Nova página 0

 

relapsos diários para a juventude

ou

Vivendo por um Fio: Uma novela do Capitão de Mil Rostos

 

 

    Caricaturas, ergam o mundo! Ergam cada pilar destas esquinas decrépitas que tanto anseiam pelas nossas almas! Não percam os seus preciosos momentos contemplando o vazio, caguem com tudo de uma vez por todas! Pintem todas as coisas de cinza e cor-de-rosa! Cada um de vocês, caricaturas, sorrindo e colorindo essa mentira cor-de-rosa, cada um de vocês possui o meu semblante para estampar ao longo dos muros da cidade. Piada. Cada grito é uma piada. Cada morte, uma piada. Cada um de vocês, uma piada. Eu e vocês, piadas carbonizadas pelo século XXI. Não tentem se desesperar. É inútil. É fútil. Tão fútil quanto os nossos prazeres e os nossos teatros e as nossas verdades. Despejemos sombras de cartoons pelos corredores escuros da posteridade. Ou deveria chamar de celebridade? Ah, faz alguma diferença? Despejemos no esgoto todo o nosso brio. Foda-se. Caguemos com tudo. Façamos o que fazemos no banheiro todas as manhãs. Vamos pintar e contornar as figuras patéticas que dançam pelo salão. Aqui é o covil da alegria, essa desgraçada prostituta, com dentes tombando pelos lábios e germes brotando dos poros. É chegado o tempo do riso! Faça de mim um riso, faça-me letal. Ah, foda-se todo esse papo. Só estou despejando um pouco de bile por cima das minhas palavras. Todos fazem isso uma vez ou outra, não é mesmo? Então, o que estão esperando? Comecem logo a aplaudir, suas caricaturas sorridentes, escondidas por detrás de cortinas escuras, comecem logo a aplaudir! Talvez vocês possam viver em paz, prensando os sentimentos. Talvez vocês possam encostar a cabeça no travesseiro, soltar um longo suspiro e dormir com um sorriso nos lábios, com o desespero envidraçado num frasco de channel. Talvez vocês possam ganhar algum dinheiro prensando os gritos e afagando a morte. Talvez entre em cartaz. É isso aí, talvez vocês consigam existir como caricaturas. Eu sei que eu não consigo. Mas não importa. Esse não é sobre mim. Tampouco sobre vocês. É sobre porra nenhuma. Que no fim das contas é o que conta.

 

   

    Eu não sou mais tão jovem quanto gostaria de ser. E passei tempo demais dessa tarde assistindo programas nojentos na televisão. Ah! Ninguém quer saber disso!

 

 

    Caramba! Estou por aqui, meio que de bobeira, e acabei topando com isso aí de cima. Que raio de texto solene foi aquele?! "Cada pilar destas esquinas decrépitas que tanto anseiam pelas nossas almas"????!!! Cara, se não fosse eu a escrever, diria que o sujeito que escreveu isso aí é um almofadinha de marca maior! Um verdadeiro pó-de-arroz. É isso que dá tentarmos fazer bonito, meus amigos: acabamos com todas as nossas idéias, como demônios famintos por pecados ou qualquer coisa assim. Esqueça tudo o que eu disse aí em cima. Estava meio que inebriado pelas frases e zonzo pela própria inspiração. Droga, nem mesmo acredito em inspiração! Acredito na sinceridade, e acho que isso é tudo. Na minha opinião, um cara que senta na frente de um computador (ou uma máquina de escrever, ou um caderno, ou seja lá o que for) deve registrar somente a verdade e nada mais que a verdade. Não falo desse papo careta de "verdade" como alguma coisa concreta, ou legítima ou sei lá o quê, mas sim alguma coisa que realmente exista dentro da pessoa. Algo que venha de dentro E DE FORA AO MESMO TEMPO. Pra mim inspiração é o ato de trazer pra dentro de si o ar que vem de fora e depois assoprá-lo novamente para o mundo, com a sua própria cor. Sim, essa é a inspiração que me importa, e não a baboseira de toque divino sobre a fronte do artista! Inspiração-expiração, sacou? E pra você, Daniel, chega desse papo de "anseiam pelas nossas almas" e "despejemos", "gritemos", "clamemos" e todos os emos mais. Você arruinou uma boa idéia, seu imbecil.

    *imperativo afirmativo de merda...

 

 

    Saco cheio da cidade. Cada um dos minutos desperdiçados pelas tardes friorentas são atirados dentro do esgoto. E as pessoas os acompanham. De saco cheio de passar pra lá e pra cá e subitamente arranjar alguma coisa para fazer e olhar para o relógio central, esperando que os minutos passem e a noite caia, destruindo o sol e a agonia. Sabe o que me deixa de saco cheio? São os sujeitos que me entregam panfletos quando estou cruzando uma calçada. Estou lá, passando rente às vitrines, quando de repente me chega um desses caras estendendo um folheto a respeito de todo o tipo de coisa imaginável, sem nem ao menos me dar tempo para recusar ou gritar ou sei lá o quê. Mas sabe o que me deixa de mais saco cheio ainda? São os sujeitos que entregam panfletos para as pessoas que cruzam as calçadas e no exato momento em que estou passando ele não me entrega nada. Porra, se o cara está entregando a droga dos panfletos para todos os transeuntes, por que não me entregou quando passei? O que é? Não sou bom o bastante para os seus panfletos idiotas? Que tipo de informação está contida ali que eu não posso ver, ao contrário do restante da população? E as vitrines que não refletem ninguém que eu queira encontrar, isso também me deixa de saco cheio.

 

 

    & faz tanto frio que os meus dedos estão rijos como pedras enquanto escrevo isso. Pensei em colocar luvas, mas acho que não conseguiria escrever de luvas.

 

 

    Acho que o cara que colocou a AIDS no sexo foi o mesmo que colocou o bombom de coco na caixa de bombons sortidos. A partir daí você teve que tomar cuidado ao comer.

    E o cara que colocou os corações partidos deve ter sido o mesmo que colocou a AIDS. Naturalmente que com uma diferença de algumas décadas.

 

 

    Algumas pessoas simplesmente não acreditam em Deus. Elas sentam na tua frente, pedem uma xícara de café, atendem o telefone e simplesmente dizem que não acreditam em Deus, com o maior dos sorrisos. De certa forma elas estão certas. Deus não parece ser um cara muito confiável. Basta dar uma espiada na maneira como ele conduz as coisas. Ele fez a literatura, e então ele fez os críticos, e não acaba por aí, depois ele fez o ego. Deus fez o dinheiro e até aí tudo ótimo, só que depois disso ele fez a política e o mercado, e acabou cagando com tudo. Deus fez o conhecimento e brindou o homem com a capacidade de pensar! E então criou as instituições de ensino, onde você pode pegar a sua parcela de inteligência por suaves mensalidades ao longo de um período de uma década e meia. Deus colocou na terra a beleza, clamando pelos olhares apaixonados dos artistas que se dispõe a retratá-la em toda a sua plenitude, e também colocou na terra os pintores medíocres. Deus criou a vida E SE FEZ A VIDA! e todos nós a recebemos no dia em que abrimos os olhos, mas então colocou a morte no fim do caminho, e isso se você tiver realmente muita sorte, senão acaba topando com ela pelo meio do caminho mesmo. Deus fez o amor, que nos arrebata com os seus sonhos e visões a cada vez que encontramos uma garota bonita passeando pelas esquinas. Daí ele fez o livre arbítrio, e acabou com toda a nossa alegria quando a mesma garota bonita, objeto do nosso amor, faz uso desse mecanismo e diz NÃO. Como uma forma de consolação, Deus criou as relações casuais, com meninas gatinhas e gostosas que se enroscam pelas suas pernas, dizendo que você é o tal, no entanto, como já disse antes, Ele criou a inteligência, o que nos faz perceber a sordidez da sua atitude. Deus fez todo esse tipo de coisa sem sentido e depois criou pessoas como eu, dispostas a corrigir tudo o que Ele fez de errado com uma caneta e uma folha de papel. Agora me diz, dá pra acreditar em alguém assim?

 

 

    Ah, foda-se! O frio tá intenso pra caralho! Coloquei as malditas luvas. Só que agora ficou difícil para escrever. Elas possuem o poder de acabar com a minha capacidade de digitação, bem como com a minha capacidade literária. Acho que vou parar por aqui.

 

 

    Minha ex-namorada me disse que sou uma ficção. A garota deve estar certa. Sou uma ficção quando caminho nas ruas e fecho os olhos para dormir. Continuo sendo uma ficção nas manhãs de sol, com os cachorros sorrindo ferozes para o céu vermelho, e coloco os pés na calçada, sentindo o calor morno da cidade respirando debaixo dos meus tênis. Mas quem se importa? Sei que eu não me importo. Na verdade, não me importo nem um pouco. Não há nada de errado com isso. A realidade não quer dizer nada para mim. A vida verdadeira é o que fazemos dela. E eu faço a minha, modelando os momentos com os dedos úmidos, seja nas palavras ou em qualquer droga de esquina. Acho que vou acabar cortando o cabelo.

 

 

    Não vou me fazer de derrotado só para agradar a moda. Sei que isso é o que se espera de caras como eu: que acabem se rastejando ao longo do longo solo áspero da derrota, gritando as suas pequenas estrofes feito papagaios no cio da inspiração. Mas foda-se, não quero saber de moda, ou de tendências ou de críticas. A derrota é o caminho mais fácil e vou fugir dele, porque ainda não sou um derrotado. Tá certo, existem muitas coisas que não consigo fazer, mas isso não faz de mim um derrotado. Quando estou sentado na cadeira do quarto, esperando que o dia acabe, as imagens não me dizem nada, são como uma folha em branco que voa amassada sobre o vento, e penso, "mas que droga. Simplesmente não tem fim!", e minha cabeça dói. No entanto, isso passa longe da derrota, por mais que os critiCUZINHOS da moda digam o contrário. Folhetins literários também não ficam muito atrás. A noite me tomba nas costas sem dizer uma única palavra, e sussurra um silêncio gutural que é refletido nas lâmpadas vermelhas dos postes da cidade, e chamam isso de derrota. Não sabem de nada, os coitados. Essas são apenas mais algumas das coisas que não consigo. Não consigo lavar a cabeça sem que metade do shampoo escorra pelos meus dedos. Não consigo sorrir por mais de dois minutos seguidos. Não consigo achar as palavras certas nos momentos certos. Não consigo ter paciência para os momentos errados. Não consigo deixar de ter dúvidas. Não consigo ver beleza numa tarde de domingo entulhada de flores vivas. Não consigo dormir assim que meu corpo cai sobre o colchão. Não consigo me lembrar dos pesadelos. Não consigo dizer bom dia para os pobres coitados que esperam os seus ônibus nas primeiras horas da manhã, cheirando a cigarro e desesperança. Porra, muitas coisas que não consigo. Não é por isso que vou me passar por derrotado, só para agradar as expectativas e atrair os aplausos. Um monte de gente já faz isso. Você escolheu o cara errado.

 

POR OUTRO LADO

    Tem dias em que você só se fode. O pior de tudo é a incerteza. Não saber se está realmente fodido ou se tudo não passa da mais bizarra e cruel imaginação apodrecida. Acho que isso é o pior. Pior do que estar fodido, do que se foder, é não saber se realmente está fodido. Hoje não foi diferente. Ainda são dez e quarenta e cinco da manhã, um sol branco brilha lá fora, banhando a grama com toda a sua falta de cor otimista, e já sei que é um dia fodido. Não é pessimismo não, muito menos certeza, mas sim a incerteza, a falta de confiança no sol e na grama e na luminosidade babaca sobre a cidade. É tudo isso e muito mais.

    Então, hoje eu acordei as dez para as seis da manhã - um frio dos infernos em Friburgo! Ventania a dar com o pau! Perucas voando pelos ares e dentaduras tremendo a torto e a direito! - coloquei o meu suéter verde e a surrada jaqueta jeans por cima, uma calça igualmente jeans que não esquenta nada, e fui pra rua. Agora imagina você, seis e meia da manhã e eu na rua, completamente sozinho. Não estava indo para a faculdade, porque acabei trancando esse período, estava zanzando com a cabeça na lua, completamente apaixonado pela vida!

    Dentro do ônibus tive um acesso violentíssimo de tosse (um daqueles que você se engasga com a própria tosse e acaba tossindo ainda mais, não conseguindo parar de jeito maneira) e tive que saltar dois pontos antes de onde saltaria, porque não queria acabar vomitando no cara ao meu lado. Caminhei pela rua, determinado a seguir o meu destino (seja ele qual for), tossindo sem parar, meio que me sufocando, o rosto todo vermelho e as lágrimas brotando dos olhos. As poucas pessoas nas calçadas me observavam, torcendo que eu morresse ou alguma coisa parecida.

    Nada do que eu esperava que acontecesse na rua aconteceu. Tudo deu errado. Ou melhor, tudo não deu. Me fodi sem saber ao certo se me fodi. Em dias como esse, em que você acorda em meio a ventania e sai para a cidade assustadora, a vida não surge na forma de um criolão de dois metros de altura a te enrabar, mas sim como uma grande piroca fantasma, que acaba te fodendo sem que você consiga visualizá-la ou mesmo senti-la, deixando-o sozinho na incerteza. Ha, ha.

    Mas vou sair de novo na parte da tarde. Na vã tentativa de resolver todos os assuntos que deveria ter resolvido de manhã -VOCÊ JÁ DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO, "MAS QUE RAIOS DE ASSUNTOS??!!" CARA, O QUE IMPORTA POR AQUI É O TEXTO, NÃO A VIDA, SACASTE?. Vou novamente para a rua, mesmo sabendo que o dia já está fodido. Ele não me engana com todo esse sol traiçoeiro por detrás da ventania e essa grama brilhante e as lojas abrindo na hora certa. É um dia fodido. E tenho certeza de que quando voltar para casa ao anoitecer, tornarei a dizer que este é um dia fodido. Se eu esquecer, podem me lembrar. *como se não bastasse, o frio ainda rachou os meus lábios...

 

 

    Estou com um cd do Yamandú. Se chama "Yamandú ao Vivo". Meu amigo, o cara manda muito bem! Faz com o violão o tipo de coisa que eu tento fazer com as frases, e o mais surpreendente é que faz tudo com sucesso! Se os meus textos fossem melodias de violão, gostaria que fossem coisas assim. Muito bom mesmo!

 

 

    Um dos fenômenos sociais que mais me irrita na humanidade é não saber que Knockin' on Heaven's Door é do Bob Dylan, e creditá-la ao Guns n' Roses! E essas pessoas imbecis que vemos por aí, então? Cantarolando Knockin' on Heaven's Door, sempre na versão do Guns n' Roses, com aquele estúpido "Ya, ya, ya, ya, yeah!" no final da frase. Isso é mesmo de vomitar!

    O velho Dylan estaria se revirando no túmulo, se ele estivesse morto.

 

 

    As pessoas gostam de fazer muita pose. No fundo não passam de um bando de certinhos.

 

 

    Fazendo uma última revisão do próximo livro. Trabalheira danada. É impressionante como existem pequenos detalhes, frases, palavras, vírgulas, sentidos e parágrafos, que acabo modificando! Talento natural é uma pinóia! Não acreditem nessa besteira! O que existe é muito esforço, muito trabalho em cima de cada coisinha que chamam de arte! Quando vocês escutam uma música límpida e etérea, assistem a uma peça genial ou lêem uma passagem brilhante, podem ter certeza que o sujeito suou ali em cima, queimou muito a cuca antes de colher algum fruto! Acho que vou concordar com Van Gogh que disse que "a grandeza não é fortuita, ela tem que ser desejada". É isso aí! E olha que o cara era um dos grandes!

 

 

    Minha cachorra morreu. Vocês são as primeiras pessoas para quem estou falando isso. Foi num dia que eu não estava aqui. De noite. O que tenho a dizer sobre ela? A melhor cachorra que já existiu no mundo. A mais verdadeira. Não esperava nada de mim além de ser amada...e amava sem condições, sem intenções ou pretensões. Ela me olhava com seus olhos castanhos transparentes e sorria, sempre sorria, e então era como se falasse comigo...numa linguagem que ninguém mais fala. A linguagem que existe nos meus segredos, por trás de todo o meu silêncio, linguagem que vocês acreditam escutar nos meus textos mas, que me desculpem, estão passando longe, rapaziada. Ela era o tipo de cachorra que estava sempre por perto quando você acorda, do tipo que vai até a sua cama e verifica se você está bem e depois deita no chão, ao seu lado. Ela era a minha cachorra e a cachorra de todos aqueles que acreditam que pode existir o amor, mesmo quando não existe mais nada para se acreditar. Então eu estava lá, jogando cartas com meus amigos naquela noite (por que não fiquei em casa?), e descobri que ela tinha morrido assim que entrei na sala. Era epilética. Uma das epilepsias mais fortes jamais registradas. Toda aquela vida intensa se foi, todo aquele amor incondicionado pela simples existência não existe mais, toda aquela alegria sem impurezas, refletida num sorriso silencioso, acabou. Ainda assim escrevi um poema. E coloquei com ela quando a enterramos. Alguns de vocês vão dizer "mas que estupidez, um poema para um cachorro!". Não me importo. Não me importo com aqueles que vão achar estúpido. Coloquei o poema junto a ela e então a enterramos. Um poema que servirá de companhia quando ela estiver atravessando as fendas abissais da eternidade e quando estiver no mais remoto recanto de onde não existe o tempo, somente a escuridão. O poema que será a minha mão acariciando seus pêlos, a minha presença, indo com ela para onde quer que ela vá. Dizem que sou um cara que não demonstra os sentimentos. Não chorei nem rezei quando ela morreu. Apenas escutei a notícia, e não sorri. Mas essa é só meia-verdade. Eu chorei, e eu rezei, quando escrevi o poema para ela. Eu sempre choro, rezo, quando escrevo. Acho que é isso o que chamam de "sagrado". Escrever é sagrado para mim. Minha cachorra também é sagrada. Foi por isso que dei a ela um poema, porque é só o que há de sagrado em mim. Eu chorei, e eu rezei, quando escrevi o poema. E me coloquei ao lado dela, para acompanhá-la ao longo do mistério do infinito.

    Mel, eu estou aqui ao seu lado, enquanto você coloca a cabeça sobre a terra fria da natureza. Estou ao seu lado enquanto os dias passam silenciosos por dentro da areia e apagam a sua silhueta.  Eu estou aqui, enquanto você pisa com suas quatro patas na carência do tempo e do espaço. Estou aqui enquanto você late pelos túneis escuros, ecoantes, das lembranças. Estou aqui, chorando, rezando. Ou melhor, acariciando seu pêlo.

 

 

    É estranho entrar de noite em casa e não ver a minha cachorra deitada no sofá. Acho que tudo é estranho na minha vida. O que ela diria para mim ao me escutar falando essas coisas? Provavelmente "au, au!".

