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CONFISSÕES
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eu confesso
que nunca estive realmente quebrado
nunca
nem de perto
me enverguei abaixo dos bueiros
numa tarde chuvosa.
mate-me
se quiser
mas eu confesso
que não quero morrer.
não.
eu nunca quis.
apenas fingi um orgasmo
para simular
uma pequena morte.
sou uma fraude.
ego
cêntrico
ista
trip.
trip
me.
trip
me.
& as minhas tripas
nunca sangraram.
eu nunca fui um coitado
de costas pro ar
com o cu pra lua
uivando
e morrendo
nos becos sebentos
do erotismo.
eu nunca fiz nada desse tipo,
você sabe,
nunca rezei,
mas também nunca fui expulso do éden.
nunca segui a moda
e não gritei aos sete ventos
sobre isso.
nunca
em toda a minha vida
vi um comercial
de creme de barbear
que me despertasse.
& nunca me barbeei após o horário comercial.
nunca me embebedei no natal.
eu confesso pra você
que nunca me confessei.
e meus joelhos estão brancos
de não me ajoelhar.
e talvez isso seja ruim,
eu não sei...
nunca devorei um coração,
e nem quero,
vidrado diante das vitrines
vendo a vendedora
bailar
em meio aos manequins
carecas
e o seu cheiro se mistura
com o óleo no assoalho
e bate no vidro
e no meu nariz
e eu confesso
que fui embora sem comprar nada.
eu confesso
que quase todas as vezes
em que fui embora
os motivos eram outros
do que os alegados.
eu confesso que eu finjo
não ver os meus professores
quando eles passam na rua.
e que não tenho nada a tratar com eles.
exceto ódios
os mais diversos possíveis.
mas eu confesso que
eles não são tão burros
quanto eu gostaria que fossem.
( e talvez eu não seja
tão inteligente
quanto eles gostariam que eu fosse).
confesso que não choro por isso.
todos
os meus delírios de grandeza
não passam de grandiosos delírios.
mas pensando melhor,
nunca tive delírios de grandeza.
todos os meus delírios são auto-destrutivos.
embora eu nunca tenha estado deprimido.
e nem destruído.
apenas
foragido
por uns tempos.
confesso que sempre minto
quando as pessoas viram as costas.
e falo a verdade
quando ninguém vê.
escrever
é uma doença.
eu sou um infecto.
não-contagioso.
e me perco dentro de um ninho,
labirinto,
de teias
e meias
sujas
que me cercam
enquanto eu teclo
e anoto
e teclo
e anoto
e me cubro com o sopro anti-social dos confins de uma
madrugada pálida
e acordada
comigo
e com as minhas palavras
minhas doenças
minhas pequenas almas
embriagadas.
uma doença
expectorante
que fala pelos dedos
e ossos da cidade.
ossos do ofício.
um vasto campo de brisas azuladas, congeladas no tempo e no espaço, que ocupam todo o espaço vazio com existências vazias. sopram vozes caladas nos ouvidos surdos. um milagre em vão, alguém me falou.
e as palavras não são nada. apenas gotas microscópicas de suor que mancham as páginas e os dedos de um vidente agonizante. vocês sabem, todos os videntes não dizem nada. e é por isso que eu me afasto de todos eles. e alguém me pergunta o que eu quis dizer com "brisas azuladas", sim, alguém me pergunta exatamente isso. e eu respondo: cruze a porta da sua casa, no dia em que você não sabe nada a respeito do lado de fora, e chegue até o ponto da cidade/bairro/rua/floresta/vizinhança/nação/realidade que você sempre soube que esteve lá, que você sempre soube como e porque e quando chegar mas nunca pensou nisso, e olhe ao redor. lá estão as minhas brisas azuladas. quer dizer, as suas brisas azuladas. e repare nas múltiplas e multiformes vidas embrionárias e moribundas que caminham ao redor. talvez elas sejam como você. talvez elas sejam você. talvez elas sejam eu. que lá estou, para me encontrar com você. ou talvez elas apenas estejam por aí.
cara, agora entre eu e você,
eu me sinto como uma tv, com você aí, me lendo por dentro e por fora.
uma tv
em preto-e-branco
com estática
e fantasmas,
e sem canais a cabo.
PLIM, PLIM!
"Querido diário,
eu matei alguém.
Brincadeira...
Eu escrevi um livro.
O que quer dizer:
eu matei alguém.
algum dia eu vou embrulhar os meus relatos diários, num enorme amontoado de caos e exclamações, borbulhante e fedido, e mandar pra alguém pelo correio. vou escolher um nome aleatoriamente, destes catálogos e bancos de dados, e mandar pelo correio. por pura sacanagem. um pudim pegajoso de versinhos mal-digeridos. e ficar aqui só imaginando a cara do sujeito.
& que se dane a razão e o esperado.
EU CONFESSO PRA VOCÊ
QUE EU NÃO PENSEI NAS EXPLICAÇÕES.
E NÃO DOU A MÍNIMA,
POIS ELAS CORROEM A ARTE
E AS IMAGENS,
COMO FERRUGEM
ESCORRENDO
PELOS SÉCULOS
E DIAS
Simetria de mármore
contornando silfos.
Tornando-os inertes
e sólidos
numa beleza sepulcral. Que todos admiram
sem saber que estão vendo
ícones mortos
e perdidos em sombras e contornos.
Pois a perfeição é mórbida. Isso é o inconfessável.
confesso
que
todas as minhas palavras
(somente as escritas)
são confissões.
Mas os seus ouvidos mentem
e recebem orações
insanas
rasgadas.