISSO NÃO É CULTURA!!
Ahn... Vai se foder.
Soul On Ice
Eldridge Cleaver

Cela. Jaula. Gaiola.
Conta as horas e ignora os minutos. Pára um pouco, só o tempo de tomar um café, respirar por um segundo, e tentar olhar pela janela, pelas frestas do destino. O sol entorpecido fala uma língua estranha e cortante, coisa que não se pode escutar quando se está envolto em mutilações. Deita na cama e espera pelo próximo dia, que irá começar as sete em ponto, quando o pessoal se enfileira no dormitório, a caminho do chuveiro. Revoluções explodem na sua cabeça junto com a enxaqueca da noite passada. Ei, crioulo de merda! Levanta esse rabo sujo daí! Larga de ser preguiçoso, que aqui não é a tua laia! Vira o rosto pro outro lado, de encontro à parede cinza e descascada. Tudo é cinza e descascado por aí. Tenta falar com Deus, mas o horário de visitas já passou, e a corrente nos seus pés pesam mais do que um milhão de mundos. A corrente que ele trás da África, emaranhando a sua alma sorvida. Mais um negro numa cela esquecida e distante do tempo. Mais um escravo da mentira e do vento. Ele dobra o lençol e ajeita o travesseiro. Segue a fila. É espancado. Tira um cochilo e acende um cigarro.
* Breve, mais atalhos contagiantes. A linguagem é um vírus. Incurável. E infinito...