 

 

    Sou um autor publicado. Elogios a rodo. Congratulações e apertos de mão em frente às vitrines, e todo o tipo de acenos. Dizem coisas sobre mim que fazem com que me surpreenda comigo mesmo. Todas as coisas boas que você sonha que digam para você. Entrevistas. Apareço em revista de mulher pelada. Agenda apertada como um cu de golfinho. Sim, um autor publicado, se dando bem com crítica e público. Tudo que um escritor espera para o futuro. E mesmo assim ela passa pela calçada e aquele sorriso ainda faz eu me sentir como um cachorro atropelado. Isso eu não imaginava. Sento no meio-fio e espero pelo último ônibus, como qualquer pobre coitado sem futuro que se encontra por aí. Perco o sono por aquele sorriso, por ela, passando pela calçada. Não. Mentira. Não perco o sono. Isso foi exagero de escritor para impressionar o público. Não perco o sono, mas sonho com aquela imagem A NOITE TODA. E acordo com uma puta dor de cabeça. Autor publicado/elogios a rodo/tudo dando certo, e ela passa e me sinto como um cachorro atropelado. Sim, é isso aí.

 

 

    Antes de tudo, tenho que pedir desculpas para a rapaziada que espera atualizações regulares no site. Sim, eu sei, as atualizações não estão lá muito assíduas. O negócio é o seguinte, não saco porra nenhuma de informática e tá muito difícil colocar os textos no ar. São raras as vezes que consigo, pode acreditar, são RARAS mesmo!

    Não sei, acho que vou contratar um cara para cuidar da manutenção tecnológica dos textos, fazer os upgrades literários, digamos assim. Alguém aí se habilita? Pago um real por mês, e mais um vale refeição. Não é muito, mas, droga, o que é muito hoje em dia?

 

 

    Tenho uma festa para ir hoje à noite. Isso é típico dos meus amigos, organizar festas. Fico impressionado com a disposição que essa rapaziada tem para organizar as tais festas, quase todo dia. A maioria acaba em fiasco, mas não importa, o impressionante é a disposição que eles têm, o ânimo inabalável para fazer as mesmas coisas, ver as mesmas pessoas, dia após dia. Não consigo sorrir por duas festas seguidas. Não consigo me empolgar ao chegar numa festa depois de sair de outra, e sorrir excitado ao falar com o anfitrião. Meus sorrisos não são verdadeiros o bastante, sinto como se estivessem esticando o meu rosto, quase saltando fora das minhas bochechas. Mas de qualquer forma, tenho essa festa para ir hoje à noite. Talvez não seja um fiasco. Mas não é nisso que estou pensando, não é no sucesso da festa. A grande questão é: EU QUERO QUE NÃO SEJA UM FIASCO??

 

 

    (Só pra informar: estou escrevendo essa confissão no mesmo dia da confissão de cima. A festa ainda não aconteceu. Ainda será hoje à noite. Então vamos em frente) Cara, não aguento tanta chatice. Lá na faculdade, por exemplo, como é que pode existir tanta chatice junta, escondida no fabuloso mundo acadêmico? Às vezes tenho a impressão de que o planeta terra é constituído exclusivamente por coisas que são um verdadeiro pé no saco. Acho que é isso, o mundo é dos chatos. E se você quiser chegar a algum lugar, precisa ser um chato. Esse é o meu problema, não tenho jeito para a coisa. Quer dizer, também sou chato de vez em quando, também tem gente que não me aguenta por muito tempo, mas a CHATICE propriamente dita, a chatice como um conceito geral e abstrato, não consigo entendê-la. Por mais que eu tente, ela não deixa de ser uma incógnita para mim, uma incógnita cruel e perigosa.

    Para ser rico é preciso gostar da chatice, ou pelo menos aceitá-la. É preciso saber como protocolar os alvarás, é preciso treinar as mãos para todos os carimbos do mundo, e é preciso uma certa desenvoltura com a burocracia (que na maioria das vezes é chamada simplesmente de "civilização"). Então é isso, saiba como manejar os protocolos, seja um protocolador profissional, porque essa é a demanda do mundo. Essa é a súplica dos homens. Que sejam feitos os protocolos! Ou se preferir morra no esgoto, onde não existem protocolos, apenas ratos e dejetos e doenças.

 

 

    A festa não foi um fiasco. Não sei se gosto disso. Sinto um quê de perigo no ar.

 

 

 

   

 

AS YOU KNOW...

TO BE CONTINUED