\n'; document.write(barra); } } changePage();
ACORDES

Imagem fechada. Apagada. Um salão de cinema repleto de gente que aguarda em silêncio, como um prelúdio ou um dilúvio. É quarta-feira, um dia incomum e fechado, e os meus olhos fechados criam imagens no silêncio.
Onde está Maria Callas? Uma voz misteriosa grita dentro dos ouvidos inertes de pessoas desesperadas e cansadas. Onde está Maria Callas? Grita uma voz misteriosa sufocada pelos becos da cidade. Onde está o Rock'n Roll? Gritam as divindades no altar do sacrifício. Onde está o Rock'n Roll? Grita o silêncio. Onde está Maria Callas? Grita o Rock'n Roll.
Morrendo numa cidade muda.
Morrendo
em morte surda.
Ao meio-dia a quarta-feira está apagada e ninguém percebe, ninguém escuta o seu silêncio, todos estão surdos. Tão surdos quanto cegos. Decalques doentes pelas curvas do país. O ruído dos seus passos ensandecem a poesia, dentro de uma roda cultural ao meio-dia. Tudo é agonia quando o som mergulha na surdez. Os edifícios brotam do cimento como árvores doloridas, perdidas nas ruas e nas portas abertas. É uma cidade bonita de se ver, se você não tiver nada melhor para fazer e puder despender um pouco do seu tempo com vitrines repletas de roupas e sapatos. As pessoas costumam gostar, elas param e admiram os manequins enquanto os chapéus sufocam as suas cabeças, esse tipo de coisa. Talvez amanhã as ruas sejam outras e os pássaros já não voem ao avistar um ônibus cruzando a rodovia. Quando isso acontecer o sol vai sair detrás da montanha, e cantar para o dia como os namorados de fim de semana que assombram as noites da metrópole.
Um dia estranho para se escrever, esse aqui, mas eu persisto, dentro de um moletom universitário, numa tarde rubra, e me deparo com textos sonoros. Pois é somente isso o que sei escrever, textos sonoros. É somente o som que me importa. O som dos hospitais ao cair da noite, o som do beijo nos lábios virgens, o som do ódio perdido dentre galáxias escuras, o som da natureza desaguando no meu telhado, o som dos meus dedos, dedilhando a loucura e o medo e a vida, o som da vida, no canto dos pássaros morrendo e nas buzinas desesperadas, o som das meninas, caminhando para casa, o som da morte destronando o amor, o som das folhas secas sob os meus pés, o som das risadas dos meus amigos, melhor do que qualquer coisa, e o som do nada, que aguarda paciente nas esquinas. É, esse é mesmo um dia estranho para se escrever...somente assuntos estranhos, assuntos que desafiam a dissonância...que me desafiam...e eu perco a batalha...eu perco feio...

Todos os dias são estranhos por onde galopam os cavalos. Os asilos maculam o horizonte e os loucos gritam no portão. Batendo nas portas do céu. Eles escutam o silêncio e gritam. E gritam. E gritam.
Eu ouço vozes, amigo, é só o que posso dizer. Eu ouço vozes e elas me dizem coisas, coisas que você nem mesmo pode imaginar. Escuto as canções que Netuno enterrou nas areias das praias, os gritos das ondas, o som do sexo, escuto a loucura, escuto a noite, a noite cega, escuto a minha voz. Eu ouço vozes, cara, pode acreditar nisso, e uma delas, você sabe, uma dessas vozes, diz que é Deus. E quer saber? Eu acredito. Pois ela sabe coisas que nenhum cara poderia saber, só mesmo sendo Deus. Ela sabe do que é feito o ar. Isso pode parecer simples, mas ela sabe fazer o ar, e do ar, todas as coisas. Sabe doar todas as coisas. Ela sabe os números do infinito. Ela sabe a cor do desconhecido. Quando presto bastante atenção, ela me diz coisas a respeito dos mistérios do fim. E me diz que tudo é simples, tudo é tão simples que até mesmo alguém como eu e você poderia ser Deus. Fui no médico na semana passada e disse pra ele que ouço vozes no silêncio. O sujeito deu uns telefonemas e me fez passar oito anos dentro de um quarto de hospital. Agora os oito anos são passado. E eu sei sobre tudo o que não é falado. Acho que sou Deus. Acho que agora Deus sou eu.
STEP
STEP
STEP
STEP
Passos compassados se aproximam pela estrada.
Escute.
Escute as canções que tocam no rádio.
Repare como seus acordes são tão parecidos
com o som da loucura
com o ganido da dor
e com os passos do estranho
que bate à porta.
Os passos compassados são fúnebres e solenes,
com passados
sóbrios
anunciando a noite
que dorme debaixo da terra.
Dentre as montanhas.
Escute.
Escute
as árvores derrubando galhos
asas batendo
e rios correndo.
Escute o que eu tenho pra dizer.
Escute.
Eu sou aquele estranho batendo na porta.
Vou pedir uns trocados
e jogar alguns dados.
As vozes subjugam a morte e sobrepõe o fim. Quando essa quarta-feira acabar e todas as meninas já estiverem em casa fechando as janelas e apagando as luzes, ainda existirão pessoas no escuro, sentadas sozinhas nos cantos abaixo das pontes, escutando um disco dos anos cinqüenta. Ninguém faz idéia do que elas esperam do dia de amanhã, mas a verdade é que elas não esperam nada, nem do dia de amanhã nem de dia algum. Elas escutam as vozes nas suas cabeças. O silêncio ao redor perde o significado quando a música termina. Tudo está claro naquele canto escuro abaixo das pontes. Sobre suas cabeças, carros velozes ultrapassam o limite da velocidade e atravessam o concreto. Sob os seus pés, o mundo. Ele pára e reflete no que está escutando. O cantor já morreu há muito tempo atrás. Uma grande tragédia. Tudo faz parte da tragédia, divina. Divina Tragédia.

Escute
Escute
Escute a música das esferas.
Acorde